“Uma realidade que me transforma”

230

Os processos de auto-transformação não são simples e muito menos previsíveis. Mas a verdade é que acontecem. E, no caso da ACEGE, parecem traduzir-se no espírito e na missão de todos aqueles que a integraram ao longo das suas sete décadas de existência. Em 2022, os rostos podem ser outros, mas os valores e propósito que sempre a orientaram continuam a perseverar e a servir de base para a sua acção e para os projectos que abraça. Neste painel inaugural do seu VII Congresso, escutaram-se histórias de transformação pessoal, onde o amor como critério de gestão, a liderança de serviço e até um “software” interior se cruzam, pelas vozes de Paulo Lopes, António Pinto Leite, Pedro Rocha e Melo e Marta Figueiredo. POR ALEXANDRE ABRANTES NEVES

Um líder cristão constrói um espaço de encontro em que descarta as palavras bonitas e aposta no saber escutar”

PAULO LOPES – ACEGE/CnE

“Não fostes vós que me escolheste. Fui eu que vos escolhi, a ir e a dar muito fruto, que permaneça” (João 15, 16-17). Foi com esta citação bíblica que Paulo Lopes, membro da direcção nacional da ACEGE, iniciou o painel cujo enquadramento esteve a cargo de Fernan de Elizalde, centrando-se este último na vida e obra de “Enrique Shaw – Um Gestor Santo”.

Para Paulo Lopes, qualquer líder cristão é chamado a transformar não só a sua empresa, mas também o país e a sociedade, num processo contínuo de transformação pessoal, em que o coração e a fé se catapultam para o quotidiano e deixam uma marca concreta na vida das pessoas. Tal como disse Jesus, “O maior servo é de todos”.

E para que essa transformação seja possível, o orador sugere um caminho concreto a ser trilhado: escutar, servir e ser verdadeiro. Paulo Lopes sublinhou igualmente que o amor como prática de gestão é olhar para os outros sempre como um fim e não como um meio, ao mesmo tempo que integra uma “educação” do nosso olhar para vermos naqueles com quem nos cruzamos o exemplo e a vitalidade do Senhor.

Traduzindo, nas suas palavras, o verbo que acompanhou o VII Congresso da ACEGE, transformar significa muito mais do que ter mérito ou êxito, sublinhando ainda que um líder cristão não segue os critérios convencionais do sucesso. Ao invés, constrói um espaço de encontro, em que as palavras bonitas são descartadas e se privilegia a aposta no saber escutar e em fazê-lo com a serenidade necessária: “até porque Jesus anda devagar e discretamente – tal como os sinais de transformação que nos deixou”.

Preferimos falar de Jesus e de um exemplo na 3.ª pessoa do que assumir a exposição e a fragilidade que o amor nos traz”

ANTÓNIO PINTO LEITE – Morais Leitão

Ao longo de 70 anos, a vida da ACEGE foi marcada por momentos inspiradores que tiveram impacto no tecido empresarial português. E um deles foi, sem dúvida, a escolha do tema para o seu 5º Congresso, em 2012, o qual geraria alguma polémica e surpresa a muitas pessoas: “O Amor ao Próximo como Critério de Gestão”. Esta “eleição” não esteve isenta de debate por parte da direcção da ACEGE, a qual era presidida, na altura, por António Pinto Leite, constatando-se mais tarde que a opção não poderia ter sido mais acertada.

Numa entrevista ao VER e poucos dias antes do congresso acima referido, o presidente da Associação assumiria a simplicidade da conjugação entre amor e gestão da seguinte forma: “o confronto entre amor e empresa pode parecer irrealista ou inoperacional. Mas quando tomado como critério de gestão tem uma definição muito concreta: ‘significa tratarmos os outros como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles’”. Assim, e para além de ter resultado num animado e interessante debate que caracterizou o 5º Congresso da ACEGE, esta “simplicidade” traduziu-se igualmente na publicação de um livro, com o mesmo título e assinado pelo então presidente da Associação.

Uma década mais tarde, o tema voltou a servir de mote à intervenção do ex-presidente da ACEGE no seu VII Congresso, desta feita no painel “Uma realidade que me transforma”. Nas palavras de Pinto Leite, “a transformação vem do encontro e às vezes temos vergonha de dizer que tivemos encontros com Cristo”. Mas, garante, foi isso que lhe aconteceu no período preparatório do congresso realizado no já longínquo ano de 2012.

A fórmula parecia-lhe igual à que habitualmente seguia nas diversas conferências e palestras para que era convidado: não tendo ainda ideia para a sua intervenção, iria procurar inspiração a um dos muitos livros da sua biblioteca. E, desta vez, o escolhido seria uma obra de Karl Ludwig Bonhoeffer, médico e membro da resistência alemã contra o nazismo. O que Pinto Leite não esperava é que mal abrisse o livro, fosse interpelado por uma simples frase: “o centro vital da ética cristã é o amor”.

Num primeiro momento, a agitação interior que sentiu veio da surpresa, combinada minutos mais tarde com uma preocupação legítima: “afinal, como é que vou falar de amor a 400 empresários?”. Porém e “como todos os encontros com Cristo são inescapáveis”, antes de chegar ao congresso, já Jesus lhe mostrava como a sua intervenção iria marcar a ACEGE daí em diante, com a mensagem “Seja o que Deus quiser”.

O motivo de preocupação desvaneceu-se por completo na tarde deste 5º Congresso quando tudo se resumiu à emoção de uma só ideia: a força do conceito de “amor”. O amor é, na visão do ex-presidente da ACEGE, um conceito que, quando não é banalizado, é contornado: “preferimos falar de Jesus e de um exemplo na 3.ª pessoa do que assumir a exposição e a fragilidade que o amor nos traz”, declara.

Pinto Leite recordou ainda os dias que se seguiram ao evento, nomeadamente o momento em que mostrou a capa que o Diário Económico dedicava à sua intervenção a Sandra, a senhora da limpeza da sociedade de advogados Morais Leitão. O que não esperava é que Deus lhe trocasse as voltas mais uma vez: Sandra não sabia ler e, depois de Pinto Leite lhe dizer que era a citação “Amor como critério de gestão” que fazia a manchete do jornal naquele dia, os seus olhos encheram-se de lágrimas.

Assim e “no meio daquele poema”, Pinto Leite apercebeu-se de que aquelas lágrimas eram de esperança e, por isso, de uma enorme responsabilidade para os gestores. A liderança é quotidiana e o caminho para chegar ao Amor dentro das organizações, apesar de longo, é trilhado todos os dias em percursos mais ou menos sinuosos. Como afirmou também, “ o amor não é o oposto do sofrimento, porque ambos fazem parte da condição humana. Os despedimentos, os conflitos e as desilusões acontecem – e não têm de ser incompatíveis com uma prática cristã dentro da empresa”. A seu ver, um gestor católico só tem de assumir e cumprir dois grandes critérios: perceber a importância do amor na definição do bem maior e perceber a importância do bem maior na definição do amor como critério de gestão. Só assim chegará à santidade e ao exemplo de amor que a ACEGE tem manifestado ao longo dos últimos 70 anos.

As pontas soltas e as dificuldades com que nos deparamos não passam de provas para acreditarmos que, do outro lado, Deus é um tecelão esforçado em construir um projecto bonito”

PEDRO ROCHA E MELO – José de Mello

Os ingredientes chave para transformar a realidade podem variar de organização para organização, mas protagonista há só um: Deus. É nesta proposição que acredita Pedro Rocha e Melo, vice-presidente da ACEGE entre 2013 e o presente ano: nas suas palavras, “o Senhor encontra-se em todos os lugares da realidade que nos rodeia e transforma-a de formas tão variadas que vão desde os sacramentos até às pessoas”.

E Deus transforma essa realidade porque a conhece na sua totalidade, por mais complexa que seja. Para Rocha e Melo, o que acontece à nossa volta é uma esfera e, por isso, por mais que a rodemos, só conseguimos ver uma parte de cada vez, ou seja, a ideia que temos da realidade total é uma simples conjectura. Assim, e como Deus conhece de forma completa e verdadeira a realidade, a melhor estratégia para uma gestão cristã assenta em três etapas por excelência: escutar, servir e confiar.

Escutar porque fixamo-nos nas nossas esferas demasiadas vezes e não valorizamos a opinião alheia, “sendo o caminho do amor como critério de gestão feito de empatia e da capacidade de nos pormos no lugar do outro”, mas também em saber servir. Pedro Rocha e Melo relembrou a sua ida a Fátima a 13 de Maio de 2000 e o facto do Papa João Paulo II ter aproveitado a sua presença na Cova da Iria para presidir às cerimónias religiosas desse ano, pedindo a todos os pais e educadores que colocassem as crianças na escola de Nossa Senhora para que aprendessem a servir Maria tal como os pastorinhos o fizeram.

Desta forma, “pôr-se ao serviço como os pastorinhos” é olhar para a liderança como um serviço aos outros, com o conhecimento e a reflexão a terem especial impacto nas suas vidas. Aliás, e como afirma, “a cruz e a imagem de Nossa Senhora devem servir como um lembrete, não só para colocarmos a dignidade das pessoas em primeiro lugar, mas também para confiarmos”.

Para o administrador da José de Mello, a vida é feita de incompreensões: no trabalho, na esfera pessoal e até nos tempos livres, sendo que por vezes só nos resta aceitar e guardar as falhas no coração. As pontas soltas e as dificuldades com que nos deparamos não passam de provas para acreditarmos que, do outro lado, Deus é um tecelão esforçado em construir um projecto bonito. E é isso que está na base da ACEGE e dos grupos Cristo na Empresa: saber que, depois de fazer o que está ao meu alcance, só me resta confiar na Divina Providência – até porque é Ela que nos orienta no caminho do amor como critério de gestão.

DERA, o software interior que me inspira e que me ajuda a ser inspirada”

MARTA FIGUEIREDO – Girl Move

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Tivesse Marta Figueiredo, directora de Sustentabilidade da Girl Move Academy [vencedora do Prémio UNESCO 2021 para a Educação de Mulheres e Raparigas], de escolher um provérbio para dar o tom à sua intervenção no painel “Uma realidade que me transforma” e seria este a servir como ponto de partida. Como contou à plateia, e a propósito de uma palestra sobre um tema semelhante num encontro da ACEGE em Novembro de 2021, quando foi convidada para ser uma das oradoras no congresso de Maio, não hesitou: não iria repetir nem uma frase do que tinha dito anteriormente.

Em seis meses muita coisa aconteceu e se transformou na sua vida. Para além da guerra que a todos preoucupa, foi recebida por António Guterres, passou por uma reconciliação com uma antiga amizade e ficou noiva. Além disso, continuou a receber o chamamento que todos os dias a fazem aceitar o desafio de ser uma líder inspirada em Jesus. Nas suas palavras, “o maior desafio de um líder é ser Cristo na empresa a cada dia e a cada momento. É um desafio profundo viver em sintonia com a nossa missão ao mesmo tempo que actualizamos a memória do Senhor no quotidiano, pois tal como Ele nos disse, «façam isto em memória de mim»”.

E para conseguir ser Cristo todos os dias, Marta criou um conjunto de rotinas, um “software interior”, que lhe permite que, no seu contexto específico, o programa de inspirar e ser inspirada funcione em prol do bem comum. Com o nome DERA, este “software” divide-se em quatro grandes etapas: Dispor, Encarnar, Reconhecer e Acreditar.

Dispor-me a ser novo. É a primeira etapa e a mais importante para correr riscos e ultrapassá-los. Para Marta Figueiredo, foi isso que a fez mudar a sua intervenção de Novembro até Maio. Libertar-se dos medos de errar, de perder tempo para (re)começar e de transmitir uma má imagem por não correr tão bem quanto a primeira vez são alguns dos passos para garantir que se é continuamente inspirado pela realidade onde se está inserido.

Encarnar. Mergulhar a fundo na realidade, ter a capacidade de se ser inteiro onde se está. A segunda etapa vai muito além do tempo que se passa diariamente na empresa: é deixar de lado as distracções (como os telemóveis e a conexão constante) e garantir que as nossas mãos e a nossa obra cumprem o que o Senhor nos pede, sem pressas nem falta de brio.

A terceira etapa passa por Reconhecer o Senhor em tudo no nosso dia-a-dia. Para Marta Figueiredo, Deus tem ao seu dispor uma panóplia de ferramentas para se fazer notar, para nos falar e para nos incitar à acção.

E por último Acreditar. Confiar não só que Deus é criativo e nos chama para a acção certa, mas também ter a certeza de que somos co-criadores de novas realidades. Teria sido mais fácil se Marta tivesse repetido a sua intervenção anterior, tal como é mais fácil refugiarmo-nos no silêncio durante uma reunião com medo de não sermos compreendidos.

De acordo com esta líder, a actualização constante que Cristo pede está plasmada no início da letra Quem me Dera de Mariza: “Que mais tem de acontecer no mundo para que o teu coração se vire mais para mim?”. Um coração que se vira para Deus, é um coração que se adapta e que não tem medo de pôr a correr o seu próprio software DERA.

Texto: Alexandre Abrantes Neves

Foto: © Arlindo Homem

Artigo do VER.