Tempos de pandemia são tempos de reforma

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As consequências desta pandemia são verdadeiramente globais, na medida em que envolvem toda a humanidade, gerando impactos negativos em diversos domínios da nossa vida e contribuindo para agravar outras crises existentes como a sanitária, ambiental, económica, social e política.

Não podemos perder mais tempo. E não se perderá se soubermos colaborar com generosidade e empenho. Fraternidade e esperança são, tal como as vacinas, medicamentos que o mundo precisa urgentemente. Temos assim que cooperar e ter coragem para construir uma sociedade na qual ninguém seja esquecido.

Desde o início, ficou patente que a pandemia teria um impacto enorme sobre o estilo de vida a que estávamos habituados, retirando comodidades e acrescentando incertezas. Mostrou-nos um mundo doente não só por causa do vírus, mas também com implicações no ambiente, na economia e na política e, mais ainda, nos relacionamentos humanos. Evidenciou os riscos de viver uma vida dominada pelo egoísmo. Acentuou a cultura da indiferença e colocou-nos perante uma alternativa: continuar o caminho percorrido até agora, ou empreender um novo.

Se nos detivermos sobre a crise provocada ou evidenciada pela pandemia, existem reflexões importantes a fazer para se construir um mundo mais humano, justo e solidário.
A pandemia confrontou-nos com duas dimensões da existência humana: a doença e a morte. Por isso mesmo, enfatizou o valor da vida, de cada vida humana e da sua dignidade, em todos os momentos do seu caminho terreno, desde a conceção até ao seu fim natural. Infelizmente, constatamos que, a pretexto de garantir pretensos direitos subjetivos, um número crescente de legislações em Portugal está a afastar-se do dever imprescindível de defender a vida humana em cada uma das suas fases.

A pandemia remete-nos ainda para o direito ao cuidado, que todo o ser humano merece, pois foi criado para viver em família, na comunidade, na sociedade, onde todos os membros são – ou deveriam ser – iguais em dignidade. E desta dignidade derivam os direitos humanos, bem como os deveres, que recordam, por exemplo, a responsabilidade de acolher e socorrer os pobres, os doentes e os marginalizados.
Nesta perspetiva, é urgente que se proporcione a todos e a cada um os cuidados e a assistência de que necessitam. Para isso, é indispensável que todos os que têm responsabilidades políticas se esforcem por favorecer, antes de mais nada, o acesso universal aos cuidados básicos de saúde, incentivando também a criação de centros de saúde e de estruturas sanitárias adequadas às necessidades da população, bem
como o acesso a terapêuticas e medicamentos.
Não é apenas o ser humano que está doente, mas também o nosso planeta. E a pandemia mostrou-nos, mais uma vez, como ele é frágil e necessita de cuidados. Com a crise ambiental a ser causada maioritariamente por uma exploração intensiva dos recursos naturais, há que não esquecer a sua dimensão, que requer soluções globais, partilhadas e com visão de longo prazo. Os impactos das alterações climáticas – tanto os eventos climáticos extremos como as inundações e secas, como a desnutrição e as doenças infeciosas – agudizar-se-ão se nada for feito rapidamente.

O objetivo de conter o coronavírus levou os governos a adotarem medidas de confinamento, implicando, durante vários meses, o encerramento de estabelecimentos comerciais e a desaceleração geral das atividades produtivas, com graves repercussões sobretudo nas pequenas e médias empresas, no emprego e, consequentemente, na vida das famílias e nos setores mais frágeis da sociedade.
A crise económica e social resultante desta pandemia evidenciou igualmente uma economia baseada na exploração quer das pessoas quer dos recursos naturais. Muitas vezes, foi esquecida a solidariedade e outros valores que permitem à economia estar ao serviço do desenvolvimento humano, e não refém de interesses particulares, perdendo-se de vista o valor social da atividade económica e o destino universal dos bens e recursos.
Assim, a crise atual é a ocasião ideal para repensar a relação entre a pessoa e a economia. É preciso que se coloque, de novo, a economia ao serviço do ser humano. Uma economia diferente, que faz viver e não mata, que inclui e não exclui, que humaniza e não desumaniza, que cuida da criação e não a devasta.

Um dos sinais mais frequentes que encontramos nesta crise política é a incapacidade de se procurarem soluções comuns e partilhadas para os problemas que afetam o planeta e que a todos dizem respeito. Manter vivas as realidades democráticas é um desafio deste momento histórico, que nos toca de perto a todos. E um dos sinais desta crise política reside, muitas vezes, no receio de se empreenderem reformas. Não podemos ter medo de as levar a cabo, mesmo que exijam sacrifícios, mudança de atitude e mentalidade.
A pandemia é, assim, uma oportunidade que não podemos deixar de aproveitar para pensar e implementar estas reformas, tão urgentes e tão necessárias.

Paulo Barradas Rebelo
Presidente do Núcleo da ACEGE de Coimbra e Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz de Coimbra