XXVI Congresso Mundial UNIAPAC Lisbon

O propósito e os arquitectos do bem comum

“Unificar temáticas que conferem significado ou propósito às nossas actividades diárias mas também aos que trabalham connosco ou para nós” e torná-las extensíveis às comunidades onde estamos envolvidos é uma boa forma de definir uma missão que vai muito além do proveito próprio e que visa trabalhar para o bem comum. Testemunhos de quem ultrapassou muitas diversidades pessoais para se encontrar “nos outros” e a urgente promoção da inclusão dos “diferentes e vulneráveis” nas empresas foram os temas que animaram os dois primeiros painéis do Congresso Mundial da UNIAPAC
POR HELENA OLIVEIRA

Foi com um discurso pertinente e perfeitamente ajustado aos grandes temas em agenda no 2º dia do Congresso Mundial da UNIAPAC que o seu presidente, Rolando Medeiros, deu início aos trabalhos que iriam reunir quatro painéis e mais de vinte oradores [o presente artigo é dedicado aos primeiros dois]. Depois de uma oração matinal proferida pelo Cardeal de Lisboa, Dom Manuel Clemente, começou por referir que a ciência, a tecnologia, o mercado livre e a democracia permitiram à sociedade atingir níveis sem precedentes de conhecimento, liberdade, esperança de vida e abundância, merecendo por isso ser celebrados, Rolando Medeiros não deixou contudo de contrapor os “efeitos colaterais” de todos estes feitos. Ou seja: “ a tecnologia dá-nos poder, mas não nos consegue guiar no sentido da melhor forma de o usarmos; o mercado oferece-nos escolhas, mas não nos orienta para o “como” essas escolhas devem ser realizadas e o Estado democrático liberal concede-nos liberdade para vivermos como nos aprouver mas recusa, em princípio, esclarecer o modo como devemos usar essas opções de vida”. Em suma e como conclui, o resultado é que “o século XXI deixa-nos com um máximo de escolhas e com um mínimo de significado”.

Rolando Medeiros – © Arlindo Homem

A procura de significado e/ou propósito em nós mesmos é uma busca incessante que é feita desde tempos imemoriais. Mas e para o presidente da UNIAPAC, o nosso “eu” é um local pobre para o encontrarmos. Como sabemos também, a busca do propósito na gestão tem sido a sua grande cruzada ao longo da última década, tendo-se este transformado primeiro em apenas mais uma buzzword mas, e com o tempo – e os tempos – tem vindo a atingir um lugar cimeiro no pódio dos discursos dos líderes empresariais, igualando a tão falada “missão” ou até mesmo ultrapassando-a. E se em muitos casos o propósito pode ser apenas mais uma palavra oca e sem sentido, a verdade é que para muitas empresas e seus respectivos líderes o mesmo acabou por se transformar no verdadeiro objectivo do negócio.

É neste sentido que Rolando Medeiros dá o mote para o primeiro painel do dia, questionando se realmente o “empenho” pode constituir um “objectivo primordial que consiga unificar temáticas que conferem significado ou propósito às nossas actividades diárias mas também aos que trabalham connosco ou para nós”.

Por isso assegura também que “todos nós temos a escolha e o poder de encontramos um propósito em larga escala nos papéis que desempenhamos nas nossas empresas se nos concentrarmos nos nossos talentos, competências, pensamentos e energias de uma forma permanente que conduza o negócio a servir verdadeiramente o bem comum”. Para o presidente, “todos somos capazes de nos devotarmos a uma causa que consideramos ser um nobre propósito”. Mas também é verdade que este esforço se pode transformar num paradoxo. Paradoxo esse que, para Rolando Medeiros, e sem devotarmos grande tempo a pensar nos nossos ganhos pessoas, se afigura “como o mais certo caminho para a felicidade do que a mera perseguição dessa mesma felicidade apenas para proveito próprio”.

O século XXI oferece-nos um máximo de escolhas e um mínimo de significado, Rolando Medeiros

E para o 1º painel do dia foi escolhido um conjunto de líderes que testemunharam a transparência deste mesmo paradoxo através da partilha da sua busca pessoal e dos sucessos e obstáculos que encontraram no caminho que escolheram para encontrar propósito no que estão a fazer. E, espera o presidente, a ideia é que as suas acções possam inspirar e motivar a transformação pessoal necessária para atingir a nobreza da  vocação.

Rolando Medeiros, João Cesar das Neves, Djisman Simandjuntak, Tito Serafica, Aimé Séne, Michal Hrabovec, Dom Manuel Clemente, Amina Laraki-Sloui – © Arlindo Homem

Chamamento, colaboração, vencer o medo e cuidar do “outro”

Com uma breve introdução por João César das Neves, que não acredita que sejam necessários novos mandamento para a gestão, mas sim cumprir aquele que foi citado por Jesus como o “grande mandamento na Lei”(Mateus 22:36-37) – amar a Deus com toda a nossa alma, todo o nosso coração, toda a nossa mente e todas as nossas forças – bem como amar o próximo, cinco oradores partilharam as suas experiências de procura de significado para si mesmos, significado esse que acaba por se expressar igualmente no bem que fazem aos outros.

O principal objectivo do Grupo AMH é disseminar o nosso modelo para que outros se apropriem dele, Amina Laraki-Sloui

Amina Laraki-Sloui é marroquina, muçulmana e depois de um acidente em 1992 que a colocou numa cadeira de rodas, decidiu fundar o Grupo AMH, em Marrocos, o qual tem como missãoajudar pessoas com incapacidades ou em situação vulnerável e alertar para o preconceito e os estereótipos que as rodeiam. Enquanto uma das maiores organizações sem fins lucrativos da região – “os ricos pagam pelos pobres, numa relação de cinco independentes para um dependente”, como afirma – na área da saúde o AMH Groupe gere vários centros de reabilitação física e funcional, sendo o mais conhecido o Noor Centre, um projecto-piloto já replicado em outros locais de Marrocos e, na educação, é representado pela Institution Tahar Sebtiâ, a qual oferece um programa educativo desde o pré-escolar até ao final do ensino primário a 480 crianças, focando-se no seu desenvolvimento pessoal independentemente do seu estatuto socioeconómico ou incapacidade. Amina assume sempre o seu projecto como uma empresa social ou como uma plataforma de inovação social em open source “cujo principal objectivo é disseminar o modelo para que outros se apropriem dele”, afirma. Tendo a noção de que “o mundo é hostil” [principalmente face a quem é “diferente” ou mais vulnerável], a também activista marroquina acredita que a resposta possa estar “na promoção da comunicação e na arte de misturar talentos e viver em conjunto”. “Sou muçulmana, mas acredito no que disse Jesus: ‘amar e cuidar dos mais fracos’”, rematou.

Já Djisman Simandjuntak,que veio da Indonésia, é reitor da Prasetiya Mulya University, a primeira a integrar uma escola de negócios e economia na região. Enquanto presidente do conselho de administração de uma empresa de mineração, Simandjuntak confessou ser complicado, mas não de todo impossível, equilibrar esta actividade empresarial em particular com a criação de valores na comunidade que a envolve, ao mesmo tempo que enfrenta desafios muito particulares no seu país, com níveis de literacia e competências muito reduzidos, e com uma diversidade cultural e religiosa nada fácil de gerir. A sua empresa e o seu programa Responsible Company in Action” tenta harmonizar a complexa actividade mineira com os valores que “partilha com a sociedade”, apostando na educação e na criação de competências através de uma “complexa rede de colaboração” que, a seu ver, consiste no pináculo do desenvolvimento.

Apostar na educação e na criação de competências consiste no pináculo do desenvolvimento, Djisman Simandjuntak

É também assim que pensa o eslovaco Michal Hrabovec, presidente e co-fundador da Anasoft, uma bem-sucedida empresa de software que, com uma enorme humildade e algum nervosismo, partilhou com a plateia o peso que sente face à responsabilidade e responsabilização – outra ideia muito vincada no congresso – inerentes ao seu cargo de CEO e o medo de falhar que sentiu quando, aos 19 anos, resolveu abrir a sua empresa, sempre considerando que se deve escolher o caminho mais difícil e não o mais fácil. Paciência, coragem e capacidade de assumir riscos – sem nunca deixar de sonhar – e ultrapassar os medos saindo da sua zona de conforto são os estados de espírito que acompanham o mais jovem empreendedor em palco. A sua empresa, galardoada com o prémio de Empresa do Ano na Eslováquia e reconhecida por vários outros prémios relacionados com as suas actividades de responsabilidade social, tem também como objectivo provar que “o empreendedorismo de mãos dadas com a tecnologia pode criar novo valor e riqueza para toda a humanidade”.

Esta ronda de testemunhos contou ainda com o filipino Tito Serafica, presidente do conselho de administração da Brotherhood of Christian Businessmen and Professionals (BCBP),que sublinhou a necessidade de “transformar o cinzento em branco” – ou o medo em liberdade – assegurando que não deve existir nenhuma zona “parda” entre a espiritualidade e a vocação e chamamento a que estão abertos muitos líderes. Para Serafica, e enquanto presidente do conselho de administração e CEO da Premiere Horizon Alliance Corp, que opera na área do imobiliário e da mineração, é sempre preciso “dar um salto de fé”, sendo que o motto da sua empresa “não ultrapassamos desafios tornando o problema mais pequeno, mas antes tornando-nos a nós maiores” o tem acompanhado desde sempre, em particular porque e há uns anos e enquanto cristão, sofreu um enorme dilema: o ter de gerir um casino online que, ainda por cima, estava falido.

Sinto um enorme peso face à responsabilidade e responsabilização inerentes ao meu cargo de CEO, Michal Hrabovec

Do painel fez ainda parte Aimé Séne que “sonhou ser rico e partilhar a sua riqueza com os seus conterrâneos”. O empresário senegalense, CEO da Hertz e fundador de várias empresas de sucesso, é bem conhecido pelo trabalho social a vários níveis que tem vindo a prestar num país pobre, desde a construção de escolas, à aposta de melhores condições de saúde na maternidade ou à melhoria de condições de saneamento e outras em alguns dos bairros mais pobres do Senegal.

Quem melhor do que nós próprios para mudar o mundo para melhor?

Randy Lewis – © Arlindo Homem

O segundo painel do dia teve como moderador Rui Diniz, director executivo da José de Mello Saúde e que elegeu a inclusão – o tema em debate – como uma das maiores “tarefas” para os líderes empresariais. “Porque as empresas são feitas por pessoas, porque são feitas para servir as pessoas e porque é necessário trazer o maior número de pessoas para o seu interior, o que temos de nos convencer é que cada pessoa tem o seu próprio valor e é urgente estimular a sua inclusão onde trabalhamos, onde estudamos e onde vivemos”, afirmou.

Antes de passar ao painel de oradores, todos eles directa ou indirectamente relacionados com a temática em causa, Randy Lewis, o antigo vice-presidente da WalGreens e precursor de um modelo extremamente bem-sucedido de contratação de pessoas com deficiência, inspirado pelo seu próprio filho, autista, e replicado em muitas outras grandes empresas, “encheu e preencheu”o palco com a sua bem-disposta presença e munido do dom de contar boas histórias. A história boa de Randy Lewis pode ser consultada com maior detalhe numa entrevista concedida ao VER mas e em tom resumido, o também fundador da organização sem fins lucrativos NOGWOG Disability Initiative, dedicada a expandir a contratação de pessoas com incapacidade no maior número de empresas possível, falou não só dos caminhos que o levaram a apresentar ao conselho de administração a ideia – pioneira – de “contratar uma força laboral que jamais contrataria”, como convenceu, com números e narrativas paralelas, os líderes empresariais presentes de que estas pessoas “diferentes” têm uma performance tão boa ou até melhor do que a dos seus congéneres “normais”.

É o medo de falhar que nos faz mais pequenos, Randy Lewis

“Ver para além da incapacidade”, deixar de subestimar as competências de quem não age de acordo com os cânones vigentes – como a de um empregado que dançava sempre que fazia um bom trabalho e ao que Lewis questiona “é melhor dançar ou reclamar?” – e ter presente que pessoas com incapacidade apenas contratadas como “segundo recurso” não se sentem “um de nós” foram só algumas das ideias partilhadas por este homem que, na segunda maior cadeia de farmácias do mundo, conseguiu colocar num dos seus maiores centros de distribuição 40% de pessoas com incapacidade a fazerem o mesmo, a terem os mesmos níveis de performance e a ganharem o mesmo que os 60% do seus restantes colegas. “E este centro tornou-se no mais produtivo da nossa história”, complementou ainda.

Lewis sabe, e por uma gigantesca experiência própria, que não é de todo fácil convencer os executivos de topo a apostar neste tipo de “experiência”. Como afirma, a principal razão para tantas reticências é “o medo de se falhar”, “medo esse que nos faz pequenos”, mas a esperança é que o seu modelo continue a ser adoptado por mais e mais empresas, como já o foi pela Toyota, pela Procter & Gamble, pela Sephora, pela Microsoft, entre outros gigantes. Uma última mensagem deste homem realmente especial está relacionada com uma das pequenas histórias que foi contando ao longo da sua apresentação: a de um engraxador que, por ter perdido um filho na cadeia (suicidando-se por enforcamento), lhe garantiu que iria mudar o sistema prisional nos Estados Unidos, lutando por separar jovens de adultos condenados. E que o conseguiu fazer, sozinho.

Ou e em suma, quem melhor do que nós próprios para mudar o mundo para melhor?

Rui Diniz, Martin Burt, Chiara Condi, Luc Cortebeek, Cécile Renouard, Michel Roy, Randy Lewis – © Arlindo Homem

Diversidade, inclusão e porque ninguém pode ser deixado para trás

“Se racionalmente todos sabemos que a diversidade é positiva, se temos os números, se temos as estatísticas, então por que é que não a praticamos? A pergunta é feita por Chiara Condi,  fundadora da organização sem fins lucrativos LED BY HER – dedicada à defesa dos direitos das mulheres que sofreram algum tipo de violência e que serve de incubadora para programas de desenvolvimento de empreendedorismo e inovação [no feminino]. “Porque temos medo”, responde. “Se fizermos uma pesquisa simples no Google por ‘CEO’, todas as imagens que nos aparecem são de homens”, continua. A realidade é que “todos nós somos parte do problema e da solução”, assegura ainda, e “temos de ser nós também a tomar a dianteira e a dar um voto de confiança”. Chiara trabalha com mulheres expostas a vidas de violência, muitas delas nunca trabalharam – “e o mundo desistiu delas tal como elas desistiram de si próprias”, e é contra o preconceito, contra a desigualdade de género, a favor de um “espaço” e através de programas que estabelece com as empresas para falar de diversidade que Chiara vai fazendo o seu percurso rumo à inclusão. Neste momento, “as empresas começam a fazer parte da causa e elas próprias estão num processo de mudança”, assegura. Para Chiara Condi, a questão da inclusão – neste caso de mulheres – é não só um case de justiça social, mas também um “business case”. E, remata, “é bom que toda a gente perceba, de uma vez por todas, como é necessário integrar as mulheres – que representam mais de 50% da população mundial – no ADN das empresas”.

As empresas começam a fazer parte da causa [da diversidade] e elas próprias estão num processo de mudança, Chiara Condi

“Na globalização da indiferença, como podemos incluir a diferença?” – pergunta Michel Roy secretário-geral da Caritas Internationalis. Reiterando a ideia de que vivemos num mundo em que a globalização da rejeição e da hostilidade resultam de uma cultura que tem vindo a invadir o mundo, acompanhada de materialismo e individualismo, há que lutar para incluir os “vulneráveis” – neste caso em particular os pobres – e na medida em que em muitas populações estes assumem-se como o seu maior segmento, declara. Citando também o Papa Francisco, Michel Roy afirma ainda que entre os mais vulneráveis se encontram os migrantes e que só com um esforço global, que inclua líderes de negócios e também os muitos voluntários da Caritas, será possível trabalhar neste sentido.

O secretário-geral da Caritas Internationalis assegurou ainda que no organismo que dirige se está a trabalhar para a construção de uma economia solidária, que seja inclusiva e que possa, por exemplo, apostar na criação de pequenas empresas e no investimento com impacto, sendo que existem bons sinais que, em termos de empreendedorismo, os projectos possam também ser escalados. Criar um ambiente de inclusão também nas empresas, investindo na formação destas populações vulneráveis e criando parcerias na área da economia solidária é, para Michel Roy, o caminho a seguir.

Já para Luc Cortebeek, membro da Comissão Global para o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT) a diversidade constitui um tópico de importância extrema no contexto actual. “Porque ninguém pode ser deixado para trás” no mundo laboral, e dado o crescimento do desemprego em muitos locais do mundo em conjunto com a pobreza extrema, “as políticas que encorajam a diversidade e a inclusão serão cada vez mais cruciais”. Apesar de concordar que as novas tecnologias poderão vir a criar novos empregos, não é possível esquecer também os enormes desafios que advirão desta nova era da automação. “Mas não podemos ter medo desta disrupção, antes tomar em consideração um dos mais ambiciosos contratos da sociedade moderna: a união de empregadores, trabalhadores e governos”, enfatiza.

Na globalização da indiferença, como podemos incluir a diferença?, Michel Roy

Para a OIT e, em particular para o programa em que está inserido, o futuro do trabalho e a inclusão de “todos” está a ser pensada de acordo com determinados princípios: investir em emprego sustentável e não pensar apenas em termos do PIB; criar negócios “justos” e investimento a longo prazo; reduzir a evasão fiscal e, em termos de economia digital, tributar a fonte dos lucros; promover novas acções que confiram melhores competências em tecnologias aos mais pobres; apostar na aprendizagem ao longo da vida; dar prioridade à economia verde e ter sempre em mente o investimento nas pessoas e o seu direito universal à educação. Por fim, uma nota importante: um dos principais objectivos da OIT é a luta por uma protecção geral dos trabalhadores, independentemente dos contratos que auferem. Ou seja, mesmo para a denominada “gig economy”, que cada vez junta mais trabalhadores independentes sem qualquer tipo de protecção social, e para todos os “novos tipos” de trabalho provenientes da era da automação, a ideia é que exista uma rede que os ampare em caso de desemprego.

Para Cécile Renouard, responsável na ESSEC Business School por um programa de performance societal de empresas multinacionais em países em desenvolvimento, doutorada em Ciência Política e Filosofia e autora de vários livros, a sua “luta pessoal” é que as empresas sejam responsabilizadas pelos impactos que têm em todos os domínios que operam, nomeadamente no que respeita aos contratos das pessoas que trabalham “ao longo” das cadeias de valor globais. E, n medida em que “as regras do jogo não são consistentes com os desafios globais”, responsabilizá-las também através da integração dos impactos sociais e ambientais enquanto acções complementares à sua estratégia. A académica é igualmente a fundadora de uma iniciativa que visa integrar a responsabilidade ambiental e social não só nas empresas, mas nas estruturas curriculares dos alunos que frequentam as escolas de negócios. Para Renouard, encarar a responsabilidade social corporativa como um valor económico e financeiro servirá para mudar as métricas de performance empresarial e promover a defesa do bem comum.

As políticas que encorajam a diversidade e a inclusão serão cada vez mais cruciais, Luc Cortebeek

O último orador deste painel é o fundador e CEO da Fundacion Paraguaya, uma organização dedicada à eliminação da pobreza, e que desenvolveu uma ferramenta “original” no que respeita ao diagnóstico da pobreza. O paraguaio Martin Burt , que faz também parte do conselho de administração da Schwab Foundation for Social Entrepreneurship do Fórum Económico Mundial criou uma plataforma que ajuda as pessoas (famílias) a “erguerem-se”, a si mesmas e às suas comunidades, da pobreza multidimensional. A ferramenta, denominada Poverty Spotlight consiste numa app (utilizada nas empresas) que permite a resposta a um “inquérito visual”, o qual produz um mapa que permite detalhar 50 diferentes “domínios” da pobreza, por exemplo, se uma família “tem água canalizada”. As famílias seleccionam as imagens, categorizadas pelas cores verde, amarelo e vermelho, que visam identificar a sua “condição” e realidade face a cada um dos indicadores. Através da geo-localização integrada na app, esta gera mapas de pobreza para comunidades inteiras, permitindo que os stakeholders se concentrem em medidas específicas, canalizando assim os melhores recursos num esforço conjunto para a eliminar ou mitigar. Para Martin Burt, perguntar directamente a um trabalhador se ele é pobre, e quão pobre, é completamente diferente do que se for este a fazer o seu próprio autodiagnóstico, a ter consciência da sua condição e a lutar para recuperar a sua dignidade, trabalho que é feito em conjunto com os demais stakeholders. E, alerta, “torna-se mais fácil separar famílias pobres de famílias muito pobres”. A organização de Burt criou ainda uma “comunidade de boas práticas” que ajuda as famílias a responderem a questões tão díspares quanto “como é possível construir um quarto extra na minha casa”, ou “como é possível lidar com a violência doméstica”, questões estas que são depois transformadas em guias, de que é exemplo o que se dedica a ensinar “7 maneiras para a sua família construir um novo quarto”.

Em suma, estes dois painéis partilharam um ingrediente comum: a convicção de que mesmo nos cenários mais caóticos, seja a nível pessoal, social, económico, cultural ou religioso, é possível empreender a mudança e contribuir para o bem dos outros ao mesmo tempo que encontramos o bem em nós próprios.