Opinião

Justiça salarial: uma questão ética e moral

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Ana Loya, CEO da MINDSHIFT - Talent Advisory - © DR

Não sou opositora a que se ganhe muito dinheiro, mas será necessário que alguns ganhem tanto, quando tantos ganham tão pouco? É utopia pensar em promover no nosso pequeno (ou médio ou grande) palco empresarial uma maior equidade, uma maior justiça ou, pelo menos, uma menor injustiça?
POR ANA LOYA

Diz o poeta que o mundo é composto de mudanças… mas será mesmo? Muda o mundo! E os seus actores? As pessoas? O que nos distingue socialmente dos nossos antepassados? Basta pensar na velocidade exponencial de mudança (é quase profético o livro de Alvin Toffler, dos anos 70, sobre o Choque do Futuro) para vermos que as coisas estão diferentes.

Só há pouco tempo me tornei adepta da necessidade de haver quotas para mulheres nos Conselhos de Administração nas maiores empresas (considero um mal necessário para que se quebre um círculo instalado e não virtuoso). Mas, ao pensar em justiça salarial, pareceu-me que o espectro de análise teria de ser muito mais amplo que a mudança da condição das mulheres, apesar de continuarem a existir milhares de mulheres a auferir salários inferiores a homens que exercem as mesmas tarefas. O tema é mais abrangente e carece de muita mudança: continua a existir uma amplitude enorme de remunerações, num leque onde o mais baixo é muito baixo e o mais elevado é tão elevado que nem se sabe…e esta minha reflexão vai-se limitar ao nosso Ocidente a decair e, mais concretamente, ao nosso Portugal que, nos últimos tempos passou a ser uma marca chique…..

Adepta da meritocracia e da flexibilidade, gosto de viver numa época onde as nossas condições salariais nos permitem maior liberdade e conforto. Mas, aprofundando (não necessariamente muito) rapidamente me apercebo que me refiro a uma minoria a que pertenço e com quem me relaciono. Existe uma maioria (imensa) que não pertence a esta elite e que integra organizações onde a massa salarial dessa maioria é quase tanta ou menos que a massa salarial da pequena minoria que a dirige. Há assim tanta disparidade no valor do trabalho desses dois grupos? Não é fácil definir o que é justo! É muito mais fácil afirmar o que é injusto, isto é, iniquo, oposto ao justo.

Os pacotes salariais com que se trabalha no mundo do Executive Search pertencem a um milésimo de um dos extremos de uma curva normal de Gauss

E neste binómio da justiça versus injustiça salarial lembrei-me do importante para mim: Na Bíblia está escrito e, portanto dito, que não pagar o salário a quem trabalha é um dos pecados que bradam aos céus!

A equidade e equilíbrio dos salários nas empresas que tenho dirigido foi sempre uma das prioridades da gestão. Talvez por ter formação base em Psicologia (a Gestão viria mais tarde) nunca percebi nem consigo imaginar como se consegue viver com o salário mínimo em Portugal! Por mais contas que faça algo fica de fora: ou o tecto, ou a comida, ou a saúde ou a educação… Habituada desde sempre (em 1974 tinha 15 anos) a parecer a mais à ‘esquerda’ junto dos meus amigos mais conservadores e a mais conservadora, a mais à ‘direita’ junto dos meus amigos mais de ‘esquerda’ (caviar), em pleno Século XXI continuo a pensar da mesma forma e, logicamente a não me querer integrar em nenhuma corrente específica de pensamento.

Ao longo da minha carreira de consultoria entrevistei milhares de quadros superiores em Portugal e uma centena no estrangeiro. Neste espectro, os pacotes salariais com que se trabalha no mundo do Executive Search pertencem a um milésimo de um dos extremos de uma curva normal de Gauss. Nem é preciso sairmos do nosso pequeno mundo Ocidental para termos consciência dessa desigualdade.

Os primeiros anos da crise iniciada em 2008 – digo iniciada porque não penso termos saído dela – obrigaram muitos gestores a reduzir a massa salarial nas suas empresas, fosse reduzindo pessoal, reduzindo salários, reduzindo ambos, ou mesmo encerrando as portas. Conhecidos analistas comentaram que, depurada esta fase, haveria um maior equilíbrio nas regalias, e mesmo luxos, praticados em muitas organizações. Concomitantemente, com a entrada (esse milésimo da curva normal) no tão badalado mundo 4.0…… milhares de empregados e desempregados passaram a ser desnecessários, com experiências, conhecimentos e competências obsoletas, destinados a reinventarem-se ou a um desemprego de longa duração, apesar de integrarem o intervalo da massa humana em idade produtiva. Trabalharam, pagaram os seus impostos, alguns saíram das empresas com salários em atraso. Mas começaram a surgir novas profissões (algumas ainda nem sabemos quais serão), a falar-se muito da “luta pelo talento” e a regressar à manutenção da antiga desigualdade.

Os valores da nossa sociedade revelam-se nos salários de quem é valorizado

Falar de justiça salarial não é fácil! Infelizmente é uma frase apropriada por centrais sindicais que, longe de defenderem o que professam, só aborrecem, dessensibilizam e levam a que um tema crucial de uma sociedade humana e moral seja abordado reactivamente, como se estivéssemos nos inícios do século XX e na dialéctica da luta de classes. Enfim, nisso, diria que Marx tinha razão: há luta de classes; mas os protagonistas mudam. Alternam…. A desigualdade e o espectro salarial que se encontra nas empresas é muito ilustrativo desta posição; mesmo de empresa para empresa. Como na Guerra dos Porcos, de Orwell, parece que “todos os animais são iguais…mas há uns, mais iguais que outros”. Uma nova classe de nobreza.

Os valores da nossa sociedade revelam-se nos salários de quem é valorizado (basta ver os montantes envolvidos nos jogadores de futebol como uma metáfora da nossa era). Algo está de pernas para o ar, invertido ou distorcido. Não sou opositora a que se ganhe muito dinheiro, mas será necessário que alguns ganhem tanto, quando tantos ganham tão pouco? É utopia pensar em promover no nosso pequeno (ou médio ou grande) palco empresarial uma maior equidade, uma maior justiça ou, pelo menos, uma menor injustiça?

Sabemos que há uma tendência nos jovens para não se focarem tanto na segurança do emprego. Conheço muitos profissionais que estão cada vez mais a optar por serem profissionais liberais, terem um melhor work life balance. E conseguimos encontrar algumas empresas que já proporcionam efectivo work life span. Mas como é para aqueles que ocupam a área maior do sino da curva de Gauss? Pessoas com vidas ditas “normais” – lá vem o Gauss de novo – e que não têm o direito inalienável à dignidade de poderem pagar as suas contas?

Gostava de uma discussão dos parceiros sociais sobre a impossibilidade de Portugal deixar de estar na cauda dos salários mínimos

Gostava de uma discussão dos parceiros sociais, séria, construtiva e economicamente explicada, sobre a impossibilidade de Portugal deixar de estar na cauda dos salários mínimos mais baixos da Europa. Tem de ser possível um maior equilíbrio!

Levei muitos anos a compreender que este tema não era uma dicotomia de direita versus esquerda, mas sim uma questão ética e moral. Uma questão estrutural e mandatória para aqueles que detêm o poder para influir na sociedade. Para mim, que sou cristã, é óbvio e claro e acredito profundamente que não pagar o salário justo a quem trabalha é um pecado que brada aos céus. Esperemos que o poeta tenha razão e o mundo, ou os pequenos mundos, vão mudando para melhor.

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