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Entrevista com Paulo Barradas Rebelo – Presidente do Núcleo da Região de Coimbra

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Entrevista Paulo Barradas Rebelo – Presidente do Núcleo da Região de Coimbra da ACEGE

Correio de Coimbra

Falamos da Associação Católica de Empresários e Gestores (ACEGE), de que o Dr. Paulo Barradas é o Presidente do Núcleo Regional de Coimbra. Porquê esta associação?

A ACEGE tem como objetivo divulgar a Doutrina Social da Igreja e tem como missão captar cada vez mais empresários para estas boas práticas, tendo sempre o amor, a verdade, os valores da justiça, da solidariedade e da caridade como critérios de gestão. Nós tentamos e gostaríamos que cada vez mais empresas participassem nesta reflexão, porque acreditamos que o futuro passa por termos boas pessoas, melhores pessoas, e a doutrina social da Igreja tem um papel fundamental no compromisso dos empresários para com as pessoas, possibilitando que tenhamos uma sociedade mais justa, mais feliz e mais organizada. Há muitos empresários abertos a esta reflexão e eu acredito que os empresários são pessoas de bem, que centram a sua gestão no ser humano e nas pessoas.

Que programas ou intervenções concretas promove a ACEGE para atingir esse objetivo?

Entre outras iniciativas, sublinho três programas. O primeiro programa que destaco é “Cristo na empresa” que consiste em criar um grupo de reflexão e partilha nas empresas sobre as melhores práticas de gestão de pessoas nas suas empresas. Um segundo programa, que julgo muito importante, é o “pagamento pontual”, ou seja, promover uma cultura de compromisso de pagarem pontualmente, ou seja, de acordo com o combinado entre as partes. É um programa de que gosto particularmente, que me diz muito: entrar numa empresa com estas práticas que “esta empresa aderiu ao pagamento pontual” estabelece laços fundamentais de confiança sem os quais não será saudável fazer negócios. Não se trata de “pagar no dia”, mas de cumprir o compromisso negociado: se o pagamento é a 30 dias, cumprem-se os 30 dias, se é a 15 dias, cumprem-se os 15 dias.

Em relação aos fornecedores?

Sim, para com os fornecedores. É um programa que considero fundamental, porque vivemos numa sociedade de desresponsabilidade, em que o próprio Estado, muitas das vezes, não dá um bom exemplo. E é fundamental que, quer os empresários, quer o Estado, deem o exemplo de pagar a horas. Isso significa cumprir prazos; cumprir prazos significa cumprir compromissos; e tudo isso dá mais saúde às empresas. Mas há muitas empresas em Portugal que não cumprem os prazos de pagamento e isso cria dificuldades enormíssimas ao sistema empresarial. Por isso, considero que cumprir o pagamento pontual é uma questão de honra e é, ao mesmo tempo, um bom princípio de gestão.

Estávamos a falar de três “Programas”…

Para além dos programas “Cristo na empresa” e “Pagamento pontual”, considero também muito importante o Programa “Compromisso com as famílias”, que tem como objetivo a conciliação entre a família e o trabalho. Têm estado a surgir iniciativas novas, por exemplo, programas que certifiquem as empresas com boas práticas nas relações com os colaboradores. Eu, pessoalmente, sou um apaixonado por esse tipo de programas desde há muito tempo: a qualidade não deve ser só “de boca”, mas haver a evidência do que se diz e do que se faz. Estas evidências obtêm-se através de sistemas de qualidade: certificar a qualidade, certificar o ambiente, certificar a inovação…, mostrar que temos boas práticas ambientais, de higiene, de segurança. Começam a surgir, cada vez mais, as certificações mais orientadas para as pessoas – embora todas as outras também o sejam -, certificações que criam a evidência de que a empresa é responsável por criar um bom ambiente de trabalho ao seu colaborador, por criar sustentabilidade entre a família, a empresa e o trabalho… Isso está na ordem do dia: hoje as pessoas trabalham muito mais, estão num mundo de muita oportunidade, mas também de muita competição, e há que ter o equilíbrio certo entre o trabalho e a família. Só pessoas felizes são produtivas.

Como gestor, consegue ter esse equilíbrio entre o trabalho e a família?

Tento ter um tempo de qualidade, não de quantidade. Como não tenho muito tempo para a família, a minha preocupação é que o pouco tempo disponível seja vivido com qualidade, um tempo bom, um tempo de partilha, de compromisso entre todos, de crescimento entre todos. Tento aproveitar ao máximo o meu tempo, para conseguir dar o máximo no trabalho, na família, na vida social e, agora, na ACEGE. O meu princípio de vida é de entrega às situações, de entrega com a máxima qualidade e não em quantidade. Acho que se tivermos esta perspetiva, conseguimos fazer muito mais e melhor.

Estamos a falar de quantas empresas e de quantos trabalhadores?

Na Bluepharma, são 18 empresas, cerca de 600 trabalhadores.

E sente algum tipo de responsabilidade pessoal perante estes 600 trabalhadores?

Eu sou um igual, igualmente trabalhador, trabalho ao lado de todos eles. Na parte do trabalho que me cabe, tento cumprir o melhor possível a minha missão, tento que as pessoas se sintam bem e felizes a trabalharem na Bluepharma. Este projeto nasceu para criar postos de trabalho. A nossa primeira preocupação foi dar emprego. E, depois de dar emprego, dar qualidade nesse emprego. Em suma, que as pessoas sejam felizes cá dentro. E eu, sendo igual a todos, cumprindo também a minha missão que é a da administração, tentamos sempre assumir a responsabilidade grande de cumprir com toda esta gente. Mas sou muito ajudado nisso, somos um conselho de administração, constituído por 4 pessoas, e depois temos um corpo de diretores e a hierarquia bem organizada para que todas as coisas fluam…

Permita-me introduzir aqui três princípios da Doutrina Social da Igreja relativamente ao mundo do trabalho, a partir da encíclica Laborem Exercens, de João Paulo II – salário justo, prioridade do trabalho sobre o capital e subjetividade do trabalho – tomando como campo de leitura a própria Bluepharma. A empresa pratica salários justos?

A empresa pratica o salário justo, na medida em que pagamos o máximo que podemos pagar, sem colocar em causa a sustentabilidade da empresa e no contexto dos investimentos que estamos a realizar. Em todo este contexto, a parcela que vai para vencimentos é muito generosa; posso afirmar que, nas nossas empresas, não temos ninguém com o salário mínimo que está instituído em Portugal. Porque o podemos fazer, pois podíamos não o conseguir e não é nenhum crime pagar o salário mínimo. É crime deixar de pagar ou pagar acima, e depois não conseguir cumprir com todos os compromissos.

Relativamente à prioridade do trabalho sobre o capital…, significando com isto que o valor máximo da empresa não é o lucro, mas os seus trabalhadores.

A exigência que sempre nos impusemos foi colocar o amor e a verdade como critérios de gestão. O centro da empresa foi e sempre será as pessoas. Vivemos do trabalho dos nossos colaboradores, que é um trabalho muito complexo, com uma exigência de conhecimento muito grande. Portanto, se não tratarmos bem as pessoas e se elas não se sentirem felizes, vão perder a capacidade de inovar, a capacidade de trabalhar com todas as suas faculdades, a capacidade de contribuir para a nossa missão, que é construir uma empresa de base tecnológica, em Coimbra, com os olhos postos no mundo. Somos, hoje, uma empresa que já exporta 86% do que fabricamos para 40 países. Os nossos medicamentos tratam doentes desde a Austrália, aos Estados Unidos, do Vietname, à Venezuela, passando por África, Médio Oriente, e obviamente em todos os países da Europa… É nossa missão contribuir para uma saúde mais acessível e democratizar o consumo do medicamento e, por isso, trabalhamos na área dos medicamentos genéricos e sempre com um enfoque na inovação de medicamentos que possam tratar patologias que hoje ainda padecem de soluções. São estes princípios que nos têm guiado ao longo da vida e que incutimos nos nossos trabalhadores.

Refere também o Papa João Paulo II que o trabalhador deve ter a oportunidade de sentir o trabalho como algo criado por si mesmo, e não se sentir apenas uma peça duma máquina…

 Eu acho que a fórmula para isso, se é que há uma fórmula, tem a ver com a comunicação. Desde o primeiro momento, tentámos sempre comunicar bem com as pessoas. E comunicar com verdade! Por isso, partilhamos sempre as dificuldades e tentamos que os colaboradores assumam essas dificuldades com o mesmo sentido de responsabilidade que a Administração. Somos todos um, o mesmo. Quem nos paga os salários não é a Administração, mas sim os clientes. E isso envolve-nos a todos por igual. Temos que nos olhar como uma orquestra, afinada, para que o cliente fique satisfeito e continue a recorrer aos nossos serviços e assim permita o crescimento da empresa, com o sentido de poder empregar sempre mais pessoas. É uma área que nos toca muito, esta de criar emprego.

Ontem, 1 de maio, foi o Dia do Trabalhador, que nos evoca, ao menos culturalmente, o conflito histórico entre o trabalho e o capital. Como lê esta conflitualidade?

Eu acho que isso hoje já não existe. Não existe, porque os problemas, se comunicados, tornam-se iguais para todos. Todos nós, aqui, temos de trabalhar, cumprindo as nossas obrigações e fazendo com que a empresa tenha clientes, clientes satisfeitos, que renumerem o trabalho que se faz. Por isso, hoje ninguém manda em ninguém, é o cliente que manda, é o cliente que é a finalidade do trabalho de todos. E sobre o cliente é difícil exercer direitos, porque não há direitos, há deveres.

De qualquer modo, há uma conflitualidade persistente, com novos matizes: estou a lembrar-me, por exemplo, de algumas greves recentes, bastante impactantes no tecido económico e social em Portugal

A leitura que eu faço, é que isso não é sustentável, porque hoje as empresas têm uma mobilidade enorme. A defesa de alguns direitos de algumas classes profissionais põe em causa o todo da organização, o futuro concreto das empresas e do país.

O direito à greve é “inalienável”?

É um recurso que deve ser de limite. E acho que as condições que os trabalhadores hoje têm são boas. Temos o direito ao trabalho, à saúde, à educação, se estivermos doentes temos baixas, se mais idosos, temos reformas, e muitos benefícios sociais. Vivemos, hoje, nos países mais desenvolvidos, com um nível de conforto que não tem paralelo noutros países do mundo, nem com outros tempos para trás. Tendemos a não valorizar muito os bens que temos, mas temo-los; e interrogo-me se os nossos filhos vão ter esses benefícios e se esta geração não está a captar para ela, com egoísmo, benefícios que depois não vai poder dar às gerações seguintes.

Em todo o caso, há pessoas, em Portugal, que, por exemplo, estão empregadas e em situação de pobreza! Ou que esperam anos por uma intervenção cirúrgica…

Claro que há situações que nem sempre estão bem e devem ser melhoradas. Se estivesse tudo bem, não estávamos cá a fazer nada. E certamente nunca nenhum sistema de saúde será perfeito, mas o nosso Serviço Nacional de Saúde e o sistema de saúde que temos em Portugal são dos melhores do mundo. Para os recursos económicos que temos, acho que temos um sistema nacional de saúde, público e privado, muitíssimo bom.

Falando de “sistemas nacionais”, qual é a capacidade de intervenção da ACEGE no campo político?

No campo político, a ACEGE tem um papel importante, que é o de sensibilizar, por um lado, as empresas e os empresários e depois, por outro, fazer valer essa sensibilização junto da opinião pública e do poder político: dizer ao poder político que os empresários não estão só preocupados com o lucro, mas que estão preocupados com as suas empresas e que centram o trabalho das suas empresas no ser humano; que estão preocupados com as condições de vida dos seus colaboradores, no que toca à família, no que toca aos vencimentos, no que toca a tudo isso. Não sinto que nenhum empresário se possa sentir realizado quando não consegue pagar os salários a que se propôs. E acho que todos querem pagar mais, que todos querem gente feliz à sua volta… E isso só se faz, criando as condições para as pessoas se desenvolverem em plenitude.

Para além dos “Programas” pelos quais começámos a nossa conversa, sei que a ACEGE também promove regularmente colóquios, conferências… O que tem em cima da mesa?

A ACEGE organizou recentemente, em dezembro, um grande Congresso em Portugal, com uma enorme adesão de portugueses e estrangeiros. A nível local, em Coimbra, tem vindo a promover jantares e almoços de debate com convidados que sensibilizem através dos seus exemplos mais empresários e gestores para estas dinâmicas. O próximo jantar-colóquio vai ser no dia 24 de junho, tendo como convidada a Dra. Joana Marques Vidal, que nos irá falar sobre ética e crime económico, no Instituto Justiça e Paz, numa parceria com a Comissão Justiça e Paz.

Na atitude dos empresários, e tendo como referência a Doutrina Social da Igreja, o que é mais importante renovar?

Penso que há aqui quatro palavras-chave: o amor, a confiança, a responsabilidade e a fé como critérios de gestão; são estes valores que temos de aperfeiçoar cada vez mais.

Creio tê-lo ouvido falar, ao longo da nossa conversa, por três vezes em “gestão pelo amor”. Em que consiste a gestão pelo amor?

Gerir pelo amor é estar próximo das pessoas. É perceber quais são os problemas que têm. Tentar melhorar as suas vidas. Isso não passa só por pagar salários, mas por colocar a empresa ao serviço da sociedade e com uma missão que envolva todos para o bem comum. Se todos estiverem bem integrados, se todos compreenderem os benefícios e os fundamentos da sua missão, estamos todos a cumprir e somos todos mais felizes.

© Entrevista originalmente publicada no Correio de Coimbra – 2 de Maio de 20129