Em homenagem a João Maria Félix da Costa Seabra

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Sou apenas um dos muitos privilegiados cuja vida o padre João Seabra atravessou. Isso sei. Mas quem foi mesmo João Seabra? Isso, só Deus sabe
POR JOSÉ LUÍS RAMOS PINHEIRO

Sou suspeito ao escrever este artigo? Claro. As amizades não se escondem. João Seabra desafiou-me para o jornalismo e para a Renascença, preparou-me para o crisma, casou-me e batizou a nossa filha mais velha.

Nem sempre o acompanhei em muitas voltas que a vida também deu. Mas as discordâncias humanas são irrelevantes, perante a grandeza de uma vida.

Na preparação do retrato biográfico que publiquei há tês anos com Raquel Abecasis, “João Seabra à Sua maneira“, ouvimo-lo (e gravámos) dezenas de horas. Reflexões, histórias e memórias tecidas com o fio bem visível da fé.

Algumas, por vontade do próprio, nunca chegarão a público. Mas essa vontade é apenas a confirmação do seu amor pela Igreja e por Deus.

No momento da sua morte deixo umas quantas perguntas entre tantas outras, possíveis e, porventura, mais pertinentes.

Quem foi este homem que combinava uma inteligência fascinante e uma espiritualidade arrebatadora?

Quem foi este jovem que encantava os salões de Lisboa e que os trocou pelos corredores do seminário?

Quem foi este homem que muitos davam como político, mas cuja vocação só um amigo, João Amaral, viu na verdade chegar?

Quem foi este estudante que, na véspera dos exames da faculdade, ouvia em casa do amigo Marcelo recitar as matérias e ‘aprendendo de ouvido’ excedia em brilhantismo os que tanto haviam estudado?

Quem era o jovem da elite de Lisboa que entregava horas da sua vida aos mais pobres, na zona do Casal Ventoso?

Quem era o monárquico que nunca fora adepto do Estado Novo, mas comparecia nas RGAs universitárias, reivindicando a palavra quando os mais extremistas da época não lha pretendiam dispensar?

Quem foi este estudante de Direito que no início dos anos setenta, telefonou ao reitor do seminário dos Olivais, o então padre José Policarpo, participando-lhe que queria ser padre?

Quem foi este seminarista que combinava a oratória típica de um brilhante licenciado em direito, com uma narrativa de Deus tocante e comovedora?

Quem foi este homem que decidiu entrar no seminário dos Olivais com uma Igreja em crise e um país à beira dela?

Quem foi este homem cujo processo de ordenação ele sabia ter sido atrasado, em 1975, mas até ao fim sem saber exactamente por que razão ou motivo?

Quem era o jovem seminarista que foi acalmar os militares do 25 de Abril que pretendiam ocupar o seminário dos Olivais, por suspeita de armas escondidas, trocando graças e cigarros que abateram a tensão e a desconfiança injustificadas?

Quem foi este homem a quem nunca custou obedecer, sem, porém, deixar de manifestar o olhar próprio sobre o que via, sentia e pressentia?

Quem foi este homem capaz de encher e preencher o espaço público, mas simultaneamente encher-se de ternura e compaixão perante o sofrimento e a fragilidade?

Quem foi este homem que abundando na certeza da fé reconhecia e pedia desculpa pelas culpas terrenas?

Quem foi este homem que enquanto prior nunca parou as confissões durante as Missas e perante as reservas de alguns pares, manifestou-se disposto a suspendê-las, caso eles também proibissem o ‘tlim-tlim das esmolas’ durante as celebrações’?

Quem foi este homem que confortou, apaziguou e ajudou tanta gente ‘do bolso dele’, mas também provocou, confrontou e inquietou?

Quem foi este homem que aproximou tantos sem deixar de dividir muitos outros?

Quem foi este padre e professor que aquecia os corações de jovens seminaristas, para além das convenções ou das conveniências do momento?

Quem era o capelão da Universidade Católica que não se fechava no gabinete e percorria todos os recantos e bares conhecendo e desafiando sobretudo os alunos, com o seu estilo que não era consensual, mas não deixava ninguém indiferente… nem sem resposta?

Quem foi este padre que em 1982, por altura da primeira visita de João Paulo II a Portugal, um ano depois do atentado na Praça de São Pedro, levou a pé umas dezenas de estudantes da Católica até Fátima, despertando e redescobrindo em cada um, o potencial humano, não exclusivamente religioso, de jovens que procuravam sentido e rumo para a sua vida?

Quem foi o padre, cuja influência era superior aos títulos que recebera, e que contribuiu a dada altura para inviabilizar o projeto de fusão da Católica com a Nova, como já antes, nos tempos de seminarista, se esforçara por manter a Católica na órbita da Igreja, quando outros propunham o oposto?

Quem era o apaixonado pela educação cristã dos mais novos que haveria de impulsionar a criação das Equipas de Jovens de Nossa Senhora?

Quem era o padre que tendo, entre outros, dado o pontapé de saída do Movimento Comunhão e Libertação em Portugal haveria de fundar o Colégio de São Tomás de Aquino, onde, por vontade própria, o seu corpo seria velado, depois da morte?

Quem foi o padre que encabeçou os movimentos contra o aborto em Portugal, mas que sempre tinha uma abordagem humana e acolhedora às mulheres colocadas perante esse sofrimento?

Quem era o padre insatisfeito pelo (não) apoio da Igreja aos católicos na política, lamentando que nas últimas gerações, muitos leigos envolvidos na atividade pública se tenham sentido desautorizados pela hierarquia?

Quem foi o padre que nunca chegou a ser bispo, o que muitos lamentaram, mas que garantia estar onde devia estar, ir para onde tinha que ir, sem nada lamentar ou reivindicar, assegurando que “tudo bate certo, nas contas de Deus”?

Quem era o padre que na senda das doenças de João Paulo II e Luigi Giussani (fundador do CL), nunca se escondeu nem fugiu à doença de Parkinson nem permitiu que a entropia do corpo lhe incapacitasse o espírito?

Quem era o padre que a doença tornava penoso falar, mas digitava diariamente em WhatsApp para os ‘amigos’, mensagens mais pessoais ou assumidamente pastorais?

Quem foi o padre que falava da ‘irmã morte’ como uma amiga, garantindo que a partida de tantos amigos e familiares lhe tornaram o Céu mais confortável?

Quem foi o Padre que descrevia a morte, como estar onde Jesus está, como o desejo de proximidade que o amado quer da pessoa amada?

Quem era o Padre que dizia que “então, diante desta maneira enternecida e íntima que Jesus tem de falar da minha morte, como é que eu posso olhar para a minha morte de outra maneira que não seja grato por ela?”

Quem era o Padre que ao abandonar a paróquia da Encarnação, ingressando em Sta. Joana Princesa, onde tão bem foi acolhido e guardado pelo padre Duarte da Cunha, dizia que “a sua vida não tinha outra utilidade nem propósito senão servi-Lo e oferecer-se por Ele e dar-se por Ele, como Ele fez por mim”?

Não encontrei na minha vida quem assim me falasse de Deus. Por vezes, ao ouvi-lo, não se percebia se era Deus que descia junto de nós ou se éramos nós que subíamos a Deus. Falava de Deus com a paixão dos santos.

Sou apenas um dos muitos privilegiados cuja vida o padre João Seabra atravessou. Isso sei.

Mas quem foi mesmo João Seabra? Isso, só Deus sabe.

 


Nota: Artigo originalmente publicado na Rádio Renascença a 06 de Junho. Republicado com permissão do autor. ©Todos os direitos reservados.