XXVI Congresso Mundial UNIAPAC Lisbon

“A partilha de valor não é independente da criação de valor”

Cécile Renouard, responsável na ESSEC Business School por um programa de performance societal de empresas multinacionais em países em desenvolvimento, é doutorada em Ciência Política e Filosofia e autora de vários livros

Quem o afirma é Cécile Renouard, professora de Ética Social e Filosofia Política e crítica feroz da lógica predatória de acumulação de riqueza por parte das empresas. A favor de uma economia relacional – “que coloque a qualidade dos laços sociais e ecológicos no centro do seu propósito” – a também especialista em responsabilidade social corporativa defende, e tal como o Papa sublinha na Laudato Si’, que é necessária uma conversão ecológica, a qual convide todas as pessoas de boa vontade a experimentar novas formas de vida, menos focadas no consumo e mais concentradas nas relações
POR HELENA OLIVEIRA

Defende que a empresa não só é uma organização económica, como uma instituição política, acredita que vivemos uma crise ecológica que se está a transformar numa questão de vida ou morte e que é absolutamente urgente que se articule a ética pessoal com os interesses corporativos. Especialista em responsabilidade social das empresas – apesar de considerar que este conceito deverá ir mais longe e incluir também os aspectos políticos, económicos e financeiros, decisivos em particular nos casos em que estas pretendem promover o seu compromisso de forma sustentável e equitativa na geografia em que estão inseridas, Cécile Renouard conta no seu currículo académico com um doutoramento em Ciência Política e outro em Filosofia e ainda com mestrados em Economia e Gestão, Filosofia Política e Teologia.

A também autora de 20 Propositions pour reformer le capitalisme condena com veemência a lógica predatória de acumulação interminável de capital e a tendência que muitas empresas continuam a manifestar no sentido de pensarem que os recursos existem em quantidade infinita, defendendo igualmente que a economia deverá colocar a qualidade dos laços sociais e ecológicos no centro do seu propósito.

Em entrevista ao VER, e no âmbito do XXVI Congresso Mundial da UNIAPAC, Cécile Renouard reforça a ideia de que“o lucro e o crescimento consistem num meio e não no principal objectivo de uma empresa ou de uma sociedade” e que “considerar os prejuízos sociais e ambientais como efeitos colaterais inevitáveis não assegura o respeito pela vida de cada pessoa”.

Temos vindo a testemunhar, em particular ao longo da última década, uma relação singular entre economia e sociedade, na qual das empresas se espera muito mais do que o seu “business as usual”. Sem ter a certeza de que a questão é pertinente, mas e a um nível filosófico como é possível definir uma empresa nos dias que correm?

Na lei francesa e noutros quadros jurídicos, a empresa (“entreprise” em francês) não está definida e a sociedade comercial (“société commerciale” em francês) é definida como uma associação de pessoas que iniciam uma atividade com o fim de obter lucros. É importante sublinhar que os accionistas, contrariamente ao que se costuma dizer, não são os proprietários da empresa, apenas detêm algumas acções da sociedade.

As alterações climáticas e ambientais bem como os danos sociais fazem-nos reflectir sobre as condições de uma criação de valor justa e sustentável

Desta forma, existe um desafio chave em assegurar que uma empresa (corporation) possa ser considerada como uma comunidade de pessoas que estão a lutar para desenvolver um projecto, o qual é financiado através do lucro. O projecto tem de ser consistente com o interesse geral ou com o bem comum definido por uma comunidade politica alargada. Em França, já foram várias as propostas discutidas par se alterar a definição legal de sociedade (company), sendo que a lei PACTE (relativa ao crescimento e à transformação corporativa), e que será aprovada no Parlamento inclui uma mudança no artigo 1833 do código civil francês: a sociedade (company) tem de ser gerida de acordo com os seus interesses sociais ao mesmo tempo que deve considerar os desafios ambientais e ambientais”. [em termos de tradução para português, corporation e company podem ambas significar empresa, daí se ter optado por manter a distinção feita pela entrevistada”]

É defensora de uma forma de pensamento para os líderes de negócios assente na ética virtuosa numa altura em que o utilitarismo ainda é rei. Quais são as principais características desta estrutura específica, tendo em conta que os modelos de negócio estão a sofrer uma enorme transformação, mas não tão significativa como seria desejável?

Uma perspectiva utilitária considera que o principal objectivo de um negócio é aumentar o lucro e só depois discutir a sua partilha – ao mesmo tempo que, e muito possivelmente, negligencia os seus factores negativos. E isto é problemático de uma perspectiva dupla. Em primeiro lugar, os economistas já demonstraram que a partilha de valor não é independente da criação de valor. Em segundo, as alterações climáticas e ambientais bem como os danos sociais fazem-nos reflectir sobre as condições de uma criação de valor justa e sustentável. O lucro e o crescimento consistem num meio e não no principal objectivo de uma empresa ou de uma sociedade. A geração de lucro tem de ser procurada somente se contribuir para criar uma vida melhor; e considerar os prejuízos sociais e ambientais como efeitos colaterais inevitáveis não assegura o respeito pela vida de cada pessoa.

Temos de reflectir de forma diferente, levando em linha de conta a integração humana na sociedade e na natureza

Tal como o Papa escreveu de forma bem clara na sua encíclica Laudato Si’, “não é suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se simplesmente de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnológico e económico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso. Além disso, muitas vezes a qualidade real de vida das pessoas diminui – pela deterioração do ambiente, a baixa qualidade dos produtos alimentares ou o esgotamento de alguns recursos – no contexto de um crescimento da economia”. Neste contexto (…), a responsabilidade social e ambiental das empresas reduz-se, na maior parte dos casos, a uma série de acções de publicidade e imagem” (194).

Muitas empresas estão conscientes desta situação, mas a verdade é que as suas mudanças incrementais não estão à altura da seriedade e da urgência da situação.

E como antevê esta mudança de paradigma e as suas principais barreiras?

Temos de reflectir de forma diferente, levando em linha de conta a integração humana na sociedade e na natureza. Um bom critério é reflectir sobre mudanças possíveis através dos olhos das pessoas mais vulneráveis, bebés, pessoas pobres e com incapacidades, gerações futuras: como é que podemos assegurar que as actividades que promovemos estão a favorecer relacionamentos de qualidade em todos os níveis e não a provocar danos?

Os recursos espirituais podem ajudar as pessoas a escutar o grito da Terra e o grito dos pobres

Para uma empresa, tal significa assumir a responsabilidade a dois níveis: aumentar a responsabilização relativa às consequências directas e indirectas (mas mensuráveis) da sua actividade – esta é a nova definição de Responsabilidade Social Corporativa (RSC) por parte da Comissão Europeia desde 2011. Assim, o nível de responsabilização tem de ser legalmente definido. Em segundo lugar, a empresa tem de ser responsável, em conjunto com outros, por evoluções complexas relacionadas com efeitos emergentes; esta responsabilidade é uma missão partilhada com outros actores públicos e privados, no sentido da preservação, cuidado e transmissão de bens comuns globais, de que é exemplo a coesão social, o clima, etc..

No livro em que é co-autora “20 Proposições para a Reforma do Capitalismo”, a primeira é “estabelecer a função social das empresas enquanto uma estratégia prioritária, através de incentivos e regulação”. É possível clarificar esta asserção?

As empresas precisam de condições equitativas seguras para se desenvolverem a si mesmas e as regras do jogo da actualidade não são consistentes com os desafios globais que enfrentamos. Assim, são necessárias regulações regionais e internacionais para harmonizar objectivos económicos e financeiros e dimensões extra financeiras: por exemplo, os paraísos fiscais e as políticas de preço de transferências criam perdas massivas para muitos países, com efeitos negativos para muitos cidadãos. Uma harmonização fiscal (por exemplo, alargar a chave de repartição de custos – a qual é implementada no Estados Unidos entre os seus vários estados – a um nível global) seria um enorme passo em frente, bem como uma mudança nas normas contabilísticas: a natureza não deve ser vista como um activo que pode ser indefinidamente explorado. Mas quando as regras principais do jogo são estabelecidas, existe um enorme espaço para a criatividade.

E o que entende por “capitalismo relacional”?

Sou a favor de uma economia relacional, uma economia que coloque a qualidade dos laços sociais e ecológicos no centro do seu propósito.

A promoção da ecologia é também algo que defende ser “desejável” numa empresa. No âmbito da visão do Papa Francisco no que respeita à nossa “casa comum”, que tipo de impacto considera ter existido – ou existir – aquando da publicação da encíclica Laudato Sí? Acredita nalgum tipo de integração das suas principais ideias na esfera dos negócios?

Já ouvi vários líderes de negócio afirmarem que o Papa Francisco não percebe as regras económicas. E são estas pessoas que reduzem, muitas vezes, a economia à economia neoclássica, defendendo que é esta última que fornece “a” verdade. Muitos economistas contemporâneos que ocupam altos cargos em grandes institutos (como é o caso de Kaushik Basu – antigo economista-chefe do banco Mundial, Frank Turner, que presidiu à Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido ou Gael Giraud – economista-chefe da Agência de Desenvolvimento Francesa) comprovam os bloqueios teóricos, bem como os empíricos, da economia neoclássica e mostram-se a favor da economia ecológica: esta perspectiva integra a ecologia e a coesão social como componentes chave de qualquer modelo económico. Alguns líderes de negócio decidiram integrar a RSC no seu negócio principal.

Nos seus escritos, defende muitas vezes a “conversão espiritual” de todos os líderes económicos. Até que ponto considera que o Catolicismo é importante para tornar os negócios mais humanos e com um significado maior?

Tal como o Papa sublinha na Laudato Si’, é necessária uma conversão ecológica, convidando todas as pessoas de boa vontade a fazer parte deste processo, a experimentar novas formas de vida, menos focadas no consumo e mais concentradas nas relações: desta forma, cada um de nós poderá sentir uma felicidade frugal. E, como parece óbvio, esta perspectiva tem de estar relacionada com uma alteração significativa nos nossos padrões de consumo e de produção.

Os recursos espirituais, e em particular aqueles que são cristãos, podem ajudar as pessoas a escutar o grito da Terra e o grito dos pobres e a orientar os seus negócios no sentido de uma vida com qualidade, frugalidade e solidariedade. O pensamento social católico pode-nos inspirar significativamente a discernir os diferentes caminhos que nos levam à justiça no Reino, não só a um nível pessoal, mas também colectivo.

Faz bastante pesquisa nas áreas da ética e da economia e, ao mesmo tempo e como enunciado acima, promove o conceito de desenvolvimento ecológico, socialmente responsável e sustentável para empresas de todo o mundo. Como sabe, a temática principal do Congresso Mundial da UNIAPAC é desafiar os seus participantes a transformarem a sua actividade numa vocação nobre. Considera que este desafio corresponde à forma como perspectiva a “empresa ideal” ou é algo que vai ainda mais além da mesma?

Volto a citar o Papa Francisco: “um percurso de desenvolvimento produtivo mais criativo e melhor orientado poderia corrigir a disparidade entre o excessivo investimento tecnológico no consumo e o escasso investimento para resolver os problemas urgentes da humanidade; (…) esta seria uma criatividade capaz de fazer reflorescer a nobreza do ser humano, porque é mais dignificante usar a inteligência, com audácia e responsabilidade, para encontrar formas de desenvolvimento sustentável e equitativo, no quadro duma concepção mais ampla da qualidade de vida (192)”.

A defesa da actividade empresarial como uma vocação nobre pela UNIAPAC é absolutamente consistente com esta perspectiva.