Opinião

A Companhia de Jesus na óptica da Gestão

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ACEGE - Núcleo do Porto David Zamith

A ACEGE Porto, na sus missão de procurar inspirar os gestores e líderes empresariais, em grata parceria com a Católica Porto Business School, realizou mais um seminário, num modelo novo, tipo workshop, com um número de participantes limitado, numa aposta para uma interacção maior entre o palestrante e os participantes. A apresentação ficou a cargo do Prof. José Bento da Silva que é PhD da Warwick University, onde leciona
POR DAVID ZAMITH

A sala estava cheia, o seminário correu muito bem, numa sessão muito participada, que continuou durante o almoço em partilha de ideias e experiências! Pelo que é modelo a seguir em futuras acções!

A apresentação ficou a cargo do Prof. José Bento da Silva que é PhD da Warwick University, onde lecciona. Tem um Mestrado em Gestão pela Católica Porto Business School, foi um regresso a casa, e é licenciado em Engenharia Electrónica e também em Filosofia. Tem dedicado a sua carreira académica ao estudo da Companhia de Jesus, na óptica da gestão!

Estrutura do Workshop:

  1. A ética organizacional resulta do desenho da organização
  2. A ética organizacional é distinta da ética dos negócios
  3. A ética organizacional trata de como se decide, e não do que se decide

Temas extremamente interessantes, actuais, até polémicos, mas plenos de ideias com 500 anos, quiçá actuais à Gestão Moderna e ao mundo da Inteligência Artificial?

A Companhia de Jesus conta com mais de 500 anos, numa organização fundada por Inácio de Loyolla, tendo hoje cerca de 18.000 gestores Jesuítas e 200 mil colaboradores. Está espalhada pelos cinco continentes, e pode ser considerada uma verdadeira multinacional. É uma organização bem-sucedida e de excelência, numa aposta missionária e educacional, sendo hoje um líder mundial em Colégios e Universidades.

A ACEGE Porto propôs uma reflexão sobre a sua forma de organização, e de que maneira alguns dos seus segredos e experiências no terreno podem ser úteis às nossas organizações, num mundo volátil, globalizado, apostado na Inteligência Artificial, em que todos vivemos.

Por que é que os Jesuítas são um estudo de caso interessante? Porque sendo uma organização como outra qualquer, estão sempre na busca “por novas formas de organizar”

A maioria das pequenas organizações evolui para grandes organizações. Raramente há um modelo organizacional pensado desde o início. No caso dos Jesuítas, o modelo foi projectado de início, mesmo antes de suas operações tomarem lugar! Ao contrário da maioria das organizações, incluindo outras organizações na época, os Jesuítas não começaram através da formulação de sua estratégia de negócios. Em vez disso, formularam o que era a sua organização. A organização, a sua estrutura e processos, foram projectados em primeiro lugar. Só então, ao longo do tempo, a estratégia de negócios surgiu fora da acção da organização.

A Ética resulta do desenho da organização:

O desenho da organização tem implicações para lá da estratégia e da ética e resulta do balanço entre o que é formal e o que é informal. No caso dos Jesuítas o balanço entre o formal e o informal é determinado pela distância entre o Centro (Roma) e o Local (comunidades geograficamente dispersas). Sendo que a forma como a organização foi desenhada tem implicações na forma como os membros agem. O que é, por definição, o plano da ética.

A Ética Organizacional é distinta da Ética dos Negócios: é a Ética o pilar da gestão moderna?

Sabemos, mesmo que intuitivamente, que a ética é fundamental para as organizações do século XXI (sejam estas organizações estatais, privadas ou do dito sector social) daí a abordagem de José Bento, separando a Ética Organizacional da Ética dos Negócios.

Contudo, continuamos com dificuldade em trazer a ética para as nossas empresas, e até para as escolas de negócios. Temos ainda mais dificuldade em compreender por que é que a ética é fundamental para entender o que é a gestão. Ou melhor, intuitivamente compreendemos que a ética é necessária. Mas outra coisa é colocarmos a ética como pilar da gestão moderna. O caso dos Jesuítas permite-nos reflectir sobre todos estes dilemas. Nomeadamente, os Jesuítas permitem-nos reflectir sobre a possibilidade de a Ética Organizacional ser ‘desenhável’, e por isso mesmo passível de ser gerida, ao lado da Ética dos Negócios, esta sempre mais mal tratada, como assinalou José Bento!

O que é distinto acerca da estrutura organizacional Jesuíta é o facto de separarem a Companhia (Jesuítas) da Empresa (os empreendimentos Jesuítas). A mais ampla empresa Jesuíta não existe formalmente como uma entidade legal, mas como uma infinidade de entidades jurídicas locais. É, como era desde o início, uma organização global – ou, em vez disso, duas organizações diferentes trabalhando perfeitamente juntas. Na estratégia para iniciar um novo negócio o factor limitativo é a própria capacidade de disponibilidade de gestores, daí os Jesuítas questionarem sempre “temos gestores para essa gestão?”. Ao contrário do convencional ”é o negócio atractivo?”.

Em termos de descentralização organizativa é de referir que em Roma, na sede, só cerca de 30 Jesuítas trabalham em exclusivo e cerca de 70 gerem as províncias (uma província é a região que pode coincidir com um país). Quer isto dizer que a organização Jesuíta de topo corresponde a 100 gestores, para um universo de 18.000 membros de gestão e 200.000 colaboradores e 3500 empresas sociais.

Os Jesuítas que dirigem a organização não se dedicam ao sector empresarial, estando completamente dedicados ao desenvolvimento da Companhia!

Como exemplo de referir, e recomendado por José Bento a consulta na internet, está a organização Jesuíta Fe y Alegria (FyA), uma rede de escolas na América Latina, a qual tem um staff de 43.000 empregados, trabalhando na organização cerca de 90 Jesuítas e sendo a gestão feita por somente 16.

A estratégia Global da Companhia está centralizada em Roma e tem como responsabilidade tudo aquilo que diz respeito ao global e universal dos Jesuítas a nível mundial. Um pouco também das sinergias do negócio, economias de escala ou acções através das fronteiras.

As unidades de negócio cuidam do que é particular, seja ele particular para o negócio ou para o local. A gestão é local. O centro, em Roma, é de facto uma plataforma global de conhecimento especializado e de recursos de gestão, transmitindo também conhecimento para o que faz um negócio Jesuíta ser verdadeiramente Jesuíta. Em termos simplificados: o centro concentra-se principalmente em questões culturais e identitárias.

Desde os tempos mais longínquos que os Jesuítas formalizaram tudo o que diz respeito à gestão de recursos humanos, com regras claras e universais, no que diz respeito ao recrutamento e processos de formação. Todos sabem quais as etapas da sua carreira. Uma organização muito simples e com três níveis hierárquicos (Geral, Provincial e Local), estando formalizados desde o inicio os mecanismos de governance de cada nível. Interessante, mencionou José Bento, que a organização das Universidades também seja simples e ancorada em três níveis hierárquicos (os administrativos, a academia e os alunos).

A ética organizacional não deve ser confundida com a ética dos negócios. Uma coisa é o desenho da acção humana; outra coisa é a forma como se conduz o negócio.

Exemplo:

– Desenhar um sistema de avaliação de desempenho é do plano da ética organizacional.

– Decidir quando pago aos fornecedores é do plano da ética dos negócios.

Não confundir ética com coisas “simpáticas” ou “politicamente correctas”, insistindo em que, ao distinguir ética organizacional da ética dos negócios, não significa que se possa ter comportamentos pouco éticos nos negócios, ou pela clássica frase “não temos outra alternativa”, concluiu.

A Ética Organizacional trata de como se decide, e não do que se decide

A organização Jesuíta preocupa-se com o alinhamento da gestão e daí não crescer por falta de gestores ou falta de incorporação de gestores externos. As equipas de gestão têm um quadro mental (Shared Mindset) de visão global, do mundo. Uma gestão alinhada no como se faz e não no que a pessoa faz. Ou seja, o importante não é o resultado final, mas sim o processo, como caminhamos. Não ser avaliado pelo que faz mas sim pelo que é!

O importante está na Pessoa, não no negócio.

O talento é o que a Pessoa é, e para que serve!

As preocupações globais da Companhia de Jesus vão para os pilares da Ecologia, Migrações (pobreza), Espiritualidade e Juventude, como os grandes eixos para o futuro!

Terminado com duas perguntas:

– Como se resolve a Pobreza?

– Como vê a ACEGE a sua própria carreira?

Um grande obrigado ao Prof. José Bento da Silva, pela excelência da partilha de conhecimentos e experiências na gestão, e até breve!