Cada dia que passa vou tomando maior consciência de que sou peregrino. À medida que o caminho avança olhamos para trás e vemos que já vivemos um pouco de tudo na história da vida. Chegadas a partidas, sucessos e desilusões, encontros e desencontros, surpresas inesperadas e situações planeadas, realizações e frustrações. Mas também feita de adventos e pascoas e reconhecemos, à Luz da Fé, Esperança e Amor, Quem nos foi sempre acompanhando, Quem se fez Presente e isso é o essencial e o que perdura para lá de tudo.

2020 faz parte desta peregrinação e ficará como lição de que não estamos preparados para tudo, não temos resposta para tudo e que, de facto, há circunstâncias que nos ultrapassam. Nem tudo pode ser planeável e previsto. Mas, no mais essencial, tudo se mantém e, por isso mesmo, celebramos Natal. Não existe maior Esperança do que esta nem maior sabedoria em o poder comprovar.

Sabendo que por detrás desta inesperada pandemia virá a perda de muita riqueza, o aparecimento de novos focos de pobreza nas famílias, fecho de empresas, desemprego, acredito que a recuperação lenta nos levará de volta a um mundo dito normal (há quem fale numa “nova normal”) conforme nos habituámos a viver.

Mas será uma oportunidade perdida se repetirmos erros do passado e não olharmos para o futuro questionando-nos: o que poderíamos ter feito de diferente? Onde temos vindo sistematicamente a errar?

Este ano 2020 está longe de ser um ano perdido. Pelo contrário, pode ser dos anos mais importantes que estamos a viver pois trouxe realidades novas, transformadoras, muito sofrimento, mas também uma maior consciencialização sobre: afinal quem somos? Do que somos capazes? O que nos pode alterar o rumo? Ou ainda, sozinho não conseguimos ou, estamos todos juntos!…

Como ponto de partida, desde logo, poderemos reconhecermo-nos mais frágeis, não detentores de soluções para tudo. Se colaborarmos em conjunto e construirmos à volta do “nós” e não do “eu”, conseguiremos ir muito mais longe, combatendo desigualdades e proporcionando soluções mais inclusivas. Tomámos consciência de que vivemos todos no mesmo barco, na mesma casa, que é comum e que precisa de ser preservada. Que o homem tem direito a uma vida com dignidade e que isso é responsabilidade de todos, de cada um. Em honestidade, consciência e verdade temos de reconhecer que o mundo dispõe de todos

Deste ano levo também como enorme sinal de Esperança todo o caminho que os jovens fizeram com a Economia de Francisco. Ajudam-nos a repensar novos modelos, a por em prática novos paradigmas, paradoxos, tornando possível o impossível. Mas antes, temos de estar despertos nas nossas consciências e tornar visível o que nos é invisível. É a inspiração do Santo de Assis que nos pode trazer luz para o caminho, a energia dos nossos jovens a alertarem-nos para a premência da mudança e o nosso compromisso em o fazer vida. Afinal, começar por “Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz…”

Desta Esperança e desta Paz de que nos fala o Natal, a vinda do Salvador.