Vocação Líder Empresarial

Vocação para uma “liderança de serviço”

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A “Vocação do Líder Empresarial” é uma espécie de ’manual’ para gestores, que evidencia o papel fundamental da vocação humana no desenvolvimento das organizações. Enunciando princípios ético-sociais fundamentais para construir uma visão da empresa enquanto comunidade de pessoas, o documento do Conselho Pontifício Justiça e Paz defende que o caminho alternativo, face aos obstáculos de uma economia globalizada, é o de uma ‘liderança de serviço’, que equilibre os requisitos do mundo dos negócios com estes princípios
POR GABRIELA COSTA

“A Vocação do Líder Empresarial” é uma reflexão do Conselho Pontifício Justiça e Paz (CPJP) que partiu “da resolução de elaborar uma espécie de Vade-mécum para homens e mulheres de negócios”, no qual os líderes empresariais são chamados a comprometer-se com o mundo económico e financeiro contemporâneo, à luz dos princípios da dignidade humana e do Bem Comum, como sublinha no Prefácio do documento o presidente da CPJP, Cardeal Peter Turkson.

O objectivo é fornecer aos líderes empresariais, aos membros das suas organizações e aos diversos stakeholders um conjunto de princípios práticos (ver Caixa) que os podem guiar no seu serviço em prol deste compromisso. Entre estes princípios, destacam-se o de satisfazer as necessidades do mundo com bens que sirvam verdadeiramente, sem esquecer as necessidades dos pobres e dos vulneráveis; o de organizar o trabalho no interior das empresas respeitando a dignidade humana; o princípio da subsidiariedade, que promove o espírito de iniciativa e aumenta a competência dos empregados; e, finalmente, o princípio da criação sustentável de riqueza e sua justa distribuição.

Trata-se de um instrumento de apoio educativo que aborda a “vocação” dos líderes empresariais que actuam num vasto leque de instituições, como empresas multinacionais, negócios familiares, negócios sociais, cooperativas ou organizações sem fins lucrativos, bem como os desafios e oportunidades que o mundo dos negócios lhes proporciona, no actual contexto “de intensas comunicações tecnológicas, práticas financeiras de curto prazo, e mudanças culturais profundas”.

As reflexões contidas na publicação têm origem num Encontro dedicado ao estudo de organizações empresariais à luz da encíclica social “Caritas in Veritate”, do Papa Bento XVI – o seminário “Caritas in Veritate: A Lógica do Dom e o Significado dos Negócios, realizado em Fevereiro de 2011, pelo CPJP em colaboração com o John A. Ryan Institute for Catholic Social Thought, o Center for Catholic Studies da University of St. Thomas e a Ecophilos Foundation, na sequência da conferência “Caritas in Veritate e os EUA”, que o CPJP organizou em Outubro de 2010, em parceria com o Institute for Advanced Catholic Studies de Los Angeles.

Gestores e empresários, professores universitários e especialistas no tema centraram o seu debate num volume de textos previamente publicado, o que permitiu elaborar mais tarde o documento “A Vocação do Líder Empresarial” que para além de ambicionar ser um livro de referência para líderes, é também um manual de formação para professores e escolas e universidades.

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© Arlindo Homem
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Ver, Julgar e Agir em prol do Bem Comum
Na publicação, a Comissão Pontifício Justiça e Paz defende que negócios e economias de mercado que funcionam correctamente contribuem grandemente para o bem-estar material e até espiritual da sociedade. Porém, a experiência recente demonstra o mal causado, quando há falhas nesse funcionamento, e hoje vivem-se “tempos difíceis para a economia mundial, durante os quais muitos empresários reduziram profundamente os rendimentos das suas empresas, puseram em risco a sua sobrevivência e ameaçaram muitos empregos”, recorda o Cardeal Turkson. Ainda assim mantém-se a “esperança de que os líderes empresariais cristãos recuperem a confiança e inspirem a esperança”, com “a fé que alimenta a sua procura diária do bem”, acredita.

Os desenvolvimentos que transformaram o mundo na actualidade, como a globalização, as tecnologias de comunicação e aquilo a que o CPJP chama de ‘financeirização’, trazem benefícios mas também criam problemas, defende-se no documento elaborado por iniciativa do organismo oficial da Igreja que tem por função promover o desenvolvimento dos países pobres e a justiça social, a nível internacional.

Desigualdade, deslocalização económica, sobrecarga informativa e instabilidade financeira são, entre outras, “pressões que interferem com o serviço do Bem Comum”. Mas perante as quais “os líderes empresariais que se guiam pelos princípios ético-sociais podem ser bem-sucedidos”.

Tece a reflexão que os obstáculos surgem sob diversas formas, da corrupção à ausência do Estado de Direito, passando por determinadas “tendências gananciosas” e pela deficiente administração dos recursos. Mas a nível pessoal, o mais significativo para um líder empresarial é ter uma vida ‘dividida’, conclui: “a separação entre a fé e a prática diária dos negócios pode conduzir a desequilíbrios e a uma devoção deslocada para o sucesso mundano”.

Neste contexto, o caminho alternativo é o de uma ‘liderança de serviço’ assente na fé, que faculte aos líderes empresariais uma perspectiva mais ampla e os ajude a equilibrar os requisitos do mundo dos negócios com os dos princípios ético-sociais, recomenda este ‘manual’ para líderes.

Uma gestão responsável que deve ser exercida em três patamares “profundamente inter-relacionados” – Ver, Julgar e Agir –, dimensiona o CPJP no documento:

VER – Os desafios e as oportunidades no mundo dos negócios alteram-se por força de factores positivos e negativos, incluindo quatro grandes “sinais dos tempos” com impacto nos negócios.

• A globalização trouxe eficiência e oportunidades extraordinárias e novas aos negócios, mas as desvantagens incluem maior desigualdade, deslocalizações económicas, homogeneidade cultural, e inabilidade dos governos para regular adequadamente os fluxos financeiros.

• As tecnologias de Comunicação possibilitaram a conectividade, novas soluções e produtos, e custos mais baixos, mas a sua espantosa velocidade também origina excesso de informação e processos de decisão precipitados.

• A “financeirização” dos negócios à escala mundial tem intensificado tendências para mercantilizar as finalidades do trabalho e para sublinhar a maximização da riqueza e ganhos de curto prazo, à custa do trabalho pelo Bem Comum.

• As mudanças culturais da nossa era conduziram ao maior individualismo, mais roturas familiares e preocupações utilitaristas pessoais e individualistas. Consequentemente, podemos ter mais bens privados, mas faltam-nos significativamente bens comuns. Os líderes empresariais concentram-se na maximização da riqueza, os trabalhadores desenvolvem atitudes reivindicativas de direitos, e os consumidores exigem satisfação imediata ao preço mais baixo. Uma vez que os valores se tornaram relativos e os direitos mais importantes do que os deveres, a finalidade de servir o Bem Comum perde-se frequentemente.

JULGAR – As boas decisões de negócios são as que radicam em princípios fundamentais, tais como o respeito pela dignidade humana e o serviço do Bem Comum, e uma visão da empresa como uma comunidade de pessoas. Na prática, estes princípios colocam o líder empresarial focado em:

• Produzir bens e serviços que satisfaçam necessidades humanas genuínas e sirvam o Bem Comum, responsabilizando-se, ao mesmo tempo, pelos custos sociais e ambientais de produção, das cadeias de oferta e de distribuição, e estando atento as oportunidades para servir os pobres;

• Organizar trabalho produtivo e com sentido, reconhecendo a dignidade dos colaboradores e o seu direito e dever de se desenvolverem no seu trabalho (“o trabalho é para o Homem”) e estruturar os locais de trabalho com subsidiariedade, que concebe, equipa e confia nos empregados para fazerem o seu melhor trabalho;

• Utilizar sabiamente os recursos para criar quer o lucro quer o bem-estar, de modo a gerar riqueza sustentável e a distribui-la justamente (salários justos para os empregados, preços justos para os clientes e fornecedores, impostos justos para a comunidade, e rendimentos justos para os proprietários).

AGIR – Os líderes empresariais podem pôr as suas aspirações em prática quando a sua vocação é motivada por muito mais do que o sucesso financeiro. Quando integram os dons da vida espiritual, as virtudes e os princípios ético-sociais na sua vida e no seu trabalho, podem ultrapassar a vida dividida, e receber a graça de promover o desenvolvimento integral de todos os interessados no negócio.

A Igreja apela aos líderes empresariais a que recebam e dêem entrando em comunhão com os outros para tornar o mundo um lugar melhor. A sabedoria prática melhora a sua perspectiva de negócio e fortalece o líder empresarial para responder aos desafios do mundo, não com medo ou cinismo, mas com as virtudes da fé, esperança e amor.

“A Vocação do Líder Empresarial” visa, pois, encorajar e inspirar os líderes e todas as partes envolvidas nos negócios a ver os desafios e as oportunidades no seu trabalho; a julgá-los à luz dos princípios ético-sociais; e a agir como líderes que servem a Deus.

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© DR
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Princípios ético-sociais para o desenvolvimento humano
Ao longo de 32 páginas, o documento enuncia os princípios fundamentais (como a dignidade humana e o Bem Comum) e os princípios práticos (como a satisfação de necessidades humanas genuínas, a organização do trabalho de forma produtiva ou a gestão de recursos com vista à geração de riqueza sustentável) que as empresas e os seus dirigentes devem adoptar.

Somente partindo de princípios ético-sociais é possível construir uma visão da empresa enquanto uma comunidade de pessoas que trabalham não só com a finalidade do lucro, mas ambicionando contribuir para o desenvolvimento humano integral, conclui o CPJP na publicação.

Reconhecendo que os desafios que confrontam hoje o mundo dos negócios e a cultura, em sentido lato, “são substanciais”, o documento de reflexão admite que os líderes empresariais podem ser tentados pela dúvida sobre as suas capacidades pessoais para integrarem o Evangelho no âmbito do seu trabalho quotidiano. O ‘manual’ recomenda assim que os empresários se abram ao apoio dos membros da sua Igreja, respondendo às suas hesitações com as virtudes inerentes à sua vocação. Isto é, “com fé, esperança e amor”.

“As boas decisões de negócios são as que radicam em princípios fundamentais humanos e numa visão da empresa como uma comunidade de pessoas”

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No documento, conclui-se ainda que, para viverem essa sua vocação, os líderes empresariais precisam de receber uma formação que lhes mostre “o bem que é distintamente seu”, na qual a família, a Igreja e a escola são instituições decisivas. De sublinhar que uma parte decisiva desta formação processa-se através da educação universitária, “onde aos futuros líderes são frequentemente apresentadas, pela primeira vez, as experiências, qualificações, princípios e finalidades dos negócios”.

A Igreja investe desde sempre na educação, gerindo hoje cerca de 1800 instituições de ensino superior a nível mundial, das quais aproximadamente 800 oferecem programas empresariais, alguns considerados entre os melhores do mundo. Na sua perspectiva, uma educação empresarial não constitui apenas uma formação em qualificações e teorias específicas, mas deve incluir, para além de todos os materiais teóricos e formação nas qualificações relevantes para a área da Gestão, “o tratamento cuidadoso do ensino moral e dos princípios sociais da Igreja” orientadores da prática profissional.

E se, em pleno século XXI, os estudantes em Ciências Empresariais são educados a partir de teorias poderosas e altamente formados em qualificações técnicas, muitos “deixam a universidade sem a formação ética e espiritual” capaz de lhes garantir que os seus pontos de vista e capacidades são usados em prol do bem-estar colectivo.

Os fundamentos para uma vida integrada do líder empresarial estão contidos neste ‘manual’ que visa constituir um forte contributo para o desenvolvimento de jovens detentores de elevados princípios e valores humanos. Hoje ou amanhã, empreendedores, gestores e todos os que trabalham na actividade empresarial “devem ser encorajados a reconhecer o seu trabalho como uma autêntica vocação.

Seis princípios práticos para a empresa
Os princípios do respeito pela dignidade humana e da prossecução do Bem Comum são os fundamentos da Doutrina Social da Igreja. Em conjunto com seis princípios práticos para a empresa, podem oferecer mais orientações específicas quanto a três grandes objectivos da empresa:Ao encontro das necessidades do mundo através da criação e desenvolvimento de bens e serviços
1. As empresas contribuem para o Bem Comum produzindo bens que são verdadeiramente bons e serviços que servem verdadeiramente.

2. As empresas mantêm a solidariedade com os pobres, estando alertas para as oportunidades de servirem as populações carentes e pouco assistidas e as pessoas com necessidades.

Organizando um trabalho bom e produtivo
3. As empresas contribuem para a comunidade, promovendo a dignidade do trabalho humano.

4. As empresas que praticam a subsidiariedade fornecem oportunidades para os trabalhadores exercerem a autoridade apropriada, contribuindo para a missão da organização.

Criando riqueza sustentável e distribuindo-a com justiça
5. As empresas modelam a administração dos recursos – de capital, humanos e ambientais – que receberam.

6. As empresas são justas na alocação dos recursos por todos os interessados: colaboradores internos, clientes, investidores, fornecedores e a comunidade.

Fonte: “A Vocação do Líder Empresarial”