Opinião

Se não tiver amor, nada sou. Paulo Pinheiro

O amor ao próximo como critério de gestão: tratar os colaboradores, os clientes, os fornecedores, os accionistas, os concorrentes, a comunidade e as gerações futuras como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos, com a informação de que dispomos sobre nós próprios, no lugar deles. Sob este lema e à volta deste conceito operacional, vivemos no Congresso da ACEGE um tempo extraordinário de reflexão, de partilha e de motivação.
POR PAULO PINHEIRO*

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*Paulo Pinheiro é sócio da Vieira de Almeida & Associados
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O tema do amor remete-nos para a essência própria do Cristianismo. «Deus é amor» (1 Jo 4, 8), como recordou Bento XVI na sua primeira Encíclica. É no amor que se centra a mensagem de Cristo: a interpelação para amar o próximo é o Mandamento Novo, o guia e o critério transversal nas nossas interações nas comunidades em que nos inserimos. É o amor que explica os Evangelhos e lhes confere unidade. É sobre o amor o mais tocante texto de S. Paulo: posso ser e ter todas as coisas do mundo, mas, “se não tiver amor, nada sou(1 Cor 13). Apetece acrescentar: posso ser o empresário ou o gestor com mais sucesso, mas se não tiver amor nada sou.

O amor é a síntese mais completa da nossa visão do mundo e da forma como devemos encarar a nossa passagem por aqui, cada um de nós como um ser único e irrepetível, cada um de nós como um filho amado por Deus e interpelado por Ele para a vocação de amar.

Voltar ao tema do amor para o conjugar com a nossa vida profissional nas organizações em que trabalhamos é voltar a Deus – Pai e Filho.

Sublinho três ideias fundamentais que retive do Congresso: (i) a importância de ter presente a centralidade do amor em todas as realidades sociais e em todas as facetas da nossa vida (ii) a harmonia criadora entre a mensagem de Cristo e a vida profissional e empresarial, e (iii) o imperativo de, com esforço e humildade, progredir, com pequenos passos, no caminho de santificação da vida profissional.

O amor em todas as facetas da nossa vida
O amor, enquanto conceito nuclear do Cristianismo, tem de estar presente em todas as realidades sociais, incluindo as empresas em ambiente competitivo, e em todas as facetas da nossa vida, incluindo a vida profissional.

A mensagem de Cristo não se aplica à la carte: aqui sim, mas ali  não; ao domingo sim, mas aos dias de semana não; na família sim, mas na empresa não; no trabalho de voluntariado sim, mas no trabalho profissional não; na relação com os amigos sim, mas na relação com os colaboradores não; na afirmação teórica dos valores sim, mas na gestão prática dos interesses não.

Não podemos deixar Cristo à porta do nosso gabinete. Não é preciso (nem é suposto, creio) que, na organização empresarial em que trabalhamos, evidenciemos com estrondo a nossa Fé. Mais do que apregoar em palavras os nossos valores, Deus pede-nos que os vivamos. Pede-nos que sejamos exemplo. Exemplos convincentes pela consistência e atraentes pelos resultados. Não pretendemos ter o monopólio da ética nos negócios nem o exclusivo da protecção da dignidade do homem na gestão das empresas, mas a implementação prática desses ideais tem de ser uma marca na comunidade dos empresários e gestores cristãos. Sem concretização dos ideais, não somos exemplo. Sem exemplo, não há evangelização.

A mensagem de Cristo e a vida numa organização empresarial: uma harmonia criadora
Integrar o amor cristão como elemento de ponderação e de decisão empresarial é um desafio viável – e até um factor de sucesso. Não um amor piegas, que redunde numa gestão complacente dos interesses ou na mitigação do espírito competitivo que produz inovação e riqueza. Não se pretende lassidão na condução dos processos ou indiferença na alocação dos benefícios em função do mérito ou do esforço. Nada disso. A mensagem de Cristo vive muito bem com a exigência e o rigor próprios da gestão empresarial. Provaram-no os inúmeros testemunhos que, no Congresso, se debruçaram sobre a aplicação prática destes temas na vida quotidiana da gestão e da liderança, mesmo no domínio sensível da relação com fornecedores ou concorrentes, ou até no sensibilíssimo campo da gestão de recursos humanos. Há muitas formas de encarar uma decisão de despedimento e muitas formas de conduzir o respectivo processo e de interagir com quem será por ele atingido. Há muitas formas de lidar com um trabalhador que atravessa uma fase de adversidade pessoal ou cuja família requer dele especial dedicação.

Além do mais, uma gestão envolvida pelos ensinamentos de Cristo e focada no respeito da dignidade da Pessoa Humana constitui um factor de sucesso para as empresas e para o espaço económico em que se inserem. “O amor como critério de gestão faz pessoas felizes. Pessoas felizes fazem empresas produtivas, empresas produtivas fazem uma economia competitiva e uma economia competitiva é a base de uma sociedade justa”. Esta é uma das conclusões partilhadas por António Pinto Leite na sua intervenção inicial do Congresso – um texto belíssimo, que vale a pena ler e reler.

Começar hoje
A mensagem do Congresso da ACEGE constitui um apelo incontornável – e inadiável. Quem teve a oportunidade de assistir ficou profundamente tocado. É agora tempo de incorporar tudo isso na nossa vida empresarial e profissional. E é tempo de trazer para esta caminhada mais e mais caminhantes.

Temos também de saber envolver a nossa Igreja neste esforço, ultrapassar resistências, trazer os bispos, os padres, as congregações e os movimentos católicos para a compreensão das realidades da vida económica e da vida das empresas, para a compreensão das dificuldades e dos dilemas de quem investe e de quem assegura a gestão das empresas. As instituições da nossa Igreja têm de saber falar connosco enquanto membros do mundo empresarial (nos tempos de hoje, talvez fizesse mais sentido termos um Bispo das empresas e do trabalho do que um Bispo das Forças Armadas e dos militares…).

A propósito da necessidade de agir, lembrei-me de uma conversa que tive um dia, há não muito tempo, com um amigo (e padre de Schoenstatt), a quem, com descarada falta de humildade, eu explicava que não tinha ainda iniciado uma certa tarefa porque a achava grande demais e não sabia por onde começar. Ouviu e, no fim do meu sonso lamento, disse-me apenas: “Deixa-te de tretas; faz-te ao caminho”.
É isso mesmo. É preciso que cada um de nós se faça ao caminho.
E haverá caminho mais promissor que o do amor?