Opinião

“Queremos ajudar os párocos na gestão”

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Em entrevista ao programa “Conversa Fiada” da Rádio Açores/TSF, o responsável em São Miguel da Associação Cristã de Empresários e Gestores, Francisco Gil, dá a sua visão sobre a crise e os empresários açorianos e revela que a ACEGE gostaria de ajudar a Igreja na gestão financeira.

Francisco Gil, 34 anos, natural de São Miguel é gestor formado pelo Instituto Superior Técnico, com um MBA pela Universidade Católica Portuguesa. É responsável pelo núcleo de São Miguel da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), que recentemente realizou em Ponta Delgada uma conferência sob o lema “Lucrar com Valores – Um Olhar de Esperança na Crise”.

O que levou a ACEGE a realizar esta conferência com estes temas dos valores e da crise aqui nos Açores?
Gostaria, em primeiro lugar, de lembrar que a ACEGE iniciou a sua actividade há cerca de um ano aqui na ilha de São Miguel e, como associação de empresários e gestores cristãos, acha que deve desempenhar um papel dinamizador em tudo o que diga respeito à ética, aos valores e à responsabilidade social nas empresas. Esta conferência surge no desenrolar de um conjunto de outras actividades que foram desenvolvidas ao longo do ano, com algumas pessoas que vieram cá falar sobre os temas da ética e da responsabilidade social. Em particular, esta conferência “Lucrar com Valores – Um Olhar de Esperança na Crise” surgiu na sequência de toda esta situação e desta conjuntura actual, onde existe alguma indefinição, quer do ponto de vista económico, quer financeiro.

Daí este espaço, que pretendíamos fosse um espaço de reflexão e debate sobre a temática dos valores, no qual mais do que mostrarmos e termos uma postura de apresentar os valores, pedimos no fundo aos empresários e às pessoas presentes para terem uma atitude pró activa de estarem presentes e debaterem este tema. Estas são questões que, em geral, discutimos, mas há alturas em que é preciso reflectir um pouco mais sobre elas. Pensámos, por isso, que esta era a altura adequada, com a vinda de um conjunto de palestrantes de alto nível, para lançar este debate sobre os valores e sobre a ética que extravasa também o mundo empresarial.

Ficou satisfeito com o resultado final?
Nós aqui na ACEGE em São Miguel ficámos bastante satisfeitos. Dou-lhe o exemplo de uma pessoa que, no final da conferência, nos agradeceu e disse que saía dali mais rica… O objectivo era exactamente esse: que as pessoas saíssem mais ricas do ponto de vista pessoal e que pudessem, com essa reflexão, ter um impacto positivo nas suas organizações.

Coloca aqui uma questão fundamental. Por vezes, neste tipo de eventos, discutem-se ideias, aprende-se, mas nem sempre se dá o passo seguinte, que é o de passar à prática. Teme que mais uma vez, este debate não saia das intenções?
Este é exactamente um dos nossos grandes desafios. O de não sermos mais uma associação de conferências e de debate, mas sim sermos uma associação que ultrapasse esse problema e que consiga ser uma associação mais pragmática, acompanhando os empresários e os gestores no sentido deles porem em prática aquilo que aqui debatemos. Reconheço que esta é a parte mais difícil, mas este é efectivamente o nosso desafio e vamos estar durante este ano bastante focados nesta valência da prática, porque achamos que é a mais importante. Vamos tentar arranjar um conjunto de acções específicas para os gestores, que de alguma forma os permita aplicar as melhores práticas, numa postura mais próxima da sociedade.

E que “acções” podem ser essas?
Estamos a estudar a possibilidade de, em conjunto com a Igreja Católica, ter um papel mais activo ao nível de cada uma das paróquias, no qual os gestores poderiam ajudar os párocos nas questões económico-financeiras.

Ajudar os párocos a gerirem melhor as paróquias?
Sim, mas também num sentido de que os párocos precisam de tempo para fazer aquele que é realmente o seu trabalho, que não é um trabalho de gestão económico-financeira. Mas há também outro desafio que ainda estamos a analisar, que é a implementação de um programa de ‘mentoring’ junto das escolas profissionais e, talvez, também junto das escolas secundárias, no qual um gestor poderia, eventualmente de mês a mês, ter algum tempo para estar com os alunos finalistas, porque às vezes uma simples conversa de orientação ajuda as pessoas a escolherem melhor o seu futuro, podendo mesmo fazer a diferença. De alguma forma, é trazer um pouco a prática do dia-a-dia das empresas e da nossa vida para as escolas, que são um local de formação que não pode estar desalinhado com a realidade. Penso que desta forma poderíamos ajudar os alunos na sua decisão de escolher um curso, contando com isso com a nossa experiência de gestores. Ainda estamos a ver como poderemos implementar este programa, mas julgo ser uma experiência que poderia ser interessante e um contributo dos gestores no dia-a-dia da sociedade.*

* Leia esta entrevista completa na edição impressa do Açoriano Oriental de domingo, 1 de Fevereiro de 2009.

Paulo Simões / Rui Jorge Cabral

© Entrevista publicada originalmente em 31 de Janeiro de 2009 no site Acoriano Oriental.