Opinião

Precisamos de mais futuro!

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O mundo está a ser redesenhado. E ainda não sabemos, longe disso, qual será o resultado deste conturbado passado recente. Mais do que nunca, todos somos poucos para, gradualmente, transformarmos os constrangimentos em oportunidades e estas em progresso e bem-estar

 

POR PEDRO VAZ SERRA*

Chegámos a 2009 em condições bem difíceis. Os últimos 18 meses têm sido vividos de uma forma intensamente adversa, algumas vezes até dramática e foram poucos os sectores e ainda menos os países que conseguiram passar por esta crise de uma forma airosa. O mundo está a ser redesenhado. E ainda não sabemos, longe disso, qual será o resultado deste conturbado passado recente. Sabemos apenas, o que já não é pouco, que não será brilhante. Mais do que nunca, todos somos poucos para, gradualmente, transformarmos os constrangimentos em oportunidades e estas em progresso – com crescimento e desenvolvimento – e bem-estar. Para que isto aconteça precisamos de estabelecer compromissos: individuais, colectivos e transversais à sociedade. E nada melhor do que um ano pródigo em actos eleitorais para fazê-lo, de forma equilibrada, mas determinada e exigente.

Por tudo isto, o ano de 2009 não poderá ser um ano perdido. O país não está em condições de ter essa atitude e todos nós, enquanto cidadãos e eleitores, não devemos ser portadores desse estado-de-espírito.

Em Portugal, as eleições europeias, legislativas e autárquicas poderão (ou não) estimular o país. Independentemente das nossas convicções ou simpatias políticas, será sempre bom para nós e, portanto, para o país, que haja uma oposição activa, audível e perceptível. E, sejamos claros, a ausência de uma oposição com estas características tem prejudicado a nossa vida. O governo tem revelado coragem e determinação, tem procurado efectuar algumas reformas e, reconheçamos, tem conseguido implementar algumas políticas que são positivas e que, há muito, eram necessárias. Mas tal não significa que os portugueses sintam que estão hoje melhor, que vivam melhor, que tenham melhores perspectivas. Antes pelo contrário, sentimos que estamos a ser governados no e para o dia-a-dia, mas sem preocupações estratégicas e de médio prazo. O governo está, desde há uns meses, a gerir o cronograma eleitoral e os portugueses estão a ser actores de um esforço que deixará (pesado) ónus para o futuro. E como quase sempre acontece nestas matérias, até nem é (só) uma questão de dinheiro. É, acima de tudo, uma questão de eficácia e de eficiência, de produtividade, de critério e de bom-senso: não precisamos, necessariamente, de mais recursos; precisamos, sim, de adoptar boas-práticas que permitam fazer mais, gastando melhor.

E o que é grave é que, ao olharmos para as alternativas, não encontramos quem procuramos.

Não precisamos de discursos negativos ou pouco construtivos. Não precisamos da crítica gratuita. Não precisamos de demagogia. Não precisamos de iniciativas artificiais, que atiram “sacos de dinheiro”, mas não potenciam a sustentabilidade dos projectos. Não precisamos de sindicatos que confundem a defesa dos seus representados com o oportunismo político dos seus representantes. Não precisamos de ministros que não têm a percepção da realidade. Não precisamos de deputados que cumprem calendário (e, mesmo assim, muito descoordenado, por defeito, do calendário civil…), mas não cumprem as obrigações e os compromissos assumidos perante os seus eleitores.

Estamos cansados do dia-a-dia castrador de tempo e usurpador de energia. Estamos desanimados – mas não admirados – com as promessas que, com origens diversas, são feitas de uma forma totalmente fantasiosa, eleitoralista e, portanto, pouco ou nada exequíveis. Estamos desorientados com a falta de rumo. Estamos legitimamente preocupados com as adversidades, internas e externas. 

Precisamos de voltar a sonhar. De voltar a viver, com expectativas e com perspectivas. De voltar a acreditar que somos capazes. De voltar a acreditar no sucesso de um país, integrado numa Europa à qual pertencemos de pleno direito.

Precisamos de sentir que o futuro passa por nós, que queremos e podemos construí-lo. Precisamos de promover a iniciativa e os investimentos. Precisamos de gerir e correr riscos. Precisamos de antecipar tendências. Precisamos de criar emprego. Temos de potenciar a formação ao longo da vida. Temos de criar alternativas aos homens e mulheres que, tendo iniciado uma vida profissional, sentem que ela foi abruptamente interrompida.  

Precisamos de educar as nossas crianças. Precisamos de dar opções de vida aos nossos jovens. Precisamos de formar os nossos adolescentes. Precisamos de cuidar, com dignidade, dos mais velhos.

Precisamos de andar na rua em segurança. Precisamos de estar em casa com tranquilidade. Precisamos de confiar nas nossas instituições. Precisamos de concluir e/ou iniciar as reformas estruturais no nosso país. Precisamos, em muitas circunstâncias, de um pacto de regime, que torne possível efectuar, em conjunto e por várias legislaturas, aquilo que é difícil efectuar numa única legislatura.

Precisamos de mais cidadania. Precisamos de cidadãos mais exigentes. Precisamos de pessoas mais positivas. Precisamos de mais futuro!                 

Publicado em 06 de Janeiro de 2009

* Pedro Vaz Serra é associado da ACEGE

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