Realizou-se

O pai de Manuel Câmara

Era uma vez um miúdo que aos 10 anos criou um site sobre brinquedos e que não ficou rico porque o pai recusou um negócio que mais tarde iria transformar-se numa IPO de 8 mil milhões de dólares. Enquanto espera que o seu rebento o processe judicialmente, António Câmara lidera os caminhos globais da YDreams, um exemplo de inovação além-fronteiras

Algures no século passado: quando tinha 12 anos, no agora malogrado cinema Éden, António Câmara assistiu a um filme com Jerry Lewis. Na película e ao organizar um concurso na sua cidade natal, o humorista norte-americano anunciava os prémios para os três vencedores do mesmo: 1º prémio – um carro desportivo português; 2º prémio – dois carros desportivos portugueses e, 3º prémio – três carros desportivos portugueses. Irritado por estarem a ridicularizar o seu país (na verdade e na tradução, os prémios eram apresentados como sendo paraguaios), talvez tenha sido este o rastilho que levou António Câmara a sonhar em mudar o estado de (des)graça que apresentava Portugal como um país avesso à inovação.

Século XXI: uma rapariga está numa esplanada (uma das palavras-chave do léxico de António Câmara) com uma bela t-shirt. Interactiva. À sua frente, um rapaz, adepto das novidades tecnológicas, usa também uma t-shirt do mesmo “modelo”. Cruzam-se olhares, a rapariga prime um pequeno botão e, na sua t-shirt, aparece um coração bem vermelho. O rapaz, não querendo ficar atrás, prime igualmente um botão: na sua t-shirt aparece… o seu número de telemóvel. E agora, Jerry Lewis?

António Câmara, Prémio Pessoa em 2006, é presidente da YDreams, empresa de origem portuguesa com operações globais, que disponibiliza produtos, soluções personalizadas e serviços para diversas unidades de negócio: Publicidade, Entretenimento, Educação & Cultura e Ambiente & Qualidade de Vida. Criada em 2000, vencedora de vários prémios e menções um pouco por todo o mundo, só há três semanas se rendeu à necessidade de contratar um gestor profissional.

No almoço-debate organizado na passada quarta-feira pela ACEGE, António Câmara deu a conhecer não só a história de uma empresa que subverteu o clima instalado no panorama estático nacional, mas também o que é necessário mudar para que o optimismo passe a substituir o estado de “lamúria” que se vive nas nossas universidades, terreno que deveria ser de “cultivo” de jovens que são formados para se lançarem à “aventura” e não para serem somente empregados de uma qualquer empresa. Por falar em cultivo, o novo edifício da YDreams tem uma horta devidamente cuidada por 40 voluntários da empresa.

Do “MIT or me” à “mercearia” de engenheiros
Quando ainda estava como professor na UNL, António Câmara formou um grupo com o pior nome possível – GASA: Grupo de Análise de Sistemas Ambientais – do qual resultou “um trabalho verdadeiramente fantástico” e que permitiu ao futuro fundador da YDreams viajar até ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), o maior ecossistema global que conjuga conhecimento, inovação tecnológica e empreendedorismo. Foi no MIT que António Câmara percebeu que “no mundo de hoje é possível criar empresas, de rápido crescimento, em qualquer local e que podem transformar países”.

António Câmara começou por estudar as condições que permitiam às universidades gerar empresas, entre as quais se destacam, para além do MIT, Stanford e Cambridge, e o nível de riqueza que tal representava para os respectivos países. Para além de concluir que tudo começa na universidade, onde “desde o primeiro ano, a investigação e a aprendizagem independente é incutida nos estudantes, a par de um enorme estímulo para o empreendedorismo”, o português pensou que o melhor seria mesmo ficar por ali. Contudo e com um repto da sua mulher que o colocou entre “o MIT or me”, Câmara achou por bem escolher a mulher e regressou a Portugal. No entretanto, percebeu igualmente que submeter patentes era mais “adequado” do que escrever artigos e que a “inovação é a venda da invenção”.

“Durante seis meses, eu e os meus estudantes estudámos o mercado e verificámos imediatamente que este não tinha o menor respeito pela universidade mas que, apesar de tudo, havia ideias que valia a pena desenvolver”, conta. Com o apoio da Vodafone, ganharam um concurso internacional para o desenvolvimento de mapas para telemóveis, PDAs e Web e foi esse o projecto que os permitiu lançar a empresa “em condições extraordinárias”. Inspirado por uma frase de Bill Hewlett, um dos míticos fundadores da igualmente mítica Hewlett Packard – “ a HP só sobreviveu no seu início porque só tinha engenheiros” -, nos primeiros quatro anos a YDreams possuía apenas a linha de baixo da pirâmide técnica. Contudo, depressa aprendeu que numa empresa de tecnologia existem, em primeiro lugar, as ideias, que têm de ser de “classe mundial e que sem o financiamento ajustado e o marketing não vão a lado nenhum”. Por outro lado, sabe agora que cada vez mais é necessário olhar para a gestão e inverter a tendência existente em Portugal de que a infra-estrutura tecnológica é o essencial. “Não vamos vender software para mapas, vamos vender mapas, ponto final”, ilustra. Perceberam, por isso, que teria de haver uma interacção entre a engenharia e a parte de conteúdos e de interfaces e o primeiro contratado foi um designer. Durante esse tempo, sem director financeiro, gestores profissionais e com uma contabilidade feita externamente, a YDreams foi gerida “como uma mercearia, na qual só gastávamos aquilo que entrava de cada vez”. O conjunto de engenheiros estava dividido em dois grandes grupos: os que definiam problemas (espécie rara no nosso país) e os que os solucionavam. “Todos nós somos treinados para resolver problemas e há muito poucos que os sabem definir. E esse é um dos maiores problemas de Portugal”, afiança.

“Contratar pessoas melhores do que nós”
O lugar-comum de que, nas empresas, o melhor são as pessoas não é, na YDreams, uma mera declaração politicamente correcta. Inspirado por Guy Kawasaki, o conhecido evangelizador da Apple nos seus primeiros anos, António Câmara adaptou os critérios de selecção contidos no conhecido livro “The Macintosh Way”. Paixão, energia e autoconfiança são ingredientes indispensáveis para que uma empresa seja inovadora. Saber lidar com o stress e com a ambiguidade – no sentido de se estar preparado para agarrar novas oportunidades, “mesmo que tal nunca nos tenha passado pela cabeça” – são cruciais para que o cozinhado vá tomando forma. E, por fim, a capacidade para delegar, inspirar e, sobretudo, concretizar, apuram o repasto. A concretização é, para António Câmara, um dos (outros) grandes problemas do país. “Os portugueses fazem milhares de malabarismo e não marcam golos. Portanto, para além dos imaginativos e criativos, fomos buscar pessoas que concretizem e não falhem”, afirmou.

A forma de recrutamento da YDreams baseia-se num lema simples, embora não muito ouvido ou seguido pelos gestores profissionais: “contratar pessoas melhores do que nós”, elucida o fundador e presidente da empresa. E esse é um dos seus principais trabalhos. Com 150 colaboradores em Portugal e 200 espalhados pelo mundo, Câmara tem de identificar as pessoas que fazem a diferença em diversas áreas e, por outro lado, convencer os portugueses de mérito que se encontram lá fora a regressar para Portugal. Contando com a preciosa ajuda de avós e avôs, no caso em que os candidatos têm filhos, tem sido bem-sucedido. E existe outro aspecto obviamente importante quando se fala em recrutamento: as compensações. Apesar de todos os trabalhadores da YDreams possuírem stock options da empresa, de acordo com um inquérito realizado internamente, “descobrimos que o que dá mais prazer aos contratados é poderem trabalhar junto de pessoas que os respeitem, num ambiente criativo”. Daí a aposta em experiências para transformar o local de trabalho num espaço de liberdade e criatividade: de uma garagem em Barcelona transformada em galeria-escritório ao novo edifício da YDreams, na Caparica, a ideia é atingir um grau de loucura ambicioso, mas saudável. Para já, conceder 6 m2 a cada empregado para deles fazer o que quiser, uma sala para sestas – um “poder” em que Câmara acredita piamente – um estúdio para os ensaios da banda rock da empresa (a YDreams vai participar no concurso de bandas empresariais promovido pela revista Fortune), da horta já anteriormente citada e das reuniões semanais na esplanada – das pessoas responsáveis pela empresa com todas as pessoas da mesma – Câmara está quase satisfeito.

Quanto à formação rege-se por um misto de aleatório e estruturado. “Aplicamos imenso o estímulo aleatório que ajuda a brotar ideias”, exemplifica com o caso de um mágico norte-americano que aos 15 anos fugiu de casa e aos 25 formou-se em Matemática, sendo professor em Stanford e que pratica o método aleatório. Para além da formação estruturada, com base nas áreas de especialidade da empresa, existe também o poder das parcerias – seja com o MIT, Stanford, Harvard ou com pessoas e/ou empresas com as quais se vão cruzando – a YDreams tem também um programa de reciclagem dos conteúdos básicos de Matemática e Língua Portuguesa, cujas matérias ficam a cargo de um conjunto de voluntários que dão “aulas” aos seus colegas.

A comunicação e o culto
Para além das reuniões semanais já mencionadas, António Câmara recuperou um conceito utilizado há alguns anos nas escolas secundárias e nas universidades. Denominadas como RGA – Reunião Geral de Alunos – a ideia é poder dizer-se tudo, altura aproveitada por todos os intervenientes para expressarem desde o que lhes vai na alma até às ideias mais loucas que possam até roçar o absurdo. As festas com a banda de rock da empresa servem igualmente para estreitar a comunicação entre os colaboradores. Mas é na Net que “vivemos” e é através dela que se consegue chegar aos olhos e ouvidos do mundo.

Para além do blog da empresa, foi importante estudar muito bem o tipo de comunicação estruturada com base na Web. O caminho até ao YouTube, por exemplo (hoje em dia, quem não está no YouTube parece não existir), passa não só pelos media tradicionais, mas sobretudo pelos blogs. Mas, em todo este processo, existe um factor determinante: o culto. Ou seja, um grupo de opinion makers que “decide” o sucesso ou o fracasso de uma ideia, empresa ou projecto.

“O que a Google fez no início foi ‘hierarquizar’ um grupo de jornalistas que, de uma forma algorítmica, chegou a esse culto, visitando as primeiras instalações da empresa que, na altura, já eram fantásticas”, conta. “Como a Google na altura não tinha dinheiro para instalar ar condicionado nas instalações, foi à Wal-Mart comprar umas ventoinhas gigantes”, continua. E aí começou uma história que se transformou em lenda.

Algo parecido fez a YDreams quando, para o lançamento do seu primeiro jogo e sem dinheiro, resolveu convidar um dos mais conceituados jornalistas da área para vir a assistir a uma conferência promovida pela Vodafone na qual era apresentado o jogo. “Nos 15 dias que se seguiram, a notícia correu célere pela Net e estávamos no maior portal mundial apresentados da seguinte forma: ‘Próxima geração de jogos é inventada em Portugal pela YDreams”.

António Câmara está habituado a ouvir que a sua empresa é um sucesso. Com escritórios em Barcelona, Xangai, Brasil (2), Estados Unidos e Reino Unido espera, em 2012, chegar a uma facturação na ordem dos cem milhões de euros. Mas só se sentirá um sucesso quando “ultrapassarmos a TomTom, que vale 10 mil milhões de dólares e está a anos-luz da YDreams – ou seja, a YDreams é muito, mas muito melhor”.

A universidade da aventura
António Câmara é profundamente crítico relativo ao ensino extremamente “pretensioso” que se pratica em Portugal. “Passei cinco anos no Técnico a resolver charadas, a servir o objectivo dos professores de provar aquilo que eu não sabia”, afirma. Focando dois problemas principais de Portugal – o das pessoas que não são bem-sucedidas, tanto no ensino secundário como no superior e o facto dos que têm mais de 45 anos não se conseguirem reintegrar no mercado de trabalho (realçando a necessidade de formação ao longo da vida) – António Câmara acredita que estamos a “perder o fio narrativo das nossas vidas”.

A YDreams assinou ontem, com o Ministério da Educação, um protocolo que visa ajudar a combater o insucesso escolar. Para que tal aconteça, são necessárias medidas tanto a nível de mentalidade – o ensino superior tem que se enquadrar definitivamente no mundo moderno – como no ensino em geral, para formar pessoas que sejam capazes de determinar uma carreira independente e não serem somente preparados para serem empregados de uma empresa. No que respeita aos 50 por cento das pessoas que desistem da sua formação escolar e que é necessário recuperar, as universidades devem também estar preparadas para fundar escolas que não se rejam pelos princípios do ensino tradicional. A interacção entre universidades e empresas é crucial, bem como a promoção do empreendedorismo. “Para os estudantes vai ter que ser mais importante saber fazer do que ter boas notas”. Esta é a “universidade da aventura”, modelo que, a seu ver, vai ser (em alguns casos já o é) adoptado pelas melhores universidades do mundo. O fundador da YDreams defende igualmente o estatuto de fundação para as universidades, libertando-as dos constrangimentos e da dependência sufocante do Orçamento Geral do Estado.

Nota: Para conhecer o trabalho “futurista” da YDreams, vale a pena conhecer o seu site e/ou os seus vídeos no YouTube