Opinião

Menezes à conversa com um amigo…

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Não será comum, mas toda a gente conhece casos em que uma frase, uma ideia, uma sugestão ou um pequeno acontecimento, sem sentido aparente, mudam a vida de quem ouve ou lê estes sinais da vida. Pela minha parte, lembro-me de uma aula em que o professor me desafiou a imaginar uma conversa com um amigo, mas com uma peculiaridade: essa conversa, fictícia, ocorreria no futuro, daqui a cinco anos, onde eu descreveria ao meu amigo o que tinha andado a fazer nesses últimos anos e que explicaria a minha actual (futura) situação. Numa palavra: onde é que eu quero estar daqui a cinco anos, e o que é que eu devo fazer até lá para atingir os meus objectivos. 

Parece simples, mas pode ser aparente. E lembrei-me desta aula a propósito do Dr. Menezes, o novo líder do PSD. Porque o Dr. Menezes poderia talvez descrever ao País, e aos militantes do seu partido, como vê o País daqui a cinco anos, caso ele mande. E como pode, e quer, vir a liderar Portugal a partir de 2009.

A ideia não me parece descabida. Começando pelos objectivos, convém dizer que há propósitos que qualquer um aceita e deseja: menos impostos, menos desemprego, maior riqueza, contas públicas controladas, uma sociedade mais solidária e coesa. Por aqui não há novidade. Mas há outros menos consensuais e mais polémicos: será que todos querem uma sociedade mais livre e responsável? Será que todos desejam o mesmo papel para o Estado? Será que deve ser o mercado (naturalmente regulado) a ser subsidiário do Estado, ou o contrário? A História, a Cultura, a Tradição e a Moral fazem sentido, ou são verbo-de-encher? Ora seria sobre alguns destes assuntos que seria importante conhecer a opinião do Dr. Menezes, até porque o PSD sobre estes assuntos pensa apenas, e rigorosamente, aquilo que o líder na altura defende. 

Se assim é, como seria a conversa entre o Dr. Menezes e um amigo, dentro de cinco anos sobre a Educação? Diria, por exemplo, que há vários e diferentes projectos educativos em Portugal, e que cada família poderia escolher a escola que melhor servisse os interesses do(s) filho(s)? Diria que a escola é livre para contratar professores, e gerir o parque escolar, mas sujeita a uma avaliação rigorosa pelo ministério? Numa palavra, daqui a cinco anos haveria uma verdadeira liberdade educativa? 

E sobre a Saúde? Diria Menezes que a saúde seria privada, responsabilizando-se o Estado pelos que não podem pagar? Explicaria ao seu amigo como as Misericórdias e outras instituições de carácter social desempenham agora, cinco anos depois, um papel crucial nos cuidados de saúde? 

Será que na conversa com o amigo perderia tempo a explicar como o Estado tinha poupado fortunas no financiamento de auto-estradas e em projectos megalómanos (como o TGV), mas que em contrapartida tinha usado esse dinheiro para modernizar o Estado? 

E sobre as autarquias? Será que mostrava os cálculos do que teria poupado em transferências do Orçamento, porque estas deixaram de financiar luxos como as cantinas e eventos ditos culturais? E demonstraria que o que o Estado recebeu pela venda da CGD e outras empresas públicas, foi rentabilizado na modernização da Justiça?   

Num discurso célebre, Martin Luther King deu a conhecer o sonho que tinha para a América. E qual é o sonho do Dr. Menezes? E esse sonho é diferente do de José Sócrates (se é que o homem sonha)? Em quê? Haveria mais liberdade e menos Estado? Fazia mais reformas? E onde? E com quem? 

Sem dizer ao que vem, o que quer e como lá chega, o Dr. Menezes já tem idade para saber que poucos trocarão o certo pelo incerto, e para perceber qual dos dois é ele. 

Associado da ACEGE

Pedro Vassalo

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