5º Congresso Nacional

Meditação Pe. Mário Rui Leal Pedras

Meu caro António Pinto Leite, presidente da ACEGE, caros membros da direcção nacional e das direcções dos núcleos regionais, ilustres convidados, entre os quais distingo os representantes da ACGD, congénere da Acege em Angola, caríssimos associados, distintos patrocinadores, minhas senhoras e meus senhores.

O V Congresso da Acege realiza-se no contexto celebrativo do seu 60º aniversário e tem como tema orientador: “o amor ao próximo como critério de gestão”.

O amor e a verdade sintetizam a essência da revelação cristã. Unidos, amor e verdade, expressam a razão fundamental da dimensão histórica e pública do cristianismo e estão, por esse motivo, na origem da Doutrina Social da Igreja.  É neste âmbito e tendo como guia a “Caritas in Veritate” que se situa o meu apontamento de meditação que introduz o trabalho deste dia.

Bento XVI, afirma que “só na verdade a caridade resplandece e pode ser autenticamente vivida (…) a caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja” sublinhando a sua íntima conexão e como se exigem reciprocamente: “sem verdade a caridade cai no sentimentalismo, (…) ou pode ser facilmente confundida com uma reserva de bons sentimentos, eventualmente úteis para a convivência social, mas marginais“. 

O amor e a verdade são, em conjunto, a principal força propulsora, o princípio iluminador e o eixo em torno do qual se move a Doutrina SociaI da Igreja:“No actual contexto social e cultural, em que aparece generalizada a tendência de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo indispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral”.

I – O dom como paradigma

O amor e a verdade vêm ao nosso encontro como dom, não podem apenas ser construídos ou planificados porque antes de tudo, são um dom recebido e atestam uma excedência, uma superação do ser, em relação aquilo que nos é devido e às nossas próprias pretensões. A sociedade é assim convidada a reconhecer-se mais como con-vocada do que apenas produzida por consensos ou por contratos de natureza social.

O cristianismo é a religião da verdade no amor e também a religião do amor na verdade. Cristo é simultaneamente a Sabedoria criadora e o Amor redentor. Por isso a maior ajuda que a Igreja dá ao desenvolvimento integral do homem, e da sua vida em sociedade, é levar Cristo a cada pessoa, porque o desenvolvimento integral do homem e da sociedade não são produtos humanos mas vocação inscrita no plano original de Deus, vocação que nos precede e que nos constitui. A verdade e o amor(…) não se podem produzir, mas apenas acolher. A sua fonte última não é o homem, mas Deus, Aquele que é Verdade e Amor”.

Vocação do homem e pecado
O ser humano tende para algo que só por si não tem condições de alcançar e portanto lhe escapa, o seu pleno desenvolvimento, necessita de elementos que os homens não sabem, nem conseguem, dar a si próprios. Esta situação, fruto do pecado das origens, não é do passado,  manifesta-se no presente, em particular na índole produtiva e utilitarista da própria existência humana.

A recusa em considerar o pecado manifesta a dimensão específica da cultura contemporânea, a que podemos chamar a positivação do mal. O esquecimento do pecado oferece ao homem um ponto de partida falso: a felicidade está ao alcance de cada um, em intensidade e em durabilidade, sem qualquer ascese ou interpretação e a infelicidade aparece como algo que é possível superar, apenas pelo esforço das próprias mãos. O mal surge como mero acidente de percurso na existência humana e combate-se apenas através de programas humanos. Porém, mesmo com programas bons e generosos, não se enfrentará devidamente o problema. Não o enfrentam, nem o podem enfrentar porque partem de uma premissa falsa e as soluções a que chegam traduzem-se em programas que estão equivocados porque não respondem ao problema no seu todo.

“No elenco dos campos onde se manifestam os efeitos perniciosos do pecado, há muito tempo que se acrescentou também o da economia”, diz Bento XVI. Procurando o bem para o homem e para a sociedade, a economia identifica-o quase sempre, apenas com o bem-estar pessoal e com a acção de ordem social, com o objectivo de melhorar as condições de vida sociais. A economia, percorreu caminhos no seu desenvolvimento, que em princípio deveriam servir o homem, mas que conduziram ao abuso: “Primeiro, a convicção de ser auto-suficiente e de conseguir eliminar o mal presente na história apenas com a própria acção induziu o homem a identificar a felicidade e salvação como formas imanentes de bem-estar material e de acção social. Depois, a convicção da exigência da autonomia para a economia, que não deve aceitar «influências» de carácter moral, impeliu o homem a abusar dos instrumentos económicos até mesmo de forma destrutiva”.

Bento XVI afirma que este caminho percorrido pela economia é perigoso porque poderá conduzir, no coração do homem e na construção da sociedade, à morte da esperança. Tal cenário, a morte da esperança, como aliás também a morte da fé e da caridade, seria absolutamente trágico para a vida humana e para a construção da vida em sociedade.

Jesus Cristo, medida do “homem todo” e de “todos os homens”
A plenitude a que aspira a vida do homem só em Cristo se pode encontrar. A vocação inscrita no coração do homem por Deus ao seu pleno e integral desenvolvimento é confirmada pelo Evangelho que manifesta e confirma como é verdadeiro e bom o que existe no plano natural, dando-lhe luz, a partir do plano sobrenatural. É à luz da encarnação do Filho de Deus, na qual foi restaurada a condição humana, que o homem se reconhece como imagem e semelhança de Deus. Jesus Cristo é o critério último que permite decifrar correctamente quais são os caminhos do desenvolvimento de “todo o homem” e dos “homens todos”. Bento XVI diz-nos que o critério «o homem todo e todos os homens» serve para avaliar também as culturas e as religiões. O cristianismo, religião do «Deus de rosto humano», traz em si mesmo tal critério”.

O homem, “um coração que vê”
É necessária a “conversão” de coração e de olhar, à sabedoria para reconhecer que “o receber precede o fazer”, não só no homem como na vida organizada da pessoa em sociedade. A conversão de coração permite “ver” na economia, no trabalho, na empresa, na família e na comunidade a marca impressiva de Deus gravada em nós e no desenvolvimento integral do homem e da criação, uma autêntica vocação. Se os bens forem apenas bens, se a economia for apenas economia, se estarmos juntos significa apenas estarmos próximos, se o trabalho é apenas produção e se o progresso é apenas crescimento… se nada con-voca tudo isso a ser mais e se tudo isso não nos con-voca a sermos mais, não só a pessoa não se eleva à estatura devida como as relações sociais tenderão a implodir por si mesmas.

Os critérios de “um coração que vê”, na verdade e no amor, permitem compreender o que significa o mais do humano na vocação ao seu integral desenvolvimento e à sua vida plena em sociedade. Quem não se sente menos quando é enganado, traído, defraudado naquilo que espera como devido, como justo? Quem não se sente menos quando não é escutado ou não pode participar no desenvolvimento da sociedade em que vive? De facto, o amor e a verdade são a gramática elementar do coração humano.  Diz-nos o Papa: “É preciso ir sempre mais além: exige-o a caridade na verdade. Todavia, ir mais além nunca significa prescindir das conclusões da razão, nem contradizer os seus resultados. Não aparece a inteligência e depois o amor: há o amor rico de inteligência e a inteligência cheia de amor”.

O homem, “uma razão dilatada” que decide  
Não só não se deve prescindir das conclusões da razão, como é urgente que esta se alargue e se dilate à estatura plena da pessoa. O Santo Padre afirma que: “a caridade e a verdade colocam diante de nós um compromisso inédito e criativo, sem dúvida muito vasto e complexo. Trata-se de dilatar a razão e torná-la capaz de conhecer e orientar estas novas e imponentes dinâmicas, animando-as na perspectiva daquela «civilização do amor», cuja semente Deus colocou em todo o povo e cultura”.

A razão integra também a dimensão moral em todo o ciclo do sistema económico. “Uma das maiores tarefas da economia é precisamente um uso mais eficiente dos recursos, não o abuso, tendo sempre presente que a noção de eficiência não é axiologicamente neutra”. As fases do ciclo económico não são neutras, de facto, “a angariação dos recursos, os financiamentos, a produção, o consumo e todas as outras fases do ciclo económico têm inevitavelmente implicações morais. Deste modo, cada decisão económica tem consequências de carácter moral”. Não se fala de uma moral ou de uma ética que venha depois de terem sido alcançados os objetivos económicos. Mas afirma-se a presença das relações morais no interior da própria economia.

O homem, “uma liberdade que se ganha para o bem”
Nas decisões que se tomam exprime-se a liberdade da pessoa. E esta sendo uma dimensão essencial da condição humana, não está nunca definitivamente adquirida. O homem precisa de se ganhar todos os dias na sua liberdade, para o bem. Por isso “a liberdade humana só o é propriamente quando responde à sedução da técnica com decisões que sejam fruto de responsabilidade moral”. “Somente se for livre é que o desenvolvimento pode ser integralmente humano”.

II –  A gratuidade como princípio

Para o Papa, “não só não podem ser ignorados ou atenuados os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, quer no pensamento como nos comportamentos, mas também que nas relações comerciais, o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal. Isto é uma exigência do homem no tempo actual, mas também da própria razão económica. Trata-se de uma exigência simultaneamente da caridade e da verdade”.

Uma economia aberta ao princípio da gratuidade
“Ao enfrentar esta questão decisiva, devemos especificar, por um lado, que a lógica do dom não exclui a justiça nem se justapõe a ela num segundo tempo e de fora; e, por outro, que o desenvolvimento económico, social e político precisa, se quiser ser autenticamente humano, deve dar espaço ao princípio da gratuidade como expressão de fraternidade”.

Vivemos num mundo em que não vigora nem a ética do dom, nem o princípio da gratuidade, mas a lógica da justiça. O suporte em que está assente a nossa economia é o contexto da reciprocidade e não o da fraternidade, e neste contexto tem dado muitos e bons frutos. Tem sido de extraordinária importância a presença dos princípios éticos em todas as áreas da vida humana e também na económica que “não é nem eticamente neutra nem de natureza desumana e antissocial. Pertence à actividade do homem; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada”.

Porém a estruturação ética em todo o ciclo económico precisa de incluir o dom e o gratuito. Para que isto aconteça é importante compreender que o amor está ligado directamente à verdade do homem e por isso do seu pleno desenvolvimento em sociedade. Essa ligação com a verdade é que torna o amor um critério orientador da acção moral.

Da fraternidade ao bem comum
Bento XVI afirma que “a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. A razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade”. O sentimento de proximidade não é assim suficiente para alicerçar as motivações no exercício de responsabilidades e de competências, em âmbito individual, empresarial e institucional.

A sociedade contemporânea ao separar a solidariedade das suas raízes traduziu o seu exercício em filantropia, em benevolência e em cooperação. Ao fazê-lo dificultou objectivamente a concepção e a expressão do amor relegando-o para uma experiência de natureza privada. E institucionalizou a solidariedade apenas no próprio âmbito do bem-estar social, no coração do Estado social.

Institucionalizado assim, é o próprio conceito de solidariedade que se esvazia do seu sentido mais interno e mais profundo. Percebemos melhor por isso a acutilância da frase emblemática do Papa Bento XVI, já citada, “a caridade é a via mestra da Doutrina Social da Igreja”. De facto o desenvolvimento assente na fraternidade e na prossecução do bem comum não pode ser construído apenas sobre o bem estar-social ou sobre causas unicamente materiais. No centro da questão estará sempre a liberdade humana, que é convidada a agir com a razão e com o coração, motivo pelo qual nos adverte Bento XVI “o desenvolvimento é impossível sem homens rectos, sem operadores económicos e homens políticos que sintam intensamente em suas consciências o apelo do bem comum”.

Na prossecução do bem comum
A questão não é tanto corrigir politicamente as disfunções da economia ou do mercado, quanto perseguir o “bem comum”. Não se trata de opor mercado, sociedade civil e Estado ou de fechar-se cada um no seu próprio campo. Como se a economia cuidasse das relações comerciais e da busca do lucro, à sociedade civil competisse apenas a realização de acções gratuitas e solidárias na lógica da fraternidade e o Estado interviesse apenas para fazer a redistribuição dos recursos e aplicar a justiça. Bento XVI insiste que “é causa de graves desequilíbrios separar o agir económico, ao qual competiria apenas produzir riqueza, do agir político, cuja função seria buscar a justiça por meio da redistribuição”.

Cada esfera deve ser animada pela lógica do dom e pelo princípio da gratuidade, tornando o agir do homem verdadeiramente humano. O amor na verdade coloca o homem perante a admirável experiência do dom e do gratuito. Esta visão teológica e antropológica, natural e sobrenatural, racional e revelada, projecta luz sobre os ensinamentos que a Igreja, na sua Doutrina Social, nos oferece para o discernimento moral dos complexos e actuais acontecimentos de natureza económica, social e política. Ao dar início aos trabalhos do dia, neste 5º congresso da Acege, deixemo-nos mobilizar pelo seu tema inspirador “O amor ao próximo como critério de gestão” e saibamos entregar os resultados alcançados nas mãos de Deus, que em Cristo nos recorda “Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos”.   Rezemos-Lhe com confiança: Pai Nosso.

Pe. Mário Rui Leal Pedras