Opinião

Liderança Empresarial

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Jorge Líbano Monteiro é secretário-geral da ACEGE

O Presidente da República, num importante discurso proferido durante um dos seus primeiros contactos com o país real, vincou um dos principais problemas com que os portugueses se debatem ao solicitar aos empresários que assumam o seu papel específico na liderança do País, com profissionalismo e dedicação.

Uma liderança empresarial que se pretende diferente da política, que não se confunda com a visibilidade social, limitada à projecção de si próprio, mas que se quer concretizada através dos resultados, do respeito por valores e princípios éticos, da capacidade de liderar pessoas, congregando-as e motivando-as para projectos ganhadores.

Uma liderança, em suma, baseada na competência, sem exibicionismo mas também sem medos, que deve ajudar à criação de riqueza através do exemplo prático dado no quotidiano.

O Presidente fez o apelo a um Portugal que, infelizmente, ainda não acredita nos empresários nem nas empresas – que apenas tolera como um “mal necessário” para a garantia de “emprego”.

De facto, por muito que as empresas procurem desenvolver novas estratégias de responsabilidade social, de maior proximidade com os cidadãos, os portugueses continuam a olhar com desconfiança os empresários, os gestores e as chefias.

Uma realidade agravada pelo facto de muitos empresários e gestores se colocarem a jeito, por não terem consciência da enorme responsabilidade que detêm em termos de exemplo e de influência, quer seja na vida das empresas ou no desenvolvimento da própria sociedade onde estão inseridos.

São as empresas e os empresários que dão visibilidade aos produtos, que promovem modas e estilos de vida. Umas vezes indo ao encontro da realidade existente, outras vezes inventando necessidades e determinando novos comportamentos.

É por isso que nem todos os negócios lucrativos devem ser realizados. É também por isso que nem todos os produtos com capacidade de atracção devem ser vendidos ou que nem todas as campanhas publicitárias devem ser realizadas, por mais lucrativas que se afigurem para o negócio e para a empresa.

O empresário e o gestor têm de perceber e tomar consciência do impacto que a sua empresa tem na sociedade. Têm de perceber que o seu espaço de influência é maior que o espaço da acção da sua empresa. Têm de saber que o seu exemplo, e o exemplo da sua empresa influência, directa ou indirectamente, o caminho da sociedade para o bem ou para o mal.

Recordo-me que há dois anos, o Dr. José Luís Ramos Pinheiro, director da Rádio Renascença, decidiu promover um acordo entre os meios de Comunicação Social no sentido de não serem noticiadas acções de “pessoas barricadas” enquanto tais acções não fossem solucionadas. A verdade é que deixaram de existir “barricados”.

Um exemplo simples para demonstrar que os empresários e gestores não podem continuar a ter medo de promover acções de acordo com os seus princípios morais. Não podem continuar a fazer parte de um “rebanho” que segue a maioria ou a minoria mais aguerrida. Têm de ter a coragem de repensar campanhas, produtos e serviços sem perder de vista o êxito das suas empresas, mas também sem esquecer a sociedade que desejam construir.

Estou certo de que o Presidente Cavaco Silva, quando pediu uma nova liderança empresarial na sociedade portuguesa, não se limitava a pedir melhores performances e capacidade de correr riscos aos nossos empresários e gestores, mas apelava, principalmente, ao desenvolvimento de uma nova atitude empresarial consciente das realidades envolventes e das responsabilidades exigíveis

 O Presidente saberá, por certo, que para alterar as mentalidades é essencial começar por mudar as pessoas, encontrar as pessoas capazes de protagonizarem o projecto de mudança. O que quer dizer que não podemos aspirar a alterar as mentalidades se antes não tivermos reunido um conjunto de empresários corajosos, com ideias e valores claros consistentes.

Só assim será viável responder, positivamente, ao importante apelo presidencial. Só através da galvanização dos empresários com capacidade e vontade para liderar a mudança poderemos aspirar a uma nova dinâmica e liderança empresarial.