4º Congresso Nacional

Intervenção António Pinto Leite

Senhor Presidente da República

Senhor Presidente da Comissão Europeia

Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa

Caros Amigos,

Permitam-me, em primeiro lugar, que me dirija a cada uma das três personalidades que hoje nos distinguem com a sua presença.

Senhor Cardeal Patriarca, a sua presença tem um significado único. O Senhor D. José representa todos aqueles que entregaram toda a sua vida aos outros e isso enche de Paz esta sala.

Senhor Presidente da Comissão Europeia, meu Caro José Manuel, Amigo de há 30 anos. Ficarás na História como o português que dirigiu os destinos da Europa quando a globalização dava os primeiros passos e deu o primeiro trambolhão.

A presença do Presidente da Comissão Europeia traz o Mundo a esta sala e estou certo que ao reflectires sobre valores connosco levarás o sentimento desta sala a todo o Mundo.

Senhor Presidente da República, Caro Professor Cavaco Silva. O Senhor Presidente representa tudo o que hoje um líder empresarial deve ter: visão (tem sido seus o único pensamento de médio prazo), competência, honestidade, energia positiva, sentido de servir e antes quebrar que torcer.

A sua presença aqui faz toda a diferença, o Senhor sabe-o bem e nós todos lhe agradecemos este seu gesto.

Este Congresso é o resultado da acção, do dinamismo e do crescimento da ACEGE nos últimos anos.

A par de uma enorme oferta de acompanhamento espiritual aos nossos associados, fizemos centenas de debates com os mais prestigiados economistas, empresários e gestores sobre os temas centrais da gestão e da ética cristã nos negócios.

Aumentámos decididamente o número de Associados. Fomos à procura do país e das pequenas e médias empresas e abrimos 13 núcleos regionais, tirando a ACEGE de Lisboa e ajustando-a cada vez mais à realidade da economia portuguesa.

Amanhã mesmo, aqui, às 11h, a ACEGE assinará um protocolo com a Associação dos ex-Alunos da Faculdade de Ciências Económicas e Empresarias da Universidade Católica. São mais de 4.000 responsáveis empresariais actuando em toda a economia.

Abrimos também o nosso espaço de diálogo e é com muita alegria que temos hoje connosco os representantes da CGTP e da UGT.

Lançámos, com a preciosa colaboração da ACCENTURE, o PORTAL-VER, o melhor órgão de comunicação nacional sobre Valores e Ética, hoje distribuído já por 10.000 destinatários.

Estamos em vésperas de concluir, com a colaboração da McKinsey, o projecto Bem Comum. Com a participação do Grupo José de Melo, do Grupo Santander, do Grupo Espírito Santo e da Caixa Geral de Depósitos será constituído um fundo destinado a apoiar iniciativas empresariais de desempregados com mais de 40 anos e com perfil empreendedor.

Nos termos do estudo da McKinsey falta um 5º investidor e ele vai aparecer, naturalmente.

Lançámos a Lista dos Pagamentos Pontuais, em partilha com a CIP e a CAP, com o objectivo de que o máximo de empresas se comprometam publicamente a fazer o mínimo, isto é, honrar pontualmente os seus compromissos.

Aprovámos o Código da Ética e cerca de mil empresários e gestores já o assinaram.

Provocámos um solavanco geracional na ACEGE, baixando a média etária e envolvendo a geração dos 45/55 anos, hoje com enormes responsabilidades.

Tudo isto, tendo como horizonte outro solavanco geracional, procurando ir ao encontro da geração dos 25/40 anos, porque são eles o futuro e porque são eles que encaram os desafios sempre com mais optimismo e é dessa energia que o mundo e o cristianismo precisam.

Apoiámos o desenvolvimento da Associação Cristã de Dirigentes e Gestores de Angola, que tem uma delegação de 9 membros neste Congresso, os quais saúdo calorosamente, na esperança de prosseguirmos um caminho comum.

E lançámos, com a generosa e inestimável ajuda da McKinsey, o “Projecto Igreja”, destinado a criar condições para ajudar a Igreja Católica a optimizar os seus recursos e a libertar os nossos padres para a vida pastoral e para o bem comum.

A ACEGE transformou-se numa realidade e sobretudo numa possibilidade demasiado séria para que a deixem só.

Importa reflectir sobre a razão de ser da ACEGE.

A ACEGE assenta em duas fés: a fé do Homem em Deus e a fé de Deus no Homem.

A fé dos Homens em Deus faz-nos pertencer à ACEGE. Sendo esta a única associação cristã de líderes empresariais o objectivo só pode ser um, reunir aqui todos os empresários e gestores cristãos.

Mas há outra fé: a fé de Deus no Homem.

Deus acredita e criou-nos para que cada um fizesse a diferença no mundo onde intervém.

Nesta fé de Deus em cada um de nós radica a matriz da acção da ACEGE.

Não representamos interesses empresariais, nem representamos sequer os interesses dos nossos associados.

A missão da ACEGE é ajudar cada um de nós a fazer da diferença na empresa em que actua.

Por isso dizemos que não há empresas éticas, nem empresas generosas. Há pessoas éticas e pessoas generosas que transformam ética e generosamente as organizações em que se inserem.

É esta a fé de Deus em nós.

Este é o limite da ACEGE, mas também a sua missão, a sua paixão e a sua liberdade.

Importa também reflectir sobre a ética cristã.

O núcleo vital da ética cristã é o amor. O dever ser cristão é o amor.

É por isso que é tão simples, é por isso que é tão exigente. E é por isso que obriga cada um de nós, num mundo empresarial tão stressante, tão concorrencial e tão tentador, a um enorme discernimento e a uma cuidada formação da consciência.

A ética cristã exige o cumprimento de toda a lei justa. Não devemos corromper, devemos pagar os impostos, devemos respeitar os salários legais, devemos agir com boa fé com os nossos clientes e com os nossos fornecedores.

Mas isso é o mínimo ético e a ética cristã não se basta com o mínimo ético.

Ao dever ser civil, acresce o dever ser da generosidade.

Tomemos dois exemplos.

Não basta à luz da ética cristã pagar o salário mínimo nacional, sabendo que é um salário próximo do limiar da pobreza.

É preciso confrontar o nosso exercício de racionalidade económica com a nossa generosidade. Só depois desse exercício sério podemos pagar o salário mínimo nacional.

Não podemos, também, tirar partido da crise e a coberto dela atrasar pagamentos aos nossos fornecedores. É precisamente porque estamos em crise que devemos fazer um esforço acrescido para pagar pontualmente, não colocando ainda mais dificuldade e sofrimento no tecido económico.

E não transformemos as culpas do Estado numa desculpa ainda maior para todas as empresas.

Se o centro vital da ética cristã é o amor, os líderes empresariais cristãos devem entender os “stakeholders” como o seu próximo, sim, o próximo de que fala a Bíblia.

Amar os nossos colaboradores, os nossos clientes e os nossos fornecedores significa uma coisa muito simples, que Cristo explicou de forma pragmática: ama o teu próximo como a ti mesmo, isto é, trata os outros como gostarias de ser tratado por eles se as posições fossem inversas.

A minha experiência empresarial e de gestão, numa organização já com 240 pessoas, ensina-me de ciência exacta: a ética é um investimento de longo prazo, mas é o melhor investimento de longo prazo.

Terceiro ponto, intervenção na avaliação das políticas públicas.

Quando os bens são escassos, o amor tem que ter uma estratégia, tem que ter prioridades.

O amor, na ordem civil, diz-se solidariedade.

A ACEGE, no quadro do seu Código de Ética, tem denunciado que o desperdício do Estado é o mais grave pecado social da sociedade portuguesa.

A incapacidade do Estado de se sujeitar às melhores práticas públicas, aplicadas noutros Estados, tal como as nossas empresas se têm de ajustar às melhores práticas da concorrência, consome sem moral nem misericórdia as energias do país e os impostos dos portugueses.

E pior, porque a carga fiscal atingiu o máximo sustentável, o desperdício significa que a riqueza que devia acorrer aos verdadeiramente necessitados é desviada para manter uma organização ineficiente, caríssima e, ao que parece, de reforma inacessível aos cidadãos que a pagam.

É em nome dos pobres, dos desempregados, dos idosos, dos emigrantes, de todos os excluídos ou em dificuldades, que a reforma do Estado se tornou num imperativo.

Não só um imperativo económico, mas sobretudo um imperativo ético.

Por que razão um estudante húngaro entre os 6 e os 15 anos custa 30.000 dólares e o mesmo estudante em Portugal custa quase 60.000 dólares, apresentando o sistema educativo húngaro muito melhores resultados?

Por que razão os tribunais portugueses têm quase o dobro dos funcionários da média europeia e a nossa Justiça apresenta um dos piores desempenhos da União Europeia?

A solidariedade em Portugal está sem estratégia e sem correctas prioridades.

A relação entre o Estado e a economia, nela se incluindo empresários e trabalhadores, não é uma relação justa.

É preciso um olhar cristão sobre a reforma do Estado, que determine essa reforma em nome da justiça social.

Quarto ponto, a Igreja Católica.

A Igreja Católica está no centro das preocupações e da missão da ACEGE.

A Igreja Católica é a maior história de amor ao próximo da sociedade portuguesa.

A Igreja Católica é o maior empreendedor social português, mas mais, muito mais do que isso, nenhuma outra instituição como a Igreja multiplica por tanto a boa vontade dos Homens.

A Igreja precisa de nós.

A Igreja tem um recurso extraordinário: milhares de homens e mulheres que largaram tudo para servir os outros. É preciso ajudar a Igreja a organizar o melhor possível este bem precioso que só ela tem.

Os nossos padres gastam muito tempo em tarefas administrativas e de intendência. É preciso libertá-los dessas tarefas, libertá-los para a sua vocação.

Se conseguirmos libertar mais 25% do tempo dos nossos padres para a vida pastoral e para o bem comum, havendo cerca de 4.000 padres, é como se se gerassem mais 1.000 padres.

Meus Deus, quanto bem pode ser feito se isso for conseguido.

Por isso temos dito aos Senhores Bispos: queremos amar a Igreja, pedimos à Igreja que se deixe amar.

Último ponto, os líderes empresariais cristãos e a crise.

A primeira palavra é devida a todos os que estão a passar por grandes dificuldades ou que já possam mesmo ter perdido a sua empresa ou o seu emprego.

Para esses, aqui ou no resto do país, a nossa mais profunda solidariedade.

A segunda palavra é para dizer que não se peça aos líderes empresariais que ponham na gaveta as ciências empresariais e a racionalidade.

Peçam tudo aos líderes empresariais menos milagres.

A terceira palavra é de firmeza.

Sabemos que a onda da crise, em 2009, será enorme e que, se Portugal à saída da crise estiver pior do que entrou, a segunda vaga, em 2010, poderá ser pior.

Perante tamanho desafio, eis uma bela oportunidade para uma elite empresarial mostrar o que vale.

Devemos enfrentar esta crise como líderes.

Os líderes empresariais são a tropa de elite da economia.

Não podemos, em nenhum momento, tirar do nosso pensamento e do nosso coração a expectativa e a confiança que milhares e milhares de trabalhadores e as suas famílias depositam em nós.

Perante esta onda que ninguém arrede pé.

Sejamos solidários, desde logo entre empresas.

Saibamos ser parceiros da crise uns dos outros.

Disponibilizemos conhecimento e informação uns aos outros. Saber o que vai acontecer e como dar a volta é o pão que os líderes empresariais precisam.

Por isso informar é amar, porque é dar ao outro o que ele mais precisa e sem a nossa ajuda não consegue obter.

Em 2004, no nosso congresso, uma pessoa aqui presente disse o seguinte:

“a ordem económica internacional tem que ter coração.”

Foram palavras do Senhor Presidente da República. Essas palavras são ainda mais actuais hoje do que eram em 2004.

A solidão do capitalismo exige a sua permanente confrontação à luz da ética e do coração.

Queridos Amigos,

Podemos viver de duas formas: preocupados com a posteridade ou preocupados com a eternidade.

Nós que, com maior ou menor nitidez, acreditamos que um dia teremos um encontro eterno, ajudemo-nos uns aos outros a preparar esse encontro.

António Pinto Leite, 17 de Abril de 2009