Opinião

Integrado no ciclo “excelência na gestão”

Quando me foi lançado este desafio, para perante tão dilecta assembleia, partilhar a minha experiência dos últimos anos no Banco Alimentar – ou antes nos Bancos Alimentares – Contra a Fome, vi-me obrigada a reflectir antes de mais no significado da palavra EXCELÊNCIA. O que é isto da EXCELÊNCIA, sobretudo para os empresários e gestores cristãos?

Coincidentemente há poucos dias tive oportunidade de participar num debate promovido pelo Senhor Cardeal Patriarca, por ocasião dos 40 anos da Encíclica Populorum progressio. Não resisto a partilhar convosco algumas reflexões da mesma que penso se cruzam com o tema da Excelência.

Tive, pois, ocasião de ler com atenção a Populorum progressio e fiquei espantada com o seu carácter revolucionário e com a sua actualidade. Apesar das grandes alterações registadas nos últimos anos a nível histórico, político e económico, que implicaram mudanças profundas na vida dos homens e das sociedades, o apelo à consciência, à mobilização colectiva para o Bem comum são tão actuais! Ela alerta de forma explícita para a «questão social», e reconhecendo-lhe embora uma dimensão mundial, não atenua a sua importância a nível nacional e local.

A luta pela justiça social deve ser conduzida a começar, desde logo, pelas mais pequenas células, as famílias, as empresas, as organizações e instituições de um determinado país ou região, para depois se estender ao mundo, de forma global. Tenho defendido a estruturação de uma rede de instituições, associações, organizações, que considero mais eficaz do que a intervenção uniforme e distante do Estado, pelo conhecimento de cada situção concreta, pela possibilidade de, com proximidade e calor humano, ajudar as pessoas pobres.

Criamos uma nova associação, mais estruturante, a Entrajuda, para tornar essas instituições excelentes numa lógica de gestão e organização, replicando modelos e procedimentos que já deram provas em empresas lideradas por gestores excelentes na sua gestão. Mobilizamos gestores e profissionais excelentes para darem um pouco do seu tempo por uma causa, para transformarem a sua profrissão numa boa acção, em espirito de serviço, com amor ao próximo, enquanto instrumentos do amor de Deus.

Os cristãos são moralmente responsáveis pela luta contra a pobreza devendo ter em consideração, nas suas decisões pessoais, empresariais ou até governamentais, a relação de universalidade, a interdependência que subsiste entre os seus comportamentos e a miséria e o subdesenvolvimento de tantos milhões de homens. A nossa vida quotidiana deveria, por isso, nos vários planos em que se desenvolve a nossa intervenção na sociedade, ser norteada pela vertente humana da questão social.

Penso que a Excelência na Gestão se reflete mais do que tudo na tomada em consideração de valores cristãos, sem cedências nem facilistismos, potenciando o desenvolvimento dos talentos de todos quantos cononsco colaboram, humanizando as relações e contrariando práticas e procedimentos menos éticos que, infelizmente, hoje em dia grassam e são aceites como naturais. Temos de passar da lógica do Mal menor para a lógica do Bem Maior. Seneca dizia “não te esqueças que és apenas um homem”: ora isso é fácil de esquecer num mundo dominado pelas máquinas e tecnologias, dando lugar ao endeusamento dos mais fortes ou talentosos e a uma desumanização nas relações pessoais.

Hoje mais do que nunca dada a dimensão mundial que a pobreza e a questão social assumiram, há que ter atenção pelas pessoas com fome, sem casa, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor. Os pobres, infelizmente, em vez de diminuírem, multiplicam-se, não só nos países em vias de desenvolvimento, mas, naquilo que pareceria menos provável, também nos países desenvolvidos.

Portugal é um dos países da Europa com maior taxa de pobreza. Cerca de 20% da população é pobre (2 milhões de pessoas); 200 mil pessoas têm apenas uma refeição completa por dia e 35 mil não têm nenhuma refeição completa por dia.

A luta contra o desperdício é um elemento motor na acção dos Bancos Alimentares Contra a Fome. Vivemos numa sociedade que desperdiça muitas das suas riquezas e dos seus valores já que a abundância dos seus bens, embora mal distribuídos, lhe faz esquecer a importância de cada um e a forma como deve ser optimizado para o bem comum.

A nível alimentar registam-se importantes perdas de produtos nos sectores da produção, da transformação, da distribuição, do consumo pessoal e colectivo sem qualquer perturbação das consciências, embora se trate de bens indispensáveis à vida de cada homem e uma parte da humanidade se encontrar deles privada.

A alimentação não é comparável a mais nenhum bem: está intimamente ligada à existência do ser humano, faz parte integrante dele, traz-lhe todos os dias os elementos de vida e, por isso mesmo, adquire um valor que nenhum outro bem de consumo pode ter. Merece o respeito e reveste até um aspecto “sagrado” em muitas civilizações. Ao desperdiçamos um bem alimentar em bom estado, fazendo ele falta a um ser humano, cometemos uma injustiça.

É portanto preciso incutir em cada cidadão o valor e o respeito pelos bens alimentares, a forma de lhes dar a utilização mais correcta tanto por si próprio, como pelas pessoas que deles se encontram privadas. Só dessa forma será possível desenvolver o espírito de partilha, promover o bem comum.

Acredito que uma das razões da manutenção da pobreza é esta incrível perda de valores que impera nas sociedades actuais. A sociedade deixou de ter como principal ambição permitir que cada cidadão desenvolva todas as suas capacidades e talentos, todas as suas riquezas interiores para as acrescentar ao capital colectivo com vista ao bem comum. As medidas sociais não terão qualquer resultado em matéria de erradicação da pobreza enquanto o Homem não for o valor de referência do progresso económico.

O Banco Alimentar luta contra a destruição de alimentos recolhendo produtos em perfeito estado de consumo para os distribuir através de instituições a pessoas que têm fome de pão e de afecto, para que possam reencontrar a dignidade muitas vezes perdida, a auto-estima que as impede de sair do ciclo de pobreza em que muitas vezes nasceram.

A sua missão só pode ser levada a cabo com o apoio de numerosos empresários e empresas que, preocupados com o bem comum, com a justiça social, incorporam a responsabilidade social nas suas decisões de gestão. Pessoas que desempenham as suas funções com verdadeiro sentido de excelência, aqui em sentido mais lacto, mais amplo, menos centrados apenas no seu umbigo.

Quando sabemos que existem pessoas ao nosso lado com carências alimentares gravíssimas, idosos que vivem apenas com o que lhes resta das reduzidas pensões de reforma depois de comprados todos os remédios de que necessitam, crianças que só comem o que lhes é dado nas creches ou ATL porque vivem em famílias desestruturadas, poderemos assistir impávidos?

A acção do Banco Alimentar assenta na gratuidade, na dádiva, na partilha, no voluntariado e no mecenato. Ser voluntário não é só ajudar uma pessoa menos favorecida: é querer estar envolvido como participante em acções concretas; é um modo de estar na vida, por via da qual a participação activa e responsável nas diversas estruturas da sociedade é um imperativo de cidadania; é exercício de civismo e de co-responsabilidade pelo bem comum.

Cada pessoa dá em função da sua vontade, da sua disponibilidade. Mas existe um efeito multiplicador, em termos de resultados, da acção da sociedade civil quando reunida e organizada. O Banco Alimentar é um bom exemplo de união das vontades de empresas, doadores financeiros, voluntários e instituições de solidariedade sociais que, de forma coordenada, geram resultados muito superiores aos que seriam obtidos se cada um desses agentes da solidariedade resolvesse agir isoladamente. O importante é o comprometimento e o reconhecimento de que cada um de nós pode fazer a diferença com a sua forma de estar na vida e com as suas opções.

Temos a ambição de chegar a todos os que necessitam da nossa acção. Queremos ser ainda mais eficazes na forma como desempenhamos o papel de intermediação entre aqueles locais onde abundam os bens alimentares e aqueles outros onde escasseia. E queremos sobretudo – naquilo que é o nosso objectivo mais nobre e exigente, mas também porventura o mais difícil de alcançar – quebrar o ciclo da pobreza, procurando que a ajuda que chega aos mais carenciados colmate não só uma lacuna temporária, mas no essencial permita aos beneficiários encontrar um ponto de partida para uma nova vida digna e autónoma, não dependente de qualquer lógica assistencial.

Temos procurado aumentar e estruturar a rede de Bancos Alimentares: existem já treze que contribuem para a alimentação de mais de 212 mil pessoas comprovadamente carenciadas e distribuiram, no ano passado, mais de 18 400 toneladas de alimentos, no valor de 24,3 milhões de euros a maioria dos quais condenados à destruição; por dia saiem por armazéns dos Bancos Alimentares 72 tonelas de produtos. O índice de despesas de funcionamento é de 3,3 %, valor este que tem vindo a descer ao longo dos anos e dá uma ideia da eficiência da gestão dos bens distribuídos.

E isto basicamente com recurso ao trabalho de voluntários excelentes, comprometidos e empenhados em levar a cabo um projecto com o qual se identificam. Uma campanha dos BA como a recentemente realizada envolve mais de 16 mil pessoas voluntárias que de forma organizada sabem o papel que lhes está cometido, vêem reconhecida a sua generosidade pelos resultados de conjunto obtidos. Apesar desta característica peculiar, que os distingue, os Bancos Alimentares estão organizados de uma forma “profissional”, com contas auditadas, controlo de custos rigorosíssimo, avaliação de desempenho e gestão de carreiras, mesmo dos voluntários, estratégias de comunicação e imagem bem definidas. Todos os armazéns têm Plano de Análise de Pontos Críticos, controlo sanitários dos produtos, Rastreabilidade.

O espanto que todo este rigor e disciplina causa nos profissionais deste sector que por alguma razão nos visitam chega a ser engraçado: Já nos têm perguntado porquê tanta preocupação numa instituição de caridade, não compreendendo que sem ela, os resultados não poderiam ser os mesmos. Foi gratificante por exemplo o contacto que recebemos da Fundação Niarchos que havia elaborado um estudo de mercado para apoiar um projecto na área da responsabilidade social na Península Ibérica e a instituição com maior notoriedade foi o Banco de Lisboa.

Preocupados com o egoismo ou quase autismo dos jovens, decidimos, além disso, desenvolver o projecto Educar para a Cidadania, ou seja, lançar sementes levando às escolas, àqueles que são os futuros empresários, decisores, governantes, valores universais como a Tolerância, a Verdade, o Respeito pelo outro, a Solidariedade, a Defesa do ambiente, a Promoção da Justiça, a Partilha, o Respeito pela Dignidade do Homem, os Direitos humanos, a Tolerância e a Participação e Intervenção cívica.

Acredito, também, que o importante não são as virtudes pessoais mas a graça que o Senhor põe em cada um de nós para realizar a Sua obra. O Amor de Deus flui, se o deixarmos, naturalmente. E o Amor não são palavras: é sobretudo a atenção que dispensamos aos outros, sobretudo aos mais frágeis e desprotegidos.

Para concluir, cito e muitos de vós certamente os conhecem, os sete pecados sociais enumerados por Gandhi:

Riqueza sem trabalho

Comércio sem moral

Ciência sem Humanidade

Política sem Princípios

Educação sem carácter

Prazer sem consciência

Religião sem sacrificio.

Estou agora ao vosso dispor para todas as perguntas que entenderem formular. Obrigada

Isabel Jonet

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