Opinião

E somos mais felizes?

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O que se percebe no dia a dia, é que são raros aqueles que mostram ou transmitem alguma felicidade, ou que oferecem alegria. O povo anda cinzento, angustiado, desconfiado e, como sempre, maldizente.  
 
A pergunta obrigatória é saber porquê? Metade da resposta é fácil: como ninguém, ou quase, acredita, ou gosta, ou confia, ou está feliz com o que o futuro lhe promete, dificilmente dá conta de uma qualquer felicidade.

Se o povo acreditasse que no futuro, próximo ou mais longínquo, iria ficar melhor ganhar mais, ser mais livre, partilhar uma sociedade mais justa, mais solidária, receber a velhice sem medo ou angústia, se acreditasse num mundo mais seguro, mais afável e acolhedor, então o povo andaria mais feliz porque o que aí vem é melhor do que aquilo que já passou.

Percebe-se, assim, que por mais que os publicitários do regime nos berrem, o povo não gosta do futuro que lhe têm preparado. E mais: esse futuro antipático já se começou a perceber agora, no presente, o que só inflaciona a angústia.

O barulho das luzes impede Sócrates de entender a evidência de que é de Portugal, e dos portugueses, de que aqui se fala, montou um Estado que nos castiga desde que saímos da cama até que nela nos deitamos. Inventou multas para tudo e um par de botas, debita leis e regulamentos para o cidadão que cobrem desde as bolas de Berlim e à fava do bolorei, aos atestados médicos para quem frequenta o ginásio.

A perseguição aos fumadores (e não é o meu caso) é doentia, e pouco falta para que controlem os almoços que as crianças levam para a escola (como se propõe em Inglaterra).

E se o Estado não perdoa um atraso de segundos no pagamento de impostos, ou de qualquer contribuição, esquece-se, ou adia, ou perdoa-se a si próprio no cumprimento das suas obrigações. Há consultas médicas com atraso de anos; a Justiça serve-se a uma geração de distância e há escolas onde é preferível não enviar as crianças.

E com este Estado que tudo pode, tudo controla, tudo esmaga à sua vontade o contribuinte, o cidadão normal, ou cumpre a preceito e à risca ou arranja sarilhos para a vida.

E o drama é que não se vislumbra o reverso da medalha; não se percebe a contrapartida do aumento dos encargos, diminui a liberdade, esmaga-se a iniciativa, mas a pobreza cresce proporcionalmente. E pior: lê-se o CV do primeiro-ministro, e salta à vista a confusão do percurso académico, não se entende como assina projectos que não são seus para Câmaras onde mandam os amigos do partido, promete referendos que não faz, anuncia reformas que não produz. Numa palavra diz-nos ” façam como eu digo, mas não façam como eu faço”.

Mas, mesmo esquecendo a falta de credibilidade de quem manda, até se poderia defender que este aperto do Estado, que evolui, cresce e afoga tudo e todos, sirva na Escandinávia, ou que os alemães gostem de viver assim. Gostam de cumprir ordens e é lá com eles.

Até pode ser. Mas nada disto casa connosco. Já que somos pobres, ao menos que nos fique a alegria, a inspiração e a matreirice inofensiva.

Sócrates não só não muda o que podia e devia, como mudou o que não devia.

Associado da ACEGE

 

Texto publicado originalmente no Jornal de Negócios no dia 15 de Fevereiro de 2008

Pedro Vassalo

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