Opinião

Conferência – Ética e realização pessoal

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As minhas primeiras palavras são naturalmente de louvor à ACEGE e aos organizadores deste 2º Congresso Nacional pela promoção desta iniciativa que nos proporciona um espaço de convívio e de reflexão sobre a importância da ética na nossa vida pessoal, nas nossas carreiras profissionais e na actividade empresarial do dia-a-dia. E permitam-me também que exprima o agradecimento pelo convite que me foi dirigido para intervir nesta sessão de trabalho e para Vos apresentar uma visão pessoal e penso que cristã de como a ética constitui um factor determinante da realização pessoal, somente como uma proposta de lançamento de um debate aberto em que poderemos partilhar opiniões e experiências próprias.

 

Dada a diversidade e multiplicidade de análises e comentários que o tema “Ética e realização pessoal” pode suscitar, considerei, por uma questão metodológica, delimitar esta reflexão à sua proximidade a um conjunto de temas específicos – à natureza ética da empresa, à liderança, à competitividade, à responsabilidade social, ao sucesso profissional e à família – consciente de que este tema tem múltiplas ramificações interessantes e distintas perspectivas de análise que seriam impossíveis de referir nesta mesma intervenção.

Circunscrever-me-ei, portanto, ao contexto da empresa e consequentemente do trabalho como grande influenciador da nossa realização pessoal e como dimensão fundamental que é da existência humana, pela sua contribuição quer para a subsistência do homem quer para o progresso da ciência e elevação cultural e moral da sociedade, e deste modo ser factor decisivo para tornar a própria existência humana mais humana. Qualquer reflexão de inspiração cristã sobre estes temas teria naturalmente de inspirar-se e extrair os ensinamentos da encíclica “Laborem exercens”, publicada pelo Papa João Paulo II em 1981, no 90º aniversário da “Rerum Novarum”.

A concepção do trabalho como um meio para nos tornarmos mais humanos e realizados é fundamental, pelo que não devemos considerar o trabalho como uma mera mercadoria ou força anónima necessária para a produção, ou então estaríamos a falar de instrumentos, máquinas e não de pessoas. O trabalho tem um imenso valor ético, que permanece directamente ligado ao facto de aquele que o realiza ser uma pessoa, e é esse o primeiro fundamento para determinar o seu valor (sem prejuízo naturalmente que o trabalho humano seja em segundo plano valorizado e qualificado de um ponto de vista material ou pecuniário). Porque a finalidade do trabalho é o próprio homem, e assim o seu valor deve pôr em evidência precisamente o padrão da dignidade da pessoa que o executa.

Uma conduta ética face ao trabalho, e em geral face à vida, que contemple estes valores humanistas, e em concreto cristãos, é decisiva para: 

(i) abordarmos com dignidade e respeito o nosso dia-a-dia, porque antes de sermos gestores, economistas, pintores, etc., somos humanos, e também

(ii) para a nossa sociedade enfrentar com sucesso os desafios que se lhe colocam, como sejam a globalização e progresso tecnológico acelerado sem se tornar vazia de valores, imersa em problemáticas (delinquência, depressão, etc.) e incapaz de proporcionar infra-estruturas físicas e sociais (empresas, transportes, tribunais, espaço urbano, escolas, ambiente, cultura) necessárias para uma realização pessoal equilibrada.

Neste campo têm surgido respostas positivas, algumas de âmbito global, com processos de aperfeiçoamento na governação das empresas e o maior enfoque na sustentabilidade empresarial e na responsabilidade social.

Conforme referi ao princípio, abordaria as seis reflexões centradas na relação da ética e realização pessoal com (1) o carácter ético das empresas, (2) a liderança, (3) a competitividade (4) a responsabilidade social, (5) a realização profissional e (6) a família.

(1) Com o carácter ético da empresa

Vale a pena reflectir um pouco sobre a relação entre a ética individual, a empresa e a realização pessoal. Reafirmo que o exercício individual da ética bem como o trabalho são factores indispensáveis para a afirmação da dignidade, construção e realização do Homem enquanto pessoa. A tese que merece seja defendida é que através das nossas acções subordinadas a princípios éticos, moldamos a nossa realização pessoal quer directamente, quer através da forma como influenciamos o carácter ético das empresas em que trabalhamos, das quais somos accionistas, clientes, fornecedores ou stakeholders através do exercício da nossa cidadania, porque no fundo o carácter ético de uma empresa acaba por ser o reflexo da ética e valores dos indivíduos e da sociedade em que se insere.

A ética da empresa é em primeira instância o somatório da ética de cada um de nós enquanto trabalhadores e representantes da empresa, no sentido em que são os colaboradores que compõem a empresa que são responsáveis pela sua honestidade, integridade, lealdade, justiça, responsabilidade, zelo e construção de uma cidadania empresarial. Estes valores são condição necessária, se bem que não suficiente, para que a empresa tenha capacidade de proporcionar um bom ambiente de trabalho e uma maior realização pessoal dos seus colaboradores.

Sabemos também que nem sempre este somatório é ou tem sido positivo ao longo do tempo, de empresa para empresa, ou departamento a departamento. Precisamente pela natureza individual da prática da ética, pelas disparidades de cultura e formação moral, mas também pela complexidade da interacção humana. No entanto, tem-se assistido no último século, e sobretudo na última década, a grandes progressos, em parte associados à crescente importância para a empresa dos diferentes stakeholders e do seu reconhecimento da importância de questões associadas à ética e realização pessoal e responsabilidade social. De facto, cada vez mais, as empresas estão a fazer o esforço de procurar a melhor conduta, o melhor modelo de governação segundo padrões de ética transparentes, justos, e também cada vez mais que se coadunem com a satisfação dos colaboradores, sua realização pessoal e familiar.

Exemplos concretos do reflexo desta importância são a implementação voluntária de códigos deontológicos internos por parte das empresas, a inclusão do ensino de ética empresarial nas escolas de gestão, a criação de fóruns de reflexão directamente relacionados com a ética empresarial, a introdução de códigos de governo das sociedades pelos reguladores.

Esta formalização dos princípios éticos a serem aplicados na empresa ou em sectores de actividade pode ser entendida como uma tentativa de harmonização de procedimentos, isto é, como um mínimo denominador comum para a boa conduta individual, por exemplo apoiando e inspirando os indivíduos mais empenhados em actuarem eticamente, ou mesmo também como uma tentativa de eliminação da distorção do funcionamento equilibrado do mercado devido a práticas menos éticas e por vezes mesmo ilícitas e responsabilização individual dos envolvidos.

(2) Da sua relação com a liderança

Sendo a ética individual um exercício de responsabilidade e liberdade, é difícil de controlar e de impor autoritariamente, pelo que é conveniente que os códigos de conduta sejam seguidos de uma forma fluida, como que voluntária e quase inconscientemente. No entanto penso que, ao mesmo tempo, a liderança tem um papel importante na promoção dos valores éticos, quer, e crucialmente, através do seu exemplo, quer do seu empenho activo em que as normas deontológicas se reflictam na prática, na promoção e defesa da complanes, sobretudo de modo a que práticas não éticas deixem de ser negligenciadas.

Uma defesa e promoção da ética por parte da liderança tende a aumentar a motivação dos colaboradores e a sua realização pessoal. A liderança pode também – através do seu papel vital na gestão da empresa ao estabelecer uma visão clara e uma orientação rigorosa para a empresa – promover uma estrutura e funcionamento da empresa eficaz e uma estratégia para a gestão das pessoas coerente, justa e transparente, concedendo consequentemente um maior sentido ao trabalho e uma maior motivação dos colaboradores, factores essenciais para a realização pessoal de todos.

O tema da liderança e gestão da empresa encaminha-nos também para a questão da influência dos proprietários ou accionistas na empresa, na medida em que a gestão é incumbida de prosseguir os objectivos dos accionistas, isto é de maximizar o retorno para o accionista. Neste âmbito têm acontecido alterações importantes. Penso que, com toda esta dinâmica em torno da ética, governo da sociedade e responsabilidade social se tenha conciliado, e não submetido de todo, a importância da rendibilidade a outros valores, uma vez que a rendibilidade é no fundo o determinante crucial da sustentabilidade da empresa. Creio assim que o âmbito do retorno exigido pelo accionista se alargou, e simultaneamente se intensificou a percepção pela liderança e colaboradores que uma empresa tem de nortear as suas actividades de uma forma responsável para com o seu enquadramento social, ambiental, etc. de modo a não prejudicar, mas fomentar, a sua sustentabilidade a longo prazo, o que no fundo, está correlacionado com a sustentabilidade da própria sociedade onde actua.

(3) Da sua relação com a competitividade                                       

Julgo que se pode afirmar que práticas individuais éticas generalizadas que criem uma envolvente mais favorável à satisfação dos seus colaboradores, cooperação interna, partilha das melhores práticas, motivação para a procura de excelência no trabalho, com reflexos naturais na qualidade dos produtos e serviços prestados aos clientes, repercutem-se em níveis superiores de competitividade e rendibilidade das empresas.

Com efeito, defendo a ética como factor competitivo do indivíduo e vantagem competitiva para a empresa. No que respeita ao indivíduo, os valores fundamentais da ética do Homem, como sejam o respeito, a confiança, a justiça, lealdade, diligência, honestidade e integridade fazem com que este seja mais reconhecido e valorizado pelos seus colegas, clientes, fornecedores e empregadores, devendo ser justamente recompensados. As empresas beneficiam igualmente da aplicação conjunta destes valores, por exemplo por ser mais atractiva do ponto de vista dos investidores, consumidores ou parceiros de negócio ao terem práticas de comunicação transparentes, por ter um registo de confiança, etc., que se podem traduzir em prémios de risco menores, numa preferência pelos nossos produtos, etc.

Isto para dizer, que além de ser correcto, uma empresa com práticas éticas tem condições para ser mais rentável; ou seja, é vantajoso em primeiro lugar no plano moral, mas também o é no plano económico. De facto, os valores associados à ética têm sido mesmo um grande catalisador do progresso económico humano, por exemplo através dos menores custos de transacção. A seriedade e a responsabilidade que traduzem-se em confiança. A percepção mais generalizada desta vantagem tem conduzido as empresas ao longo do tempo a melhorarem as suas práticas.

Ainda assim é de sublinhar a importância da regulação, em primeira instância dos reguladores oficiais (sistema judicial, CMVM, Banco de Portugal e outros reguladores sectoriais) no estabelecimento e fiscalização de que regras mínimas de actuação são cumpridas e que a corrupção de valores éticos, que normalmente são traduzidos em leis (ex.: emprego de mão de obra infantil), não conduza a uma vantagem da empresa infractora, mesmo que temporária, uma vez que cada vez mais a influência dos clientes, fornecedores, investidores e sociedade em geral (segunda instância) através das suas acções acabem por conduzir a que a empresa infractora seja a termo penalizada.

(4) Da sua relação com a responsabilidade social

A responsabilidade social da empresa advém do papel tão relevante e activo que as empresas têm na sociedade e pela sua natureza de conjunto de pessoas e correspondente carácter ético, pela cada vez maior exigência dos accionistas, clientes, e outros stakeholders no que toca à responsabilidade social, e impacto dessa responsabilidade na própria sustentabilidade da empresa (por exemplo, através do impacto na vida e saúde dos seus colaboradores, no desenvolvimento de sociedades equilibradas e prósperas e sustentabilidade da qualidade ambiental). É, em parte, uma questão de ética, é também um passo para a realização dos colaboradores da própria empresa, suas famílias e sociedade em geral.

(5) Da sua relação com o sucesso profissional

Em termos individuais a ética tem também naturalmente um papel preponderante para o sucesso profissional e a realização pessoal de cada um. A procura da excelência com critérios de humanidade através da dedicação, empenho, colaboração, credibilidade, respeito e capacidade de influenciar, têm reflexo na prestação de cada um, no relacionamento com os colegas, hierarquias, clientes, fornecedores e investidores. Neste domínio também a empresa e liderança têm um papel importante, através do reconhecimento e justa compensação da dedicação e feitos profissionais, e ainda no apoio à formação, à mobilidade funcional motivando a adaptabilidade mas também possibilitando adequar capacidades e gostos a funções, e concedendo perspectivas de carreira justas, de modo que a recompensa pela procura íntegra da excelência e desenvolvimento profissional e pessoal seja efectiva e, assim, desejada.

Penso também ser importante reconhecer que o empenho profissional não deve ser esgotante, despersonalizante nem isolante, e devemos como indivíduos e como gestores tentar conciliar e permitir a conciliação com outras vertentes da vida, nomeadamente a familiar, social, cultural. Porque um equilíbrio saudável também acarreta maior motivação e inspiração profissional. Julgo que melhorar esta conjugação, organizando e adaptando o processo de trabalho de modo a que sejam respeitadas as exigências da pessoa sem perder competitividade é um desafio para as empresas portuguesas, em particular no que toca à questão familiar.

(6) E, finalmente, da sua relação com a família

O equilíbrio e realização pessoal passa indubitavelmente pela família, que em última instância influencia a prestação profissional. A família é ao mesmo tempo tornada possível pelo trabalho, mas tem sido indiscutivelmente bastante sacrificada nas últimas décadas. É patente que não conseguimos ainda ajustar as exigências da vida familiar com as nossas exigências profissionais. As exigências profissionais, por exemplo, em termos de horários de trabalho não estão definidas para pessoas que têm de aplicar uma parte do seu tempo diário em tarefas familiares, por exemplo no cuidar e educar dos filhos ou no prestar a necessária assistência a familiares idosos ou dependentes. O resultado tem sido mais patente no sacrifício da estabilidade familiar e da educação dos nossos filhos, e menos, muito menos, no sacrifício da carreira profissional, com efeitos quer em termos familiares (desmembramento das famílias, pais e mães ausentes), em termos sociais (generalização da delinquência juvenil) e em termos económicos (problema da sustentabilidade dos sistemas de pensões tradicionais – há reformados muito pobres – em face da forte redução da taxa de natalidade).

Por uma questão ética, por uma questão de racionalidade económica da empresa, por uma questão de sustentabilidade da sociedade em que se insere é importante que as empresas concedam mais atenção à família: a novas formas de trabalho, como sejam a flexibilidade dos horários de trabalho associados a uma maior autonomia e responsabilidade ou o trabalho a tempo parcial, ou outras formas conciliadores que possam ser adaptadas de exemplos de empresas de outros países europeus, mas sobretudo a uma prática de igualdade de oportunidades para quem tem família e escolhe equilibrá-la com o trabalho, ou mesmo promovendo este equilíbrio. Muitas das empresas mais competitivas do mundo permitem, não discriminam e incentivam mesmo a adequação do trabalho a mães e pais sem prejuízo das suas carreiras profissionais.

Sem prejuízo do papel decisivo das empresas e de todo o percurso que têm pela frente neste domínio, cabe também ao Estado assegurar que o apoio à família não se reflicta numa desvantagem competitiva e de criar infra-estruturas capazes de apoiar as famílias (creches, transportes públicos, custo da educação, etc.).

Finalmente,

Em suma, e constatando que ética e realização pessoal nas empresas portuguesas é em parte um reflexo da nossa sociedade, tendo ainda algumas lacunas e acarretando ainda muita infelicidade e correspondentes custos humanos e económicos, gostava de sublinhar que é notório o esforço feito por muitos gestores, accionistas, colaboradores, reguladores e sociedade em geral no sentido de melhorar os padrões éticos de actuação das empresas e realização pessoal dos colaboradores e outros stakeholders.

É um processo de construção, é um processo de melhoria permanente, para o qual o contributo de cada um de nós é importante, na minha opinião, mesmo decisivo. É no fundo de novo uma questão de ética e de responsabilidade. Existem ainda muitos aspectos a melhorar mas existem também muitos exemplos de empresas, das mais competitivas e responsáveis, e de sociedades, das mais desenvolvidas social e economicamente que nos podem inspirar.

Jorge Jardim Gonçalves

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