Opinião

Ciclo de Debates Acege

ACEGE - Núcleo do Porto David Zamith
A ACEGE no Núcleo do Porto realizou mais um dos seus almoços/debate, na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, com mais uma brilhantíssima intervenção do seu convidado, na pessoa do Professor Doutor Raul Diniz, Presidente da Direcção da renomada AESE – Escola de Direcção e Negócios e Professor de Comportamento Humano na Organização e Ética e Doutrina Social da Igreja.

Uma verdadeira “Aula em Família” que deliciou todos pela sua sabedoria transmitida com a naturalidade, afabilidade e competência de quem sabe bem os terrenos que pisa, terrenos da maior acuidade como são os da Ética, dos Valores Morais, ou da falta deles, e que tão bem forem por ele alavancados num raciocínio das nossas “Crises actuais” que seguramente são de interesse partilhar com os leitores da VER para uma reflexão.

Sobre o convite da ACEGE começou por afimar que “Não posso apreciar mais o seu trabalho, nem estar em maior sintonia com ele… Ou a Doutrina Social da Igreja entra nas empresas pelos seus dirigentes ou não entrará nunca. «… O cristianismo deverá continuamente reelaborar e reformular os ordenamentos sociais»… «As formas jurídicas e sociais concretas, os ordenamentos políticos deixam de ser fixados literalmente como direito sagrado para todos os tempos e, consequentemente, para todos os povos.” Decisiva é a fundamental comunhão de vontade com Deus, que é oferecida por Jesus. Agora, a partir dela, os homens e os povos são livres de reconhecer aquilo que, num ordenamento político e social (podia-se acrescentar e económico), corresponde a esta comunhão de vontade, para eles mesmos darem depois forma aos ordenamentos jurídicos.» Bento XVI, Jesus de Nazaré]

Crise – Nas crises, ouvia eu a um empresário sábio, «há pessoas que choram e há pessoas que ganham dinheiro vendendo lenços».

Poucos se recordarão agora do optimismo com o qual, há escassos anos, se falava da «nova economia». Parecia ter-se superado a lei histórica de que todo o crescimento tem crise e havia uma confiança infundamentada num crescimento económico contínuo e progressivo.

A isso empurrava a urgência de ganhos cada vez maiores e cada vez mais rápidos. «A gente ganha dinheiro, mas o dinheiro não faz gente». Sólon, um dos sete sábios da Grécia, VII-VI a.C., dizia que a avareza e a arrogância costumam estar na raiz de todos os males. (São dois defeitos que podem dar-se no empresário… e não só).

A realidade mostra-se mais crua que nunca. «Hoje só podemos ser pessimistas em relação ao próprio pessimismo». F. D. Roosevelt

Sem dúvida, a crise actual deve-se aos defeitos nos sistemas de regulação e também às más práticas éticas.

A precarização da função dirigente é o sintoma de uma crise de legitimidade no vértice das empresas (17,8% de turnover, em 2008, na Europa). Ora esta fragilizada legitimidade condiciona a estabilidade e o sucesso das empresas. Há, na verdade, uma crise de dirigentes, não só políticos, mas em todos os âmbitos, a começar pelo mundo financeiro e empresarial. Alguns trataram mais dos seus interesses pessoais do que dos corporativos ou societários. Ganhos desmedidos, prémios excessivos pelos objectivos alcançados, luxos gritantes…

Ainda há três dias, o primeiro domingo da Quaresma nos recordava as tentações de Cristo. O demónio ataca paixões humanas arraigadas: de ter, de poder, de glória… Nós vivemos numa atmosfera saturada de avareza, de ateísmo/indiferentismo, de corrupção moral.

Há uma crise do sistema originada por uma crise de valores morais da classe dirigente, cortejada pela classe política, cujos partidos alimenta, e pelos meios de comunicação. Todos, à sua escala, participavam na festa. As elites falharam, embora sejam necessárias para garantir a coesão social e para liderar a recuperação. Precisamos de mudar de modelo? (Aqui entram os paradigmas…) Ou voltar aos cânones da exemplaridade? A qualidade moral das classes dirigentes é que as pode tornar confiáveis. O grande problema é a confiança, não tanto na própria economia, como na classe dirigente de qualquer tipo (algumas com torpes prioridades vitais).

Há um novo slôgane: «em 1989 acabou o socialismo real e, vinte anos depois, o capitalismo real». Nem o socialismo morreu de todo, ainda que teoricamente, no plano económico, pertença ao passado, nem o capitalismo vai morrer este ano, porque tem mais capacidade de regeneração – a liberdade é criativa – e tem sete vidas.

Richard Sennett, em The culture of the new capitalism, chama a atenção para que o capitalismo da última década teve mudanças decisivas: a transferência do poder da direcção para os accionistas que, em grande parte, são fundos de investimento; e, como consequência, o predomínio de um «capitalismo impaciente», centrado em resultados a curto prazo, onde a medida é o preço das acções, mais do que os dividendos. Trouxe, também, a redução dos níveis hierárquicos, devido às novas tecnologias de comunicação e fabricação, com menor mediação. O clima laboral não melhorou, apesar da queda das burocracias e da flexibilidade: desigualdade de salários, distância social, a lealdade mútua entre empresa e trabalhador, o prestígio moral do trabalho.

É sempre altura de repensar os fundamentos culturais, políticos e económicos que estão na base tanto do socialismo como do capitalismo. A Doutrina Social da Igreja não se inclinou por nenhum deles.

As pessoas sentiram-se enganadas em relação à sua liberdade no mundo socialista e, além disso, viveram na miséria. As pessoas sentem-se enganadas na sua situação social, isto é, na sua «igualdade», no mundo capitalista.

Qualquer crise é paga pelo emprego e pelas pessoas correntes.

A que se devem esta instabilidade e a ameaça de maiores crises?

De facto, é imprevisível a flutuação dramática em que se está, enraizada numa natureza humana onde há medo, cobiça, atrasos na tomada de decisões. Às vezes sabemos o que devemos fazer mas é penoso, até que se torna necessário e, então, já é tarde, porque dar passos dolorosos é doloroso.

Toda a gente falava da descolagem da economia financeira em relação à economia real, do endividamento das famílias, da perda do sentido de aforro…, mas ninguém fazia nada.

O mundo que criámos, acentuou o individualismo e minimizou a solidariedade. A força do mercado sufocou a força social. Para ajudar ao terramoto, o sistema regulador não tem a modernidade do mercado.

Esta ausência de regras, esta desregulação, que foi tão elogiada, revelou-se culpável e permitiu erros técnicos, negligências e imprudências. Descuidou-se o controlo do risco e a procura de lucros foi destemperada.

Esta crise precisa de uma resposta técnica, mas não basta. Precisamos de homens de cultura e líderes espirituais que lhe dêem uma resposta ética.

As reformas fazem-se com as crises (seria a sua grande utilidade), mas depois esquecem-se as crises e as reformas a que deram lugar. O meu receio é que apenas se deseje ultrapassar a crise para regressar ao statuo quo ante e penso que seria um erro palmar pensar assim. Ainda sinto muita cobiça e um receio insuficiente. (Embora o medo tenha o perigo de ser inibidor.) Parece-me que pensam melhor os que aspiram a uma organização financeira global. Numa economia globalizada não é possível outra coisa. Não nos podemos isolar nos problemas domésticos. A cooperação internacional é absolutamente necessária: ou há uma integração global ou assistiremos a desintegrações locais, oriundas de nacionalismos nunca extintos e fáceis de alimentar.

Somos pouco institucionais e temos instituições fracas: procuram servir-se, mas não servir.

Precisamos de pessoas que trabalhem a favor do bem comum – a empresa tem o seu próprio bem comum – com o interesse que trabalham pelo bem próprio. Ter-se-iam tornado genuinamente sociais. «Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição» já dizia Gandhi.

Como sempre, os economistas explicam muito bem o problema a posteriori, mas prever é muito difícil, especialmente o futuro. Se mal conseguem prever o passado, quanto mais o futuro! (No entanto, quem não se lembrar do passado está condenado a repeti-lo.) Não se trata de perguntar «como será o futuro» (ninguém sabe), mas de afirmar «como queremos que seja o futuro».

[O funcionamento das organizações pode agrupar-se em três grandes paradigmas: o mecanicista (a organização como sistema técnico); o psicossociológico (a organização como organismo social); e o paradigma antropológico ou humanista (a organização como instituição)…………]

Temos de encontrar o para quê de tudo o que se faz e o porquê de tudo aquilo em que se acredita.

A competência técnica permite a solvência profissional, mas não assegura, por si só, o bom critério para encaminhar a vida.

Recordo um conhecido cuja profissão era executor de hipotecas (coisa que o subprime pôs na ribalta). Comentei-lhe que seria bem desagradável. «Por sorte não lhes vejo a cara», respondeu-me. Serve para nos perguntarmos se queremos uma economia, uma gestão, sem rosto humano…

«É bom saber que as organizações estão a fazer o que é certo, e não o que é fácil».

É preciso repartir o poder e fomentar a liberdade responsável. Não ver competidores nos outros, mas alegrar-se com a sua capacidade de realização, para que exerçam a sua actividade sem receios.

Não basta aprender a produzir, a render, a ganhar. O que importa de verdade é viver rectamente. O carácter e a competência acabam por ser um imperativo social.

É preciso optimizar, não maximizar. Optimizar é plenificar, é excelência (areté), é qualitativo. Maximizar é quantitativo e, se se consegue à custa do qualitativo, a organização fica em risco («adaptações oportunísticas» de H. Simon).

Uma empresa é uma ética e um balanço, sem que tenha de existir inevitavelmente um conflito entre a praxis ética e o cuidado dos resultados, embora a actuação ética costume ser cara.

A neutralidade axiológica das ciências que estudam o funcionamento da sociedade e das organizações evidencia que têm de estar subordinadas à avaliação ética, uma disciplina transversal da qual não podem prescindir. É o homem quem propõe as alternativas e decide e não a ciência; a ética é que tem a última palavra na aplicação prática do saber, porque só ela faz referência ao bem humano. Time for virtue.

Finalmente de referir que o Presidente do núcleo do Porto da ACEGE, Engº Rui Barbosa, confirmou as datas de 18 a 26 de Setembro próximo para a Peregrinação à Terra Santa, organização apoiada desde o primeiro momento pelo nosso Bispo do Porto, Senhor D. Manuel Clemente.

Como informação final o facto de para o Congresso Nacional da ACEGE, a realizar em Lisboa nos próximos dias 17 e 18 de Abril, estar confirmada a presença do Presidente da Républica Aníbal Cavaco Silva.

Porto / Março-DZ