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As novas jogadas do xadrez geoeconómico

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De acordo com um relatório recentemente publicado pelo Fórum Económico Mundial, a principal batalha global a que estamos a assistir é económica e não militar. As sanções fazem as vezes dos ataques militares, os regimes de comércio concorrenciais estão a substituir as alianças militares, as guerras cambiais são mais comuns do que a ocupação de territórios e a manipulação do preço de determinados recursos, em particular do petróleo, gera mais consequências do que as corridas ao armamento
POR HELENA OLIVEIRA

Antes da crise financeira global, a geopolítica jogava-se, na sua maioria, a nível local. Mas, na actualidade, os mais desafiantes conflitos estão a ser travados entre as maiores potências mundiais e parece que não há canto do mundo que se escape. A Ucrânia está no epicentro de uma crise que afecta a ordem europeia, com a Federação Russa e o Ocidente a utilizarem os mercados financeiros, a energia e o controlo da Internet como arma de arremesso para ganharem as suas próprias causas. Na Ásia, a competição entre uma China em ascensão e os seus vizinhos está a dar origem a disputas navais, em conjunto com o uso de sanções e restrições no acesso aos recursos naturais. No Médio Oriente, a escalada de violência da autoproclamada Entidade Islâmica (EI) está a transformar-se num conflito sectarista cada vez mais alargado liderado pelo Irão e pela Arábia Saudita. Em qualquer que seja a região do mundo, salvo raríssimas excepções, novos poderes e populações cada vez mais descontentes começam a ser norma e, como acrescenta Mark Leonard, presidente do Global Agenda Council on Geo-economics do Fórum Económico Mundial e que assina a introdução de um relatório recente intitulado Geo-economics: Seven Challenges to Globalization, estamos ainda perante “uma América crescentemente introvertida que está a recalibrar o seu papel de uma forma ‘desorganizada’ que só contribui para colocar os seus aliados em processo de adivinhação”.

Apesar de a “paz e amor” que há tanto desejamos para o planeta parecer estar a sofrer retrocessos significativos em várias partes do mundo, com conflitos reais que utilizam armas reais e que provocam muitas mortes reais, de acordo com o relatório em causa, as estratégias e as tácticas para ganhar esta guerra parecem ser muito mais económicas que militares. E é sobre as implicações que este xadrez geoeconómico tem nas nações, nas empresas e nas instituições internacionais, que o VER resume, de seguida, os principais desafios nele contidos e as principais lições que o grupo de 20 especialistas, responsável pela sua elaboração – e que conta com membros do Global Agenda Council on Geo-economics -, oferecem como alerta para esta era da geoeconomia. [V. Caixa com os sete desafios geoeconómicos identificados]

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Geoeconomia: a antítese e o maior triunfo da globalização económica

De acordo com Mark Leonard, o qual é igualmente co-fundador e director do European Council on Foreign Relations, o primeiro think tank pan-europeu, a principal batalha global a que estamos a assistir é económica e não militar: as sanções substituem os ataques militares; as alianças militares dão lugar aos regimes de comércio concorrenciais; as guerras cambiais são mais comuns do que a ocupação de territórios e a manipulação do preço de determinados recursos, em particular do petróleo, gera mais consequências do que as corridas ao armamento. Para Mark Leonard, o mundo está a testemunhar aquilo que Edward Luttwak, o reconhecido estratega militar americano, cientista político e historiador definiu como “a gramática do comércio em vez da lógica da guerra”.

Leonard define a emergência da geoeconomia simultaneamente como a antítese e o maior triunfo da globalização económica. Depois de duas décadas a trabalhar em conjunto, muitas nações estão a concentrar-se nos desafios desta interdependência, bem como nos seus benefícios. A América anseia por uma independência energética, a China pretende estimular o consumo doméstico, a Alemanha quer proteger-se a si mesma das decisões económicas dos seus países vizinhos e a Rússia está a tentar abrigar-se dos mercados ocidentais e do sistema financeiro dominado pelos Estados Unidos.

Mark Leonard explica que as pretensões deste relatório em particular servem como uma tentativa de mapear os principais desafios geoeconómicos para as empresas, governos e grupos de activistas. O relatório sublinha as tendências que estão a reformular o mundo tal como o conhecemos, as quais estão a alterar as regras de concorrência entre os países e até as arenas onde têm lugar as principais fricções entre os mesmos. E mostra um mundo em que a perseguição do poder é tão importante quanto a perseguição do lucro, com a crescente presença estatal nas economias, em que a guerrilha económica está a minar a integração económica, onde os regimes multilaterais se estão a tornar mais regionais do que globais e onde os preços do petróleo estão mais baixos e voláteis, com a mais feroz concorrência a ter em vista os mercados e não propriamente os recursos.

Identificar os vencedores e perdedores neste novo (?) mundo é o objectivo do relatório, o qual, em termos gerais, identifica os vitoriosos como os Estados que têm capacidade para moldar o seu próprio futuro – China, Estados Unidos e União Europeia – e chama particular atenção para os grandes fracassados, de que são exemplo as instituições e empresas internacionais que não podem confiar no apoio das grandes economias ou não têm a autonomia necessária para salvaguardarem os seus interesses.

Como alerta o director do European Council on Foreign Relations, neste “admirável mundo geoeconómico novo”, as instituições que se foram desenvolvendo tendo em vista uma era caracterizada por uma cooperaçãowin-win encontram-se, de forma crescente, numa assustadora desordem.

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Como evitar o desmembramento geopolítico e geoeconómico?

Na ausência de uma liderança global, a erosão das normas e padrões globais e a subsequente mudança a caminho de uma dinâmica de poder multipolar e regionalizada, tornam-se crescentemente reais. Adicionalmente, a força destas novas dinâmicas coloca uma pressão esmagadora nos líderes do globo, desafiando a sua eficácia e legitimidade.

Também de forma crescente, as instituições multilaterais são vistas como instrumentos de projecção de poder e o interesse em abordar problemas partilhados, de que são exemplo o Ébola ou as alterações climáticas, é cada vez mais diminuto. Ou seja, os grandes poderes apenas trabalham em conjunto nos casos em que os seus interesses estejam devidamente alinhados. Esta realidade é exacerbada por um “olhar para dentro” generalizado, do qual deriva também a ascensão do populismo e dos nacionalismos.

Assim, o que podem fazer as nações mundiais para evitar este desmembramento geopolítico e geoeconómico?

Os responsáveis pelo relatório identificam cinco grandes temas nos quais os membros do Global Agenda Council on Geoeconomics do Fórum Económico Mundial irão trabalhar nos próximos dois anos.

  1. Os Estados têm de desenvolver o seu “código da estrada” para a guerra económica

Quando os governos utilizam a infra-estrutura da economia global para perseguir os seus objectivos políticos estão, em simultâneo, a desafiar a universalidade do sistema e a aumentar as probabilidades de os restantes poderes se virarem contra eles, através de ataques de retaliação. E, da mesma forma que esses mesmos Estados desenvolveram um conjunto de acordos e convenções que governam a conduta das guerras convencionais entre os países, princípios similares deverão ser igualmente aplicados à arena económica.

Todavia, parece óbvio que este tipo de coordenação será ilusório, na medida em que todas as tendências no sentido da regionalização – e que estão a tornar a guerra económica cada vez mais atractiva – estão cada vez mais generalizadas. A América continuará a ser quem mais tem a perder, com os demais poderes a enfraquecerem o sistema económico global existente. Assim, deverá ser Washington a tomar a iniciativa relativamente à explicação destes princípios, encorajando uma resposta pública por parte dos demais. Apesar de ser muito difícil atingir-se um consenso global, só se os grandes poderes expuserem as suas abordagens, será possível evitar confrontos de natureza mais preocupante.

  1. Os Estados deverão encontrar o papel económico adequado e perseguir novas formas de compromisso

Para os responsáveis deste relatório, é necessário que as nações encontrem um equilíbrio entre o “laissez faire” e a “intervenção” na perseguição dos seus objectivos estratégicos. Depois da crise financeira, parece claro que os Estados se envolvam, de forma mais activa, no estabelecimento de um enquadramento para as actividades económicas. Por exemplo, os países ocidentais poderão aprender com o modelo chinês “infra-estruturas primeiro” e adaptá-lo aos seus pontos fortes. Por seu turno, a China e outros grandes mercados emergentes estão a oferecer uma fonte alternativa de capital e empréstimos, o que faz com que os países em desenvolvimento estejam menos dispostos a adoptar as reformas políticas e económicas rígidas provenientes do Fundo Monetário Internacional, o programa de assistência liderado pelo Ocidente.

  1. Prestar particular atenção à “sobrevivência dos mais fortes” e à centralização dos mais fracos

Quando um país de pequenas dimensões se mantém demasiado dependente de um centro de poder regional, a sua capacidade para estabelecer e manter as opções para si mesmo – tanto económica como estrategicamente – torna-se limitada. Para evitar a marginalização por parte das hegemonias regionais, os países mais pequenos precisarão de esforços adicionais para defender os seus recursos e desafiar os poderes locais dominantes em paralelo. Uma ameaça comum por parte de uma vizinhança hegemónica consiste num estímulo poderoso. Os poderes mais abrangentes, por seu turno, deverão reconhecer as oportunidades oferecidas por pequenos países em outras regiões, na medida em que estes pretendem estreitar as suas ligações com poderes estabelecidos no exterior, os quais lhes podem conferir algum espaço para respirar.

Esta estratégia está a ser executada, em certa medida, na região da Ásia-Pacífico, com alguns vizinhos da China a protegerem-se da rápida ascensão de Beijing através do aprofundamento das suas relações de segurança com Washington. Este modelo poderá tornar-se replicável em outras partes do mundo e abrir caminho para alinhamentos e alianças não convencionais.

  1. As empresas poderão ficar de olhos no prémio global mas jogarem de acordo com as regras estabelecidas internamente

Se a ideia é mitigar os riscos colocados pela concorrência geoeconómica e pelas suas variáveis, as empresas deverão seguir uma globalização aberta, defendendo a liberalização do comércio e o investimento estrangeiro, o que aprofunda as ligações internacionais e diminui o proteccionismo e os incentivos para a geração de conflitos. Mas mesmo as multinacionais que lutam por um mercado mais globalizado precisam de circular num terreno menos acidentado. As empresas precisam de ter em mente de onde vieram e como pretendem ser vistas como “locais” em mercados diferentes. A ascensão do capitalismo estatal irá perturbar, ou até fechar, muitos sectores que são encarados como estratégicos por parte de muitos governos mas, por outro lado, novas áreas de oportunidade poderão surgir. Por exemplo, a China autoritária pode ser muito sensível ao investimento estrangeiro no sector das telecomunicações mas, para combater a poluição crescente, deverá dar as boas-vindas ao mesmo no que respeita a energias alternativas e renováveis.

  1. O enfoque em players regionais de excelência e em políticas subglobais é mais necessário do que as instituições mundiais

A sociedade civil precisa de ser mais pragmática sobre as entidades que escolhe para procurar soluções globais. Em vez de confiar nas instituições de Bretton Woods convencionais, seria porventura mais valioso virar-se para camadas de integração regionais e sub-regionais. Com o esmorecimento da liderança global e em conjunto com os novos poderes emergentes, o G7 já não representa um fórum viável para acções globais. Esse tipo de campanhas deverão ser “feitas à medida” para apelar aos interesses estratégicos dos Estados mais fortes na região a que pertence determinada iniciativa. Todos têm interesse em combater um mundo que se está a tornar num local crescentemente perigoso, contestado e ingovernável, através do desenvolvimento de formas de acção colectiva que sejam mais criativas, políticas e regionais, para que seja possível combater o espírito de atomização que, de forma crescente, está a definir o mundo.


Os 7 desafios geoeconómicos que podem abalar a globalização

  1. Guerra económica: os Estados poderosos estão a tentar projectar o poder através da influência que têm na economia global e através do controlo das empresas multinacionais;
  2. Geo-politização dos debates sobre o comércio: os grandes debates regionais actuais poderão acelerar a multipolarização do mundo, o que resultará numa concorrência mais feroz entre blocos regionais e que ultrapassará as fronteiras do comércio;
  3. Capitalismo estatal 2.0: a reemergência do capitalismo estatal depois da crise financeira está a “sobrealimentar” a concorrência entre Estados com base no seu poder e influência;
  4. Competição por mercados fechados e não por recursos naturais: a concorrência entre estados na era geoeconómica será marcada por uma procura de mercados, e não de recursos naturais, o que terá um impacto negativo para os produtores destes recursos;
  5. A sobrevivência dos mais fortes: à medida que a liderança global vai abrindo as suas brechas, as hegemonias regionais ganham poder acrescido e, em contrapartida, estão melhor equipadas para “encurralar” os países no interior das suas periferias;
  6. As alianças com base em infra-estruturas “made in China”: a China tem vindo a aumentar, de forma significativamente, o seu investimento estrangeiro e os empréstimos a países nos quais procura melhorar o seu acesso às commodities;
  7. O declínio no preço do petróleo: depois de três anos com uma estabilidade pouco habitual, que rondava os 100 dólares por barril, os preços do ouro negro têm vindo a diminuir acentuadamente desde o segundo semestre de 2014 – de 115 dólares o barril em Junho para cerca de 60 dólares em Dezembro.