Opinião

As lições do papa Francisco aos líderes empresariais

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Em tom de boas novas para 2017, recordam-se as palavras que o Papa lançou a líderes empresariais, numa audiência privada ocorrida no Vaticano. À sombra da temática “Líderes Empresariais promotores de inclusão económica e social”, Francisco falou dos riscos que se lhes colocam, no actual contexto de imprevisibilidade mundial
POR JOÃO QUINTELA CAVALEIRO

Em tom de boas novas para 2017, recordam-se as palavras que o Papa Francisco lançou a líderes empresariais, numa audiência privada ocorrida no Vaticano em crepúsculos de 2016. À sombra da temática “Líderes Empresariais promotores de inclusão económica e social, falou-nos dos riscos que se lhes colocam.

No Encontro Mundial da UNIAPAC, Portugal marcou presença numa comitiva com alguns dos mais assinaláveis líderes empresariais nacionais, de sectores tão relevantes como as infra-estruturas, os serviços, a mobilidade, a indústria química, a saúde, a educação, o desenvolvimento organizacional, a estratégia, o sector legal ou o meio universitário.

A expectativa era grande. Nada melhor que falar do dia-a-dia dos empresários, apresentando os três grandes riscos que se lhes colocam: 1) o risco de usar bem o dinheiro, 2) o risco da honestidade e o 3) o risco da fraternidade.

1) Começa por nos transmitir que um dos temas mais difíceis de percepção moral, sobretudo para quem vive diariamente com o lucro, é o do uso do dinheiro. Há quase cem anos, Pio XI, numa fase de pós I guerra e de convalescença mundial, previu que se avizinhava um “imperialismo internacional do dinheiro”. Francisco, numa posição marcante, assertiva, proclamou que o dinheiro deve servir em vez de governar, socorrendo-se das parábolas do tesouro escondido ou do administrador injusto, para deixar o ensinamento que as riquezas são boas quando colocadas ao serviço de outros. Não são neutras e adquirem verdadeiro valor em função das circunstâncias em que são usadas. As empresas, em bom rigor, não devem existir para ganhar dinheiro, ainda que este sirva para medir o seu funcionamento.

O dinheiro deve servir em vez de governar

As empresas existem para servir. Usando uma terminologia contemporânea, esta é porventura a frase mais impactante, mais disruptiva do discurso do Papa Francisco. Para alguém com formação jurídica, que aprende pelas normas positivas que as empresas, entenda-se sociedades comerciais, têm a finalidade de obter lucro, abala fundamentos. Ainda assim, é importante discernir, aprofundar a mensagem, pois não será o lucro que está em crítica – porque é necessário ao cumprimento das diferentes missões das organizações – mas o que se faz com ele. Com coragem para dizer que deve existir força por parte das empresas para renunciarem a ganâncias, serem acessíveis às famílias, contribuírem para a integração dos mais desfavorecidos. O mercado teima em tornar o crédito fácil apenas para os que podem e cada vez mais caro para os que não podem, deixando os mais frágeis à mercê da usura. Vale a pena pensar nisto.

2) Sobre o segundo risco, o da honestidade, mais uma vez o Papa Francisco impele-nos a pensar. Lançou abertamente o tema da corrupção. Uma pequena confrontação a todos os presentes serve para percepcionar a dimensão da exortação. Quando falamos em corrupção, existe a imediata reacção de apontar o dedo aos outros, quase sempre aos mesmos: aos políticos. Porém, no seu estilo confrontador, duro, de um pai directivo para os seus filhos, ora de forma directa, ora nas entrelinhas, sob o tecto da Aula Paolo VI, em pleno Vaticano transmitiu aos líderes ali presentes que antes de apontar o dedo aos outros, cada um que se olhe ao espelho: numa exegese pessoal, percebam se também na sua forma de estar nas organizações contribuem para esta deterioração social, se alimentam esta distorcida forma de estar na vida e nos negócios. Ponderem se nas suas empresas promovem, nem que de forma velada, aqueles que pretendem crescer a todo o custo, que distorcem as regras antecipando favores, não olhando a meios para atingir os fins. Num sinal de aviso, de alerta, deixou a esperança para que cada um, em vez de apenas apontar o dedo, possa ser dissuasor desta forma de estar.

3) O risco final é o da fraternidade: “a empresa é uma comunidade de trabalho em que todos merecem um respeito e apreço fraternal por parte dos superiores, colegas e subordinados. O respeito pelo outro deve estender-se à comunidade e as diferentes formas solidárias de actuar das empresas deve ser um modo de estar habitual e não actividade ocasional para acalmar a consciência ou para obter um crédito publicitário”. Mais uma vez adverte a plateia de empresários, grande parte deles comprometidos com muitas destas causas, dando nota que esta posição fraterna deve ser um “estado” e não uma “passagem interesseira” meramente instrumental. Desafia para que cada um, nas suas organizações, possa transformar um “estado” de fraternidade em um “ser” de fraternidade.

Antes de apontar o dedo aos outros, cada um que se olhe ao espelho

É num contexto de imprevisibilidade mundial, numa Europa perdida, confusa, aberta, mas descaracterizada porque cada vez mais órfã de identidade, que os líderes empresariais se posicionam. A crise recente demonstrou-nos, sobretudo em Portugal, que as empresas foram um dos grandes factores de agregação social. Muitas atravessaram o deserto, sem abandonar clientes, fornecedores, o seu mercado, não marginalizando trabalhadores e, entre dificuldades, trabalharam na estratégia e no futuro.

Tarda-se em perceber o real valor das empresas e, para que não caia no esquecimento, nada melhor que estas palavras do Papa Francisco. Que termina a mensagem com a alegoria de Zaqueu, um dos mais indefectíveis cobradores de impostos romanos, riquíssimo, chefe dos Publicanos, odiado por muitos, e que quando vê Jesus aproximar-se sobe à árvore para o ver. Foi por Si chamado, para surpresa de todos que o odiavam, aproximando-se. Zaqueu, na Sua presença, arrependido, acaba por dar metade dos seus bens aos pobres e promete que se a alguém tiver extorquido, lhe devolveria quatro vezes mais.

Acabar a prelecção para uma plateia de empresários (muitos de sucesso) com esta parábola foi mais um arrojo daquele Pai duro que avisa, que orienta. Convidando a todos a subir à árvore para que, se em algumas das nossas fortunas extorquirmos alguém, devolvermos em quadruplicado. Quem lá esteve poderá ser o melhor testemunho desta mensagem.

A actuação solidária das empresas deve ser um modo de estar habitual

Se me perguntarem qual a grande impressão que o Papa Francisco deixou nesta audiência a líderes empresariais, respondo com prontidão: a forma despojada e sem medo como caminha. Professoral, assertivo, inclusivo, com mensagem desafiadora. Sem seguranças, livre.

Os três riscos por si enunciados são três lições para os empresários: 1) não é o lucro que se critica, mas o que fazemos com ele; 2) procurem soluções empresariais de honestidade, sem batotas corruptivas; 3) a empresa é uma comunidade de trabalho em que todos merecem um respeito e apreço fraternal por parte dos superiores, colegas e subordinados.

Palavras que inspiram, que podem ser fermento em cada um de nós, para todos – crentes e não crentes, pela voz de uma personagem notável, sem dúvida o líder mais inspirador que a actualidade nos oferece.