Opinião

Amo, logo existo…

A afirmação em título pode parecer estranha e inapropriada a uma cultura ocidental que, nos últimos séculos da nossa história, remeteu tudo o que não é racional, científico e eficiente, ao foro privado, oculto e intimo do indivíduo. A afirmação do amor como dimensão essencial do ser humano será, sem dúvida, o mote do século XXI que nos remete de novo (sim, porque já Santo Agostinho o dizia: Ama e o que quiseres, faz!), para uma visão do homem, no seu todo, como ser amado e ser amante em todas as dimensões do seu viver, incluindo o trabalho e a empresa.

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O que assistimos desde o Renascimento, particularmente com Descartes, foi a afirmação do homem apenas e só a partir do seu pensar. O “Penso, logo existo” afunilou toda a nossa existência no pensamento, como se a realidade só exista se eu pensar. Fora disso não existe nada.

Ora, toda essa chamada revolução Cartesiana levou-nos a construir uma civilização assente sobretudo no que a razão consegue demonstrar, no que a ciência consegue provar, no que a técnica consegue fazer! Toda a nossa vida individual e colectiva, na família, nas empresas, na sociedade em geral, está impregnada desta visão, a tal ponto que no final do século XX e ainda nos nossos dias, quase que levámos a frase de Descartes ao cumulo do: “Penso, logo êxito”! Há também quem nem sequer tenha tempo ou vontade para pensar, como são alguns casos em que se ficam pelo: “Penso, logo exausto!”

À parte este pormenor, o importante a reter é que toda esta visão do homem, que teve o seu início em Descartes, culmina nos nossos dias com a percepção da realidade sujeita apenas e só ao pensar humano. O ser e existir de toda a realidade é-o na medida em que nós pensarmos e definirmos.

Mas aqui é que entra o busílis da questão: cada homem e cada mulher continuam a fazer a experiência concreta do amor como base da sua vida, incluindo a profissional. A confiança, a credibilidade, a honestidade, e outras, não têm que ser demonstradas e testadas intelectualmente para fazermos delas as pedras firmes por onde atravessamos os rios da nossa vida. Estas dimensões sobre as quais assentamos, sem dar conta, toda a nossa vida, brotam do coração e não do intelecto. É nele que residem e é nele que se desenvolvem e revelam.

E é por isso que podemos chegar ao pleno dessas dimensões onde tudo se inclui e tudo brota: o Amor. Não se trata de querer tornar opostos, aqui e agora, o pensar e o amar. Trata-se, isso sim, de revelar algo que continuamente tendemos a esconder: o amor! Passar o centro do homem da cabeça para o coração é fazer uma revolução enorme nas nossas vidas, na nossa cultura, na nossa economia, nas nossas empresas, na nossa sociedade! Estaremos dispostos a isso? Será que isso nos fará mais felizes? E se nos fará mais felizes então é de concretizar em todas as áreas onde estamos, onde vivemos. Porque não começar pela empresa, pelo trabalho, cuja exigência de tempo e de disponibilidade mais requer no nosso dia-a-dia?

Centrar o homem no seu coração e não exclusivamente no seu pensar, ajudar-nos-á, com certeza, a compreender melhor o alcance da proposta da ACEGE lançada no seu V Congresso Nacional, com o tema: “O Amor ao próximo como critério de gestão”. Estaremos nós a concretizar a tal Civilização do amor, tão cara ao papa Paulo VI? Veremos… porque só saberemos quando fizermos a experiência.

Gonçalo Patrocínio