Opinião

A responsabilidade social das empresas e o Homem

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Refiro-me à importância central do Homem no mundo e à responsabilidade dos empresários e dos gestores quando definem os objectivos e as prioridades a serem aplicados nas empresas, face ao primado do Homem.

Não me alongarei, portanto, no conceito técnico de “ Corporate Governance” enquanto forma de controlo dos proprietários sobre a bondade da gestão das empresas.

Esta minha reflexão irá pois girar em torno de algumas ideias base, tais como:

A IDÉIA DE HOMEM.

A RESPONSABILIDADE DE CADA UM NO DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE.

A RESPONSABILIDADE DAS EMPRESAS.               

 A CENTRALIDADE DA ÉTICA.

Como me é concedido muito pouco tempo para esta intervenção, não sei se o conseguirei, mas gostaria de, através dela, poder contribuir para consolidar nos empresários e nos gestores, um desejo empenhado e constante que os leve a clarificar, e a fundamentar , os verdadeiros objectivos que importa definir na vida, pondo-os ao serviço das empresas.

Caso contrário, estaremos sempre a fazer discursos genéricos e superficiais sobre uma responsabilidade social das empresas, que mais não é, do que um conjunto de aspectos estratégicos, que servem enquanto servem, mas que não é aquela força interior, que no exercício da nossa actividade, nos leva a agir com firmeza, coerência e de forma constante.

A idéia de Homem é um tema que não é muito comum ser tratado quando se abordam questões sobre a gestão empresarial, mas que a meu ver é fundamental.

Isto é:

fala-se muito de responsabilidade social das empresas.

fala-se muito de cidadania empresarial.

fala-se na construção de uma sociedade mais justa, etc, etc.

Mas porque é que nos temos de preocupar tanto com estes temas?

Será que se trata de temas estratégicos que importa aplicar, porque levam as empresas a ter, no futuro, lucros mais elevados?

Será que abordamos estes temas porque os consumidores lhes dão cada vez maior importância e por isso, estrategicamente, é importante que falemos neles, para darmos uma imagem de preocupação?

É possível que as respostas a estas perguntas e a outras similares, possam ter a sua parte de sentido, mas, pessoalmente, penso que o que é realmente importante é sermos animados interiormente por uma razão profunda que dê uma resposta completa e um verdadeiro sentido, não só a todas estas preocupações, mas também a todo o nosso trabalho relacionado com a gestão das empresas, de forma a viver a gestão como missão.

Para mim, todas estas questões radicam na importância do Homem e estão relacionadas com um desejo de ajudar as pessoas a serem felizes.

“ É o Homem, criado por Deus, que é o princípio e o fim de toda a vida social, económica e política e ainda o protagonista e o primeiro destinatário de todas as coisas da terra.”

Quanto a mim, é aqui que se encontra a verdadeira base e a chave da interpretação, de todas as questões relacionadas com a gestão das empresas e com a sua responsabilidade social.

É esta a força interior?

– Que nos entusiasma com o que fazemos,

– Que dá sentido à nossa actuação

– Que nos leva a assumir plenamente as nossas responsabilidades enquanto empresários ou gestores,e que incute também em nós o desejo de excelência nas nossas empresas.

Um desejo de excelência que nos impele:

– A gerir as empresas com competência e eficiência.

– A lutar pelo lucro, na medida em que ele é um factor central do desenvolvimento, quer da empresa, quer de quantos nela estão integrados.

– A sermos transparentes sobre os projectos e em toda a actividade das empresas.

– A solicitar de cada colaborador o seu melhor desempenho e a incutir nele o sentido de responsabilidade pelos seus actos.

– A preocuparmo-nos com todos que trabalham na empresa.

– A zelar pela qualidade dos produtos realizados

– E faz ver que a empresa não está isolada, levando-nos a tomar as medidas ambientais adequadas.

É claro que esta forma de agir, este profundo respeito pela dignidade de quem trabalha na empresa, tem efeitos positivos e é bom que assim seja.

Contudo, o primado dos nossos objectivos e da nossa actuação radica no Homem e não especificamente na empresa, ou em outros interesses.

É por isso essencial reafirmar: que a empresa é uma comunidade de pessoas, fundada em interesses não coincidentes, mas orientada para finalidades comuns e estruturada segundo o princípio da cooperação e não do conflito.

É por isso que numa empresa, o sucesso empresarial e a dignificação do trabalho e dos trabalhadores não são realidades opostas, mas realidades que se complementam e potenciam mutuamente.

Porém, esta forma de estar e de agir, deve ser transmitida e assumida por todos aqueles que estão envolvidos na vida das empresas.

Nomeadamente, pelos proprietários ou accionistas, que devem ser os primeiros a olhar para as empresas como comunidades de pessoas, comungando dos consequentes critérios de actuação e percebendo que os lucros imediatos podem pôr em causa a empresa, enquanto a empresa desenvolvida de forma sustentada, é aquela que se posiciona correctamente, e é aquela que dá mais garantias de dar maiores lucros num médio prazo.

Os fornecedores, aos quais devem ser exigidos procedimentos semelhantes aos adoptados pela empresa.

E os consumidores que muitas vezes fazem exigências, mas que pessoalmente não estão dispostos a abdicar do produto de preço mais baixo e a dar preferência aos produtos das empresas que cumprem critérios e procedimentos responsáveis.

Um estudo desenvolvido pela ACEGE em colaboração com o jornal Expresso e a RR, mostrou que 90% dos entrevistados, não estavam dispostos a pagar um pouco mais por um produto que tivesse sido realizado eticamente, pelo contrário, davam preferencia aos produtos mais baratos, mesmo que a sua produção não tivesse obedecido a princípios éticos

É nesta linha, de procurar que os empresários e os gestores vejam as empresas segundo este prisma e actuem neste sentido que a ACEGE desenvolveu um CÓDIGO DE ÉTICA PARA EMPRESÁRIOS E GESTORES.

É que a transformação das empresas só pode ser realizada através da transformação das pessoas que a ela estão ligadas, especialmente daqueles que as dirigem.

E termino, recordando as palavras do Papa Paulo VI, quando em 1967 recebeu um grupo de empresários portugueses em representação da ACEGE, naquele tempo designada de UCIDT.

Disse então o Papa nessa altura:Desejais saber o que a Igreja espera dos chefes de empresa cristãos, que traços particulares pretende encontrar neles?

Entre tantas qualidades que poderíamos enumerar citamos três, que incluem, mais ou menos, as outras: HONESTIDADE, COMPETÊNCIA E SENTIDO SOCIAL