Opinião

A porta estreita: é por ela que encontraremos futuro!

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Portugal vive, presentemente, uma situação muito problemática e que está à vista de todos nós: uma economia com níveis de produtividade baixos; uma exposição muito frágil perante o exterior; uma carga fiscal pesada; uma conta do Estado asfixiada quer pelo deficit quer pela divida publica; um baixo nível de poupança interna; uma balança externa desequilibrada; um número de desempregados como nunca; um elevado descontentamento social; um nível de escolaridade insuficiente para os desafios de hoje; uma classe política desacreditada; uma elevada pressão de interesses exteriores sobre o Estado.

Perante este cenário, o que é normal em qualquer português que se “preze” é a tentativa de se “safar”. Na verdade, temos essa característica, a qual nos vem identificando ao longo dos tempos, e que é transversal a toda a sociedade atingindo, inclusivamente e agora mais do que nunca, a classe política!

Ora, o mundo de hoje é a aldeia global, e tal situação lança-nos para a consciência de que não vivemos sós, e mais do que isso, facilmente somos percebidos e avaliados, quer pela União Europeia onde nos encontramos, quer pela realidade internacional que nos envolve. Os critérios porque nos regemos e as opções que tomamos não passam despercebidos aos olhos dos nossos vizinhos tal como os deles são facilmente reconhecidos por nós.

O mundo global transformado nesta aldeia da proximidade, onde a distância geográfica perdeu o seu peso, tem, obviamente, reflexos no modo de viver, na maneira de actuar. E isso está a ser claramente provado neste momento de crise económica, financeira e sobretudo social. Alguém dizia que há um mundo antes de 2008 e outro mundo que começou a nascer depois da crise financeira internacional. Tem razão e já estamos a verificar isso mesmo. Esse mundo está a dar os seus primeiros passos e, como qualquer nascimento, está a começar pelos passos difíceis e ainda inseguros, em busca da sua identidade. Assim está a Europa neste momento, assim estamos nós em Portugal.

É nesse contexto que salta para primeiro plano não tanto os sucessos ou insucessos imediatos, as percentagens ou os números, mas a postura, a maneira de agir, enfim, a credibilidade. Uma vez mais, perante os problemas e situações negativas, a ética sobe para o topo das prioridades, quer no plano pessoal quer no plano social e de comunidade. Assim, somos desafiados, homens e mulheres, em qualquer situação que estejamos (na empresa, na família, no serviço público e politico, nas associações, até mesmo no desemprego) a ser simples, transparentes, firmes, rigorosos, verdadeiros, para sermos credíveis. Daqui se destaca a actuação politica a qual tem de reencontrar a sua identidade nestes princípios e valores. A economia de mercado e a Democracia não subsistem à mentira, ao atropelo, à luta desenfreada pelo protagonismo, pela manutenção de interesses pessoais e de grupo.

Noutras alturas atitudes menos responsáveis até poderiam passar despercebidas. Mas neste momento é fulcral. Mais do que explorado, Portugal tem de ser amado! Há que dar à sociedade sinais de confiança, de força, de convicção na verdade, e sobretudo de Esperança. É por isso que o caminho que o país atravessa neste momento é estreito, a porta que se nos depara neste momento e na próxima década é uma porta muito estreita e que nos obriga a todos – famílias, empresas e Estado – a ter que passar por ela, por três razões fundamentais: em primeiro lugar para nos obrigar a emagrecer a divida e o desperdício financeiro em que construímos os últimos anos da nossa vida colectiva e individual; em segundo lugar por solidariedade para com os pobres e sobretudo os 500 mil desempregados que já estão a percorrer esse caminho estreito e de austeridade e que não podem nem devem ser os únicos a arcar com este problema; em terceiro lugar porque temos a certeza absoluta que a situação que encontraremos à saída desta porta será bastante melhor que aquela com que para lá entrámos.

Gonçalo Patrocínio