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A Economia de Francisco, por César das Neves

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Um equívoco, um erro de interpretação, ensinamentos que têm sido distorcidos por utilizações ideológicas. Frases que são realmente contundentes, mas que são usadas como armas de arremesso, para um “negócio” que nada tem a ver com o Papa. De uma forma muito sintética, é assim que João César das Neves traduz a polémica e controvérsia acesa a que temos vindo a assistir sobre os pronunciamentos económicos do Papa. Que não é um teólogo da economia, nem quer ser, mas sim um pastor, como sempre foi
POR
HELENA OLIVEIRA

Nota prévia:A Economia de Francisco – Diagnóstico de um equívoco”, livro do economista João César das Neves, lançado a 13 de Março do corrente ano, dia em que se assinalou o terceiro aniversário do pontificado de Francisco, serviu de mote a mais um debate da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores, o qual teve lugar a 20 de Maio último. Na medida em que o propósito do livro em causa não é o de fazer “uma análise económica das posições do Papa Francisco, discutir a sua validade ou medir o seu impacto na realidade empresarial”, mas antes “ouvir o Papa como ele quer ser ouvido”, como escreve o próprio autor na Introdução do mesmo, o volume em causa não deixa, por isso, de constituir um extenso, meticuloso e meritório trabalho – que ocupa mais de 500 páginas. Assim, e na apresentação que fez na ACEGE, César das Neves aflora, apenas, algumas das principais ideias que o levaram a considerar que existe um erro de interpretação no que ao “discurso económico” do Papa diz respeito, sendo este tão e somente dedicado “a questões religiosas, espirituais e morais”, apesar de esta “tese do equívoco” não pretender menorizar as posições do Papa no campo económico. Assim, e no artigo que segue, e dada a dificuldade em resumir o discurso do orador em poucas linhas, em conjunto com a impossibilidade de se sintetizar toda a estrutura narrativa subjacente a esta obra em particular, o VER fará um “mix” das principais ideias apresentadas por “João César das Neves, orador”, complementando-as com informações relevantes de “João César das Neves, autor”. Uma tarefa ingrata que, para os que realmente se interessam pelo “choque económico” despertado por este Papa, não substitui a leitura do livro em causa.

“Faz mais barulho uma árvore que cai do que uma floresta que cresce” – Papa Francisco

Afirma César das Neves que não é costume dedicar-se muito tempo a falar-se de “economia” e de “Papas” em simultâneo, apesar de este tema fazer parte, “naturalmente”, dos seus discursos. João Paulo II fê-lo, tal como Bento XVI. Mas e mesmo assim, ao analisar os seis, sete primeiros meses do pontificado de Francisco, afirma o orador que a economia não era, de todo, a sua principal preocupação, nem se esperava que o fosse.Depois de um período de surpresa que não deixou ninguém indiferente, e de uma verdadeira lua-de-mel com crentes e não crentes – dada a originalidade que caracteriza este Papa – tudo muda, e de forma inesperada, em Novembro de 2013, quando é divulgada a sua primeira exortação apostólica – a Evangelii Gaudium– ou a Alegria do Evangelho, “que era suposto ser uma simples exortação pós-sinodal – relacionada como o trabalho do sínodo realizado pelo seu antecessor -, mas que acabou por se transformar num manifesto deste prontificado”, afirma César das Neves.

A grande novidade da exortação apostólica Evangelii Gaudium – e que acabou por ser o tema que “assombrou os demais”, foi exactamente a questão da economia, apesar de “a exortação em causa não ser sobre economia, mas sobre evangelização”

Como também declara, o que é verdadeiramente extraordinário consiste no facto de o Papa ter conseguido ser “extremamente fiel ao trabalho anterior do sínodo, mas de uma forma completamente original e em conjunto com os temas que já nos vinha habituado dar a conhecer, através das suas várias intervenções até então”. Todavia, a grande novidade – que acabou por ser o tema que “assombrou os demais”, foi exactamente a questão da economia, apesar de “a exortação em causa não ser sobre economia, mas sobre evangelização”.

Ora e para quem está familiarizado com a mesma, a verdade é que existem apenas dois trechos – um sobre o “ambiente” em que se dá esta exortação e outro sobre as implicações sociais da evangelização – que estão directamente ligados com a “questão económica”. E é “nessa pequeníssima parte da exortação” que o Papa profere frases tão “bombásticas que viriam a estimular um debate enorme que não parou até hoje”, e de que são exemplo “não mais podemos confiar nas forças cegas e não mão invisível do mercado” ou “devemos dizer não a uma economia de exclusão e de desigualdade social, esta economia que mata”.

A expressão “esta economia que mata” seria assim o gatilho para o que se seguiria, “na medida em que foi transformada num soundbite extraordinário, especialmente depois de ser retirada do seu contexto, com um imenso estouro, e considerada como uma frase chocante”, adianta ainda César das Neves, acrescentando que e apesar do seu teor bombástico, não era assim tão chocante quanto as “de um outro Senhor” que afirmou, por exemplo, “não podeis servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro”, ou seja, assegura, as afirmações de Francisco seguem apenas a tradição do “Mestre”.

A expressão “esta economia que mata” seria assim o gatilho para o que se seguiria, “na medida em que foi transformada num soundbite extraordinário, especialmente depois de ser retirada do seu contexto, com um imenso estouro, e considerada como uma frase chocante”

O professor de Economia recordou igualmente que, a 18 de Junho, e com a publicação da Laudato si, e ao contrário dos que afirmaram que esta era uma encíclica ecológica, esta é, sim, um “texto ambiental, tendo como tema inicial a ecologia, mas que se desenrola de seguida numa análise de toda a economia e de todas a sociedade, contendo partes igualmente bombásticas” como por exemplo “a economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano”. Para César das Neves, a “violência” das palavras de Francisco tem aqui uma maior expressão, na medida em que já não é “esta economia”, mas “a” economia, que é aqui condenada abertamente. Entretanto e por esta altura, já o Santo Padre tinha feito outras intervenções variadas e incendiárias – “se tu escolhes o caminho do dinheiro, no final serás um corrupto” ou, mais famosa ainda, a sua própria interpretação livre de uma frase de São Basílio Magno, “o dinheiro é o esterco do diabo”.

Assim e questiona o orador: “o que podemos dizer sobre tudo isto?” A primeira coisa é que o Papa tem razão: quando afirma “não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado”, é verdade, na medida em que o “crescimento é muito mais do que o crescimento económico e que temos de ter em especial atenção a aspectos de (des)igualdade”. Verdadeira é igualmente a sua afirmação de que “a economia não pode ceder a remédios que são um bom veneno”, como também declara e, por fim, é também legítimo afirmar que “a economia de exclusão mata”. Todavia – e aqui se começam a desenrolar os fios do novelo do equívoco, “este discurso não é sequer uma novidade” – pois outros antes dele já o tinham afirmado – mas é apenas uma forma “nova”, de “guilhotina”, de o declarar.

Assim, o “problema”, para César das Neves, é que o Papa tem sido bastante mal interpretado, e é esse o ponto que pretende sublinhar, porque a verdade é que são muitos aqueles que pegam nestas frase, que “são realmente contundentes, mas que são usadas como arma de arremesso, para um ‘negócio’ que nada tem a ver com o objectivo do Papa”, assegura.

O equívoco: o erro conceptual e o erro pragmático

Para o autor de “A Economia de Francisco”, o primeiro erro consiste no facto de o Papa ser citado “fora do contexto” e de as suas palavras acabarem por se traduzir em significados dúbios. De acordo com o ponto de vista do orador, quando o Papa profere estas palavras, “não está a expressar um juízo sobre os mercados ou uma análise sobre a estrutura da sociedade”. Está, ao invés, “a falar de religião, da salvação das almas, preocupado com todos aqueles que se perdem, porque se deixam dominar por aquele tal senhor que não podemos seguir”.

De acordo com o ponto de vista do orador, quando o Papa profere estas palavras, “não está a expressar um juízo sobre os mercados ou uma análise sobre a estrutura da sociedade”. Está, ao invés, “a falar de religião, da salvação das almas, preocupado com todos aqueles que se perdem, porque se deixam dominar por aquele tal senhor que não podemos seguir”

Como refere também, é o próprio Francisco que não se cansa de afirmar que “alguém que se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e as melhores intenções” – ao contrário da maior parte dos comentadores, que não têm nem estima nem a melhor das intenções, acrescenta César das Neves -, “longe de qualquer interesse ou ideologia pessoal” – ao contrário da maior parte dos comentadores que normalmente têm um interesse pessoal e uma ideologia politica, refere o orador – e “a minha apalavra não é de um inimigo ou de um opositor e interessa-me apenas procurar quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, que se possam libertar dessas cadeias indignas e que alcancem um estilo de vida mais humano, mais nobre, mais fecundo e que dignifique a sua passagem por esta terra”.

Ou seja, “as pessoas estão a interpretar estas palavras em termos ideológicos”, ou, por outras palavras, a “capturar o Papa para as suas lutas”, sublinha o orador, acrescentando que até é compreensível que o façam, apesar de não ser isso que Francisco pretende afirmar, havendo aqui e desde logo “um equívoco, um abuso”, na medida em que o Sumo Pontífice diz continuamente que “não está a falar de ideologia, mas sim de doutrina”. João César das Neves conta um episódio, ocorrido no regresso de uma visita ao Paraguai, em que o Papa confessa aos jornalistas “ter uma enorme alergia à economia”, visto que o seu pai, contabilista, trazia trabalho para casa aos sábados e aos domingos. Em suma, e mais uma vez, o Papa não opina sobre questões económicas, mas fala simplesmente “da alma, da finalidade da nossa vida”.

“As pessoas estão a interpretar estas palavras em termos ideológicos”, a “capturar o Papa para as suas lutas”, sublinha o orador, acrescentando que até é compreensível que o façam, apesar de não ser isso que Francisco pretende afirmar, havendo aqui e desde logo “um equívoco, um abuso”, na medida em que o Sumo Pontífice diz continuamente que “não está a falar de ideologia, mas sim de doutrina”

E acrescenta o orador: “se somos escravizados pela empresa, pelo dinheiro, pela carreira, etc., e depois, e por causa disso, cometemos as injustiças e criamos o sofrimento das nossas sociedades”, o que acontece é que o Papa “dá um grito de Pai” e não sugestões políticas ou económicas, estando apenas preocupado com a forma de “se resolver este sofrimento”.

Mas a verdade é que a partir do momento em que as suas “frases bombásticas” foram proferidas, todos pretendem falar e questionar o Papa sobre os assuntos económicos, sendo que existem dois conceitos que são centrais ao seu pensamento sobre o tema, como o são também na Doutrina Social da Igreja (DSI): o destino universal dos bens e a opção preferencial pelos pobres.

Sobre o primeiro, o destino universal dos bens, considerado por João Paulo II -, por muitos encarado como “amigo do capitalismo e da liberdade do mercado”, o oposto aos que definem o Papa Francisco como “socialista” – como o “princípio de toda a ordem ético-social” e que reza que “Deus destinou a Terra para todos”, a verdade é que sempre “que as nossas instituições, que as nossas politicas ou acções não permitem que a terra seja destinada a todos, não estamos a cumprir este principio”; e o segundo – a opção preferencial pelos pobres – que tal como o primeiro, figura no Evangelho, na Escritura, e está progressivamente presente em toda a DSI, pode ser considerado, como escreve no livro, “como o lema central do Papa Francisco, de tal modo persiste a cada passo no seu raciocínio”, e que é tratado também na encíclica Centesimus Annus [escrita por João Paulo II, em 1991].

02062016_AeconomiaAssim, e para terminar o seu raciocínio sobre o primeiro erro, o erro conceptual, de má interpretação do que o Papa pretende dizer, assegura César das Neves que, em termos de percentagem ou de vezes em que Francisco fala realmente de economia, esta é muito pequena, contrariando a nossa própria ilusão de que, quando fala, é sempre de economia.

Insistindo na “perda de contexto” e que, ao contrário de João Paulo II e Bento XVI , Francisco nem sequer faz um tratamento cuidadoso destes temas, estando antes a chamar a atenção para os dois conceitos primordiais acima referidos, César das Neves passa ao segundo erro, pragmático, e que está relacionado com a resposta tendencial que todos temos relativamente às críticas que Francisco profere sobre a realidade que nos rodeia, e que é sempre de natureza política ou económica. Quando identificamos “um problema de pobreza” e nos questionamos sobre “qual é a solução?”, esta é, supostamente, sempre económica ou política. O que, “não sendo mau, não é isso que o Papa pretende transmitir”. E explica: “quando afirma que não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado’, então em quem podemos confiar? Em Jesus Cristo. Se ‘esta economia mata’, quem é que dá a vida? Jesus Cristo”. A verdade é que, para César das Neves, “a resposta que o Papa tem é muito mais poderosa do que todas as nossas respostas e que, como sabemos, acaba por ter importância nas nossas vidas, naquilo que fazemos na politica, na economia (…)”. E esquecer esse “pequeno detalhe, quando ele fala de economia, que é a referência a Cristo, que é a conversão do coração, que é a mudança das nossas almas (e antes de começarmos a mudar as instituições, as politicas), enquanto não percebermos isto, tudo o que andamos a dizer sobre o Papa, sai completamente ‘ao lado’”, reforça ainda.

O cânone económico de Francisco e os três pilares que o sustentam

Afirma também César das Neves que, depois de “olhar” para todos os discursos de Francisco e tendo em conta apenas as “pequeníssimas partes em que o Papa fala realmente de economia”, esta representa apenas 11% do “total das suas palavras” – o que não é “pouca coisa, já que o homem fala que se farta”, acrescenta, entre risos. Mas a verdade é que fala mais, e muito bem, de questões sociais. Confessando que se atreveu a criar aquilo que denomina como “o cânone económico de Francisco”, o também economista César das Neves acaba por o “arrumar” em três pilares por excelência.

Afirma também César das Neves que, depois de “olhar” para todos os discursos de Francisco e tendo em conta apenas as “pequeníssimas partes em que o Papa fala realmente de economia”, esta representa apenas 11% do “total das suas palavras” – o que não é “pouca coisa, já que o homem fala que se farta”

O primeiro é a miséria, em conjunto com o sofrimento e nas suas mais variadas formas. Como escreve no livro: “quando Francisco fala das questões económicas, o primeiro elemento que surge, como vimos, é a miséria do povo. Ele chega normalmente à economia pelo lado do sofrimento e da carência” [pág. 198], escreve. “ (…) Esta miséria não é simples e unívoca, pois inclui muitos aspectos e elementos. Em primeiro lugar, trata-se da pobreza material, da fome e da privação extrema, incluindo o trabalho escravo” [pág. 200]. César das Neves recordou, no evento da ACEGE, o muito que o Papa, enquanto Jorge Bergoglio, fez na Argentina, sendo exemplo a missa anual que resolveu celebrar, na praça principal de Buenos Aires, sobre escravatura e tráfico de pessoas. Não esquecendo que Francisco é argentino, e que o seu país natal é um dos casos mais complexos e simbólicos para os próprios economistas – “uma catástrofe”, como diz, o que é extraordinário é que quando chega a Roma, não muda o seu discurso. Ou seja, e como também escreve no livro, e estando a pobreza ligada à extrema desigualdade, esta consiste num dos aspectos mais perigosos deste primeiro pilar. De facto, “a desigualdade é a raiz dos males sociais”, como profere o Papa na Evangelii Gaudium, sendo que os enormes riscos que ela representa para a saúde social e política do povo são referidos a vários níveis. “O caso extremo desta situação, que Francisco encontra em áreas muito inesperadas, é a escravatura. Esta palavra, que anda muito arredada do discurso sociopolítico, pelo menos ocidental, ganhou uma enorme visibilidade desde o início deste pontificado, precisamente pela frequência com que o Papa denuncia casos desses”, escreve ainda no livro. Mas e em suma, constituindo este primeiro pilar, é a miséria – revestida nas suas diversas formas, seja na pobreza, no desemprego, no drama dos refugiados, no drama de perda das famílias, entre muitas outras – que Francisco toma como seu ponto de partida.

Quando Francisco fala das questões económicas, o primeiro elemento que surge, como vimos, é a miséria do povo. Ele chega normalmente à economia pelo lado do sofrimento e da carência

O segundo pilar, definido como “a maldade do sistema” em muito faz uma identificação clara da “culpa do sistema social em que vivemos”, afiança César das Neves, sublinhando o nexo de causalidade existente entre o primeiro pilar – a miséria e o sofrimento – e o segundo, o sistema socioeconómico, o qual, na análise económica de Francisco surge como o “culpado”, na medida em que “as desgraças deste mundo têm, antes de mais nada, uma razão comum, comunitária, sistémica” [pág. 221].Já o terceiro pilar integra a razão de tudo isto: a idolatria do dinheiro, que consiste na explicação que mais vezes é utilizada pelo Papa para compreender os males económicos. “Num tempo confuso e desorientado, a verdadeira divindade é substituída por um ídolo enganador”, escreve o economista, recordando ainda o “bezerro de ouro” e todos aqueles que por ele se deixam dominar.

A resposta económica de Francisco

Escreve César das Neves, no capítulo 7 do seu livro [pág. 482], e que corresponde ao intertítulo acima escolhido: “ao longo de todos os capítulos anteriores fizemos um esforço para identificar e analisar as principais intervenções do Papa Francisco acerca de temas económicos. Foi ficando claro que, não sendo esta uma área da sua predilecção, ele tem um pensamento sólido, coerente e muito valioso que reproduz o núcleo essencial da doutrina social da Igreja. Vimos também como esse ensinamento tem sido distorcido por utilizações ideológicas, que o têm acusado ou distorcido em defesa de posições alheias. O que ainda resta é considerar soluções que o Papa tem apresentado para lidar com os problemas que têm sido identificados”.

Sublinhando, mais uma vez, que Francisco é um líder religioso e que “a esmagadora maioria dos seus pronunciamentos e afirmações dirigem-se a questões espirituais, pastorais, morais e teológicas”, César das Neves elegeu, na sua intervenção, três grandes aspectos que, a seu ver, constituem os pilares da “resposta” económica do Papa

Referindo, na ACEGE, que as suas próprias propostas são simples, César das Neves sintetiza a análise dos discursos do Papa, ou o próprio Francisco, como alguém que “gosta muito de palavras, de imagens” e que tem também um “bergoglismo”, ou seja a “mania de inventar palavras”. Mas e apesar de o livro se dedicar intensa e extensamente a alguma propostas políticas concretas que Francisco tem vindo a sugerir – sem se esquecer de sublinhar, mais uma vez, que Francisco é um líder religioso e que “a esmagadora maioria dos seus pronunciamentos e afirmações dirigem-se a questões espirituais, pastorais, morais e teológicas”, César das Neves elegeu, na sua intervenção, três grandes aspectos que, a seu ver, constituem os pilares dessa mesma “resposta”.

Comecemos pelo primeiro, o denominado “princípio da cultura do encontro”, ao qual, “num mundo de descarte e idolatria” se junta “a arte do acompanhamento”, um conceito estreitamente relacionado com o diálogo, e pelo qual o Papa nutre uma “simpatia especial”. Para César das Neves, esta cultura do encontro deve ser utilizada exactamente em oposição à “cultura do descarte”, sempre “acusada nas suas intervenções” – e que se aplica não só a “coisas”, mas aos jovens, aos idosos, aos desempregados, entre outros, e que resulta “directamente do fascínio tecnológico e da idolatria do dinheiro e se traduz na miséria de tantos” [pág. 228]. Esta cultura do encontro, na qual se inclui o diálogo e o acompanhamento” é referida no livro como uma condição indispensável de sobrevivência, ou, tal como referiu o próprio Papa na sua visita apostólica ao Brasil, em Julho de 2013, “ou se aposta no diálogo, na cultura do encontro, ou todos perdemos”.

Ou se aposta no diálogo, na cultura do encontro, ou todos perdemos

O segundo pilar é o das “periferias”, uma “outra palavra que o Papa trouxe à vida dos cristãos”, escreve César das Neves, contextualizado a partir “do sistema que descarta a e cria zonas de refugo, comunidades afastadas dos centros de poder” [pág. 232).Já o terceiro pilar está relacionado com o problema da globalização. Francisco não é contra a globalização, considerando-a essencial, mas é contra a “globalização que uniformiza, que coloca todos à mesma distância do centro”. E é também por isso que o Papa tem particular apreço por uma imagem, utilizando-as muitas vezes e que convida “à substituição da esfera da globalização pelo poliedro”. E, recorrendo-se mais uma vez ao livro, “ a referência ao poliedro, que anula a esfera viciosa, é uma imagem da cultura do encontro que vence a cultura do descarte”, escreve César das Neves, acrescentando que “ Francisco é a favor da globalização, mas de uma globalização de identidades, uma globalização de comunidades, uma globalização de povos que praticam, quer dentro de si mesmos, quer entre si, uma verdadeira cultura do encontro” [pág. 491].

“Francisco não é um teólogo, é um pastor e sempre foi um pastor”

No final da sua intervenção, o professor catedrático da Universidade Católica Portuguesa sublinhou, de forma (ainda mais) veemente que, ao contrário de João Paulo II e de Bento XVI – o Papa não é um teólogo, “nem quer ser”, “é um pastor e sempre foi um pastor”, tendo contudo “simpatias muito próprias por um ramo da teologia da libertação, que é a denominada teologia do povo”. E no livro define os seus elementos centrais da seguinte forma: “É na vida concreta da comunidade, ‘rostos e nomes’, que se define o encontro. Esta não é uma solução ideológica, um modelo teórico, um mecanismo a implementar. É uma atitude perante aqueles que nos rodeiam, vivida sob a poderosa mão de Deus no amor contínuo aos irmãos” [pág. 487].

E, para terminar, elenca ainda os quatro princípios que sempre acompanharam Francisco, enquanto padre jesuíta primeiro e Cardeal Jorge Bergoglio depois, e que lhe continuam a servir de orientação na actualidade. Confessando ter tido o atrevimento de considerar estes “princípios” como “critérios” – “o que cria um problema técnico complicado”, acrescenta -, César das Neves afirma que os mesmos se encaixam, na estrutura da doutrina social da Igreja, de uma forma nova, e que têm estado sempre presentes não só na Evangelii Gaudium, como também na Laudato si’, e em muitas outras intervenções. E são eles [pág. 384-388]:

  • O tempo é superior ao espaço: “Este princípio permite trabalhar a longo prazo, sem a obsessão pelos resultados imediatos. Ajuda a suportar, com paciência, situações difíceis e hostis ou as mudanças de planos que o dinamismo da realidade impõe (…)”[EG 223];
  • A unidade prevalece sobre o conflito: segundo o Papa, as contendas são inevitáveis e devem ser aceites como tais, sem no entanto as deixar prevalecer. “(…)mas há uma forma, a mais adequada, de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo” e “Felizes os pacificadores” [Mt 5,9] e [EG 226, 227];
  • A realidade é mais importante que a ideia: “Há políticos – e também líderes religiosos – que se interrogam por que motivo o povo não os compreende nem os segue, se as suas propostas são tão lógicas e claras. Possivelmente é porque se instalaram no reino das puras ideias e reduziram a política ou a fé à retórica (…)”[EG 232], o que pode ser extensível aos “investidores, empresários, gestores e inovadores, e também aos consumidores e trabalhadores”, acrescenta o autor;
  • O todo é superior à parte: para César das Neves, este quarto critério parece “formulado exclusivamente em termos económicos. A economia é hoje um fenómeno global, não apenas em termos planetários, como conceptuais. Ou seja, encontram-se globalizadas as dimensões culturais, políticas, sociais, artísticas, ambientais. Apesar disso, o elemento económico continua a ser prevalecente, pelo que a tensão entre o global e o local tem tradução evidente no campo económico”, escreve. “ (…) O todo é mais que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas. Portanto, não se deve viver demasiado obcecado por questões limitadas e particulares. É preciso alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior que trará benefícios a todos nós. Mas há que fazê-lo sem se evadir nem se desenraizar” [EG 234-235] ”.

Quanto a estes “princípios” para o Papa, e “critérios” para João César das Neves, a sugestão é “olharmos à nossa volta e meditarmos sobre eles”. De seguida, afiança o professor, autor e economista, “teremos resultados muito positivos seja na teoria da gestão, na análise económica e também na prática concreta da economia”.

É que e na sua essência, a finalidade de Francisco é “atingir as nossas consciências, questionar as nossas rotinas e mudar as nossas atitudes”.